Vladimir Carvalho, o artesão da memória

Vladimir Carvalho, o artesão da memória

Rodrigo Fonseca

31 de janeiro de 2021 | 13h55

Vladimir Carvalho em .doc da Caliban

Rodrigo Fonseca
Corre pelo whatsapp da comunidade cinematográfica brasileira um delicado vídeo perfumado de admiração, produzido pela Caliban de Silvio Tendler (diretor de “Anos JK”) em homenagem ao aniversário de um dos mais cultuados áses do documentário na América Latina: o paraibano Vladimir Carvalho que completa 86 anos neste 31 de janeiro. “Vamos homenagear esse guerreiro que luta há muitos anos por um país melhor, pela arte, pela cultura, pelo cinema. Vamos homenageá-lo e abaixo a censura econômica que nos estrangula. Censura nunca mais!”, escreveu Tendler, em tributo ao colega de não ficção, a que considera um mestre. E com razão. Radicado em Brasília há décadas, onde fez história não apenas como cineasta, mas como professor, o realizador de “O País de São Saruê” (1971) finalizou em 2019 “Giocondo Dias – Ilustre Clandestino” e já tem um projeto novo a caminho, ligado à geografia do Distrito Federal.
“Tem muita coisa em Brasília pra contar. Eu vi aquela cidade crescer diante de mim. Lecionei pra muitos que estão lá criando. Vi aquele espaço fazer História. Desde que me instalei em Brasília, já faz meio século que filmo a Esplanada dos Ministérios, a partir da ideia de que ela era destinada ao recreio das famílias nos domingos e feriados. O velho e bom Burle Marx viu ali um parque especial com paisagismo que seria como um mosaico da flora brasileira de todos os quadrantes, do cactus à araucária, da castanheira ao buriti. Virou uma praça de guerra, dividindo os brasileiros. Foi das obras do projeto Niemeyer-Costa que ficou para depois. Vai virar filme”, contou Vladimir ao Estadão, em 2020, quando se comemoravam os 60 anos de “Aruanda”, um dos pilares do cinema moderno brasileiro, do qual ele participou.

Cícero Dias encontra Picasso em suas andanças pela França: esta é uma das histórias narradas pelo .doc do carvalho paraibano

Pilotada por Linduarte Noronha (1930-2012), a produção – encarada como uma centelha do projeto cinemanovista de Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade, Cacá Diegues e cia. – conta a história dos remanescentes de um quilombo em Serra do Talhado, na Paraíba, mostrando o cotidiano dos moradores, jornadas de plantio e feitos de cerâmica “primitiva”. Seu roteiro trazia um componente ficcional, com habitantes da região representando seus antepassados, partindo da encenação para promover uma investigação sobre as contradições sociais de populações excluídas pelo planejamento dos políticos. “No Liceu paraibano, fui aluno de Linduarte, que era mais velho do que eu uns cinco anos. Voltamos a nos encontrar quando eu já escrevia crítica de filmes nos jornais. Quando ele ganhou um prêmio internacional de fotorreportagem, resolveu adaptar um outro texto seu sobre um ex-quilombo. Ali, ele chamou a mim e a João Ramiro Mello para escrevermos juntos o roteiro”, recorda-se Vladimir, que, anos mais tarde, rompeu com Linduarte por não ver seu nome dos créditos, sem, contudo, deixar de falar dele com admiração e respeito, esbanjando uma nobreza que lhe é peculiar.
Em 2016, Vladimir lançou um filme memorável, que atesta sua maturidade (e seu frescor) à direção: “Cícero Dias, o Compadre de Picasso”, que concorreu no festival É Tudo Verdade. Nele, o octogenário diretor – reconhecido como um poeta da investigação, com uma obra mais calcada na força da palavra, expressa por meio de entrevistas, arquivos e pesquisas – passou para um outro e mais elevado (e enlevado) patamar: o de poeta da imagem. Desde o supracitado “O País de São Saruê”, Vladimir não construía um discurso visual tão requintado, seja no arranjo da montagem, seja (sobretudo) no âmbito dos enquadramentos. Talvez a argamassa mais indireta do longa – a pintura de Cícero – tenha inspirado um arranjo narrativo de maior potência em termos de dramaturgia de plano do que o material visto nos .docs anteriores dele, como “O Engenho de Zé Lins” (2006) e “Rock Brasília” (2011), no qual a musculatura investigativa chamava mais atenção do que sua epiderme fotográfica.

Em “Cícero Dias”, vemos uma estrutura cíclica, na qual o porto de partida e o de chegada é o mesmo: uma lápide em Paris onde se lê “Eu vi o mundo… ele começava do Recife”. Dali pra frente, Vladimir exuma o corpo ali enterrado, mais preocupado em fazer uma história afetiva do Modernismo – e suas vertentes distintas – no mundo do que em formatar uma cinebiografia clássica. Entre arquivos e depoimentos, numa colcha de memórias, a câmera se abre e se fecha em túneis do Rio Sena, no colorido de telas, nas recordações em processo de despedaçamento. Sobram, intactos, a jornada de criação de um intelectual das tensões brasileiras e um périplo sobre as linguagens modernas alinhavadas no esperanto de uma pincelada

Falando de Silvio Tendler, nesta terça-feira, às 18h, ele participa do Cineclube Macunaíma, da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) analisando um de seus maiores sucessos: “Jango”, de 1984. Ricardo Cota faz a mediação. Laureado com o Prêmio Especial do Júri em Havana, a produção analisa a carreira política de João Belchior Marques Goulart (1919-1976), o único presidente brasileiro morto no exílio, acompanhando seus feitos desde sua eleição a deputado estadual, em 1947, até seu sepultamento em 1976, na sua cidade natal de São Borja (RS). Dono de uma bilheteria que tomou espectadores de assalto, com cem mil ingressos vendidos só em sua arrancada em cricuito, o longa-metragem vai ser exibido no canal do YouTube da ABI às seis da tarde e debatido na sequência por Bárbara e Denize Goulart (neta e filha do ex-estadista), o jornalista Antero Cunha e o historiador Daniel Aarão Reis.

p.s.: Nesta quarta-feira, às 17h, uma sessão de “Vitalina Varela”, de Pedro Costa (Leopardo de Ouro em Locarno, em 2019), inaugura a mostra “De Portugal Para o Mundo”, no CCBB-RJ. Até o dia 1º de março, o evento vai exibir cults como “Colo”, da ganial diretora Teresa Villaverde, indicado ao Urso de Ouro de Berlim, em 2017, e “A Fábrica de Nada”, que saiu de Cannes, há quatro anos, com o prêmio da Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (Fipresci). Nesta sexta-feira, às 17h30, o CCBB exibe “O Estranho Caso de Angélica” (2010), um dos filmes mais aclamados de Manoel de Oliveira (1908-2015). No dia 12, é dia de a retrospectiva revisitar a ironia de Miguel Gomes e seu “Tabu” (2012), que saiu do Festival de Berlim com o Prêmio de Inovação de Linguagem, tendo o ator catarinense Ivo Müller em seu elenco.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.