‘Viver Para Cantar’: a música da perseverança

‘Viver Para Cantar’: a música da perseverança

Rodrigo Fonseca

18 de outubro de 2020 | 10h37

“Viver Para Cantar” (“Huo zhe chang zhe”) começou sua carreira em Cannes, na Quinzena dos Realizadores

Rodrigo Fonseca
Em cartaz na rede Espaço Itaú em São Paulo e no Rio de Janeiro (onde pode ser visto ainda no Cine Casal Barra Point), “Viver Para Cantar” (“Huo zhe chang zhe”) vem arrebatando corações e mentes na reabertura do circuito exibidor brasileiro (fechado de março a setembro pela pandemia), impondo-se pela delicadeza de sua narrativa ao cartografar os encantos da ópera chinesa. A direção é de Johnny Ma, um chinês radicado no México que rodou um filme no Rio de Janeiro, em 2010: o curta-metragem “O Gênio de Quintino”. “Morei um período no bairro da Glória e foi um bonito período de investigação de uma cidade”, disse o cineasta por e-mail ao Estado de S. Paulo, ao conversar sobre seu delicado drama de tons musicais que começou sua trajetória mundial pela Quinzena dos Realizadores de Cannes, em 2019.
Protagonizado por artistas da Ópera de Sichuan da vida real, “Viver Para Cantar” retrata a história da luta de uma pequena trupe contra uma separação forçada pela verticalização da cidade em que se apresenta, num contexto de gentrificação e desmantelo urbano. Sua trama se ambienta em um bairro em ruínas que está prestes a ser demolido para dar lugar a altos prédios. As sequências da demolição ao som de “Ave Maria” são devastadoras. É em uma rua não asfaltada, de chão batido, que fica a sala de espetáculos em que vivem e se apresentam os tradicionais artistas de ópera comandados por Zhao Li (vivida por Zhao Xiaoli). Ela, que rejeita as sugestões de modernização feitas pelos demais integrantes do grupo, recebe uma carta informando sobre o fechamento do teatro, mas mantém o problema em segredo dos outros, que vivem e trabalham juntos há cerca de uma década. Mas um problema pessoal com uma sobrinha que decide ganhar a vida cantando em um inferninho vai deflagrar uma mudança em suas severas atitudes.
“A história de ‘Viver Para Cantar’ foi filmada no subúrbio de Chengdu, que é uma cidade de aproximadamente 13 milhões de pessoas. É a capital da província de Sichuan, no oeste da China. É conhecida internacionalmente por seus pandas e também por ser baldeação para os turistas interessados em visitar o Tibete. Sichuan Opera é o tipo de ópera chinesa que é praticada localmente. É diferente da ópera de Pequim devido ao dialeto utilizado (dialeto Sichuan, no caso), e também foi realizada para pessoas menos abastadas do que o público da ópera de Pequim”, explica Ma em entrevista por email ao P de Pop. “Atualmente em Chengdu, as duas grandes atrações locais em Sichuan para turistas são os pandas, e uma expressão artística que chamamos de ‘Mudar de rosto’. Uma arte que é apresentada frequentemente durante um jantar local, levando cerca de três minutos. É considerada uma ‘corruptela’ da arte tradicional da ópera de Sichuan. Mas devido à comercialização da cultura e do turismo, é frequentemente vista pelo turista como o ofício da própria ópera de Sichuan”.

Ma enxerga “Viver Para Cantar” como uma forma de escavar suas origens culturais. “Nascido em Xangai e formado no Canadá, moro atualmente nas montanhas do México, onde centrei o meu foco mais em histórias norte-americanas ambientadas nos EUA em solo canadense. Identifico-me hoje como um canadiano asiático que cresceu no Canadá durante os anos 90 e ainda tenho de explorar essa parcela de origem na minha voz criativa. Com a potencial mudança na diversificação em Hollywood, espero que histórias mais semelhantes à minha criação tenham também uma oportunidade de ser criadas”, diz o diretor ao Estadão. “Também tenho um novo projeto no México, que poderá ser o meu filme mais pessoal até agora. Assim, embora seja conhecido pelo meu cinema chinês, tenho de alguma forma deslizado também para as tradições do cinema latino-americano. Quando estava a fazer filmes chineses, eu me sentia um forasteiro, mas respeitava a tradição. Espero que quando fizer os meus filmes no Ocidente, na América Latina, eu possa prestar homenagem àqueles que vieram antes de mim, mas também a pavimentar um caminho para artistas e contadores de histórias como eu, que acreditam que uma boa trama não deve ter fronteiras”.

p.s.: Neste “Domingo Maior”, na Globo, às 22h40, rola o polêmico “A Vigilante Do Amanhã: Ghost In The Shell” (2017), com Scarlett Johansson como um construto mecânico com alma e coragem à moda humana que patrulha as ruas investigando uma conspiração. O genial diretor Takeshi Kitano integra o elenco.

p.s.2: Pra “Tela Quente” desta segunda-feira, às 23h, a Globo separou um filme comovente que passou batido em nosso circuito: “O Que Te Faz Mais Forte” (“Stronger”, 2017), de David Gordon Green, que tem um magnífico desempenho de Jake Gyllenhaal. Nele, o prolífico realizador de “Joe” (2013) e “Prince Avalanche” (prêmio de melhor direção na Berlinale há sete anos) revê as memórias de Jeff Bauman (Gyllenhaal) sobre o dia mais impactante de sua vida: 15 de abril de 2013. Enquanto esperava seu grande amor, Erin (Tatiana Maslany), finalizar a participação na maratona de Boston, ele foi atingido por uma das bombas do atentado terrorista e perdeu as duas pernas.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: