‘As Viúvas’ faz ferver a ‘Tela Quente’

‘As Viúvas’ faz ferver a ‘Tela Quente’

Rodrigo Fonseca

09 de novembro de 2020 | 09h34

Viola Davis e Liam Neeson elevam o tom de melodrama deste thriller sintonizado a estratégias de exclusão: “Widows”, de 2018

Rodrigo Fonseca
Dois projetos recentes do inglês Steve McQueen receberam a chancela de Cannes, “Lovers Rock” e “Mangrove”, que integram o projeto “Small Axe”, dedicado a uma investigação das exclusões do Reino Unido na segunda metade do século XX. Enquanto estes dois trabalhos não aterrissam por aqui, a melhor maneira de conferir a estética deste artista visual e cineasta é sintonizar na “Tela Quente” desta noite, às 23h, e se deliciar com seu mergulho nos códigos do thriller com “AS VIÚVAS” (“WIDOWS”), o filme de abertura do Festival do Rio 2018. A versão brasileira do filme é irretocável, com Márcia Morelli dublando Viola Davis. Elizabeth Debicki ficou a cargo de Mabel Cezar; Michelle Rodriguez foi dublada por Gabriella Bicalho; e Cynthia Erivo ganhou o gogó de Carol Crespo. Liam Neeson contou com o aveludado timbre de Dario de Castro. O desempenho desse elenco memorável de vozes foi gravado nos estúdios Delart, no RJ, sob a direção de Flavia Fontenelle.
Controverso em seu enfrentamento de preconceitos diversos, “As Viúvas” chega à grade da TV aberta com a promessa de mudar a história da representação racial negra nos EUA, nas telas, tendo arrecadado US$ 75 milhões nas bilheterias. Quatro anos depois de papar o Oscar por “12 anos de escravidão”, McQueen voltou a mexer com os brios da indústria do audiovisual. Teve US$ 40 milhões para filmar e um elenco de peso, liderado por Viola Davis. A julgar pelas críticas do mais alto calor recebidas em sua passagem pelos festivais de Toronto, Londres e Rio, seu eletrizante filme se impôs com um termômetro para a ebulição de várias táticas contemporâneas de exclusão.
Um olho roxo, acariciado pelo agressor que o produziu no rosto de uma jovem loura solícita e apaixonada, é a metonímia da violência contra a mulher, um câncer que entra em “As viúvas” apenas de soslaio, num relance que, contudo, não pretende apequenar um problema tão grave e sim potencializa-lo pelas vias da sutileza – uma palavra de honra neste suspense policial de fios desencapados. Com poucos gestos e palavras contadas a dedo, numa economia franciscana, McQueen dá o recado sobre os males que circundam a afirmação do feminino, assunto que serve de espinha dorsal a esta tensa narrativa criminal. McQueen também não deixa o racismo passar batido, aplicando a mesma tônica: um rapaz negro é baleado, numa batida, apenas por estar dirigindo um carro de luxo numa Chicago violenta. Basta uma menção. A câmera de McQueen, inquieta, mordida por um bicho carpinteiro que a movimenta incessantemente, faz o resto: cava alarmismo em nosso inconsciente. É a marca do diretor inglês: é possível fazer barulho sendo discreto.
Associado ao filão “filme de assalto”, porém capaz de regar as cartilhas do gênero policial em uma ciranda de traições e reviravoltas, o novo longa-metragem do aclamado videoartista e cineasta que nos deu cults como “Shame” (2011) e “Hunger” (2008) arrancou o fôlego do Cine Odeon na abertura do Festival do Rio. Previsto para estrear nacionalmente no próximo dia 29, “As viúvas” é a adaptação taquicárdica do romance homônimo de Lynda la Plante, já lançado aqui pela editora Intrínseca. Nele, três mulheres se unem para terminar um golpe iniciado por seus finados amores. Veronica (Viola, sempre no tom certo), Alice (Elizabeth Debicki, um achado, graças a seu ferramental cênico trágico) e Linda (Michelle Rodriguez) decidem honrar a memória de seus mortos envolvendo-se em um crime. A cabelereira Belle (a cantora Cynthia Erivo, em meteórica ascensão no cinema) entra nesse bonde lá pelo meio do filme, com o motorista do tal golpe. Robert Duvall e Colin Farrell completam o time de estrelas da produção

Em 1993, McQueen dirigiu um curta memorável, “Bear”, feito mais de olho nas galeras do que nas telas, na qual dois homens negros nus se roçavam numa mistura de luta e dança. A fricção de peles e músculos continham um oceano de informações, digressões e reflexões indo de um debate sobre homofobia a um papo sobre a sexualização exacerbada dos negros pela mídia. Tá tudo em “Bear” sem sensacionalismo, amplificado por uma escala cromática que transita pelas múltiplas gradações do preto e branco na maneira de se enquadrar peles. Percebe-se um dispositivo similar nas várias vezes em “As viúvas” em que McQueen repete uma idílico troca de chamegos entre Viola Davis e Liam Neeson – ambos numa interação precisa.
Aqui, num equilíbrio surpreendente de ação e melodrama, vem de McQueen um filme elegante, feérico, de atomizações múltiplas dos tempos narrativos, do mais catártico empoderamento feminino, de Viola Davis, uma das maiores atrizes de nosso tempo.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: