Vitória do Brasil no Festival de Locarno

Vitória do Brasil no Festival de Locarno

Rodrigo Fonseca

14 de agosto de 2021 | 11h30

Dennis Pinheiro com o Leopardo de melhor curta internacional em Locarno, na Suíça

Rodrigo Fonseca
Em meio a uma comemoração brasileira pela conquista do prêmio de melhor curta-metragem internacional, dado a “Fantasma Neon”, de Leonardo Martinelli, o 74º Festival de Locarno chegou ao fim neste sábado, 14 de agosto, com a entrega de seu troféu principal, o Leopardo de Ouro, a “Vengeance Is Mine, All Others Pay Cash” (“Seperti Dendam, Rindu Harus Dibayar Tuntas”), da Indonésia. Seu diretor é um ex-estudante de Design que atende apenas pelo nome de Edwin. Ele subverte uma série de convenções dos filmes de ação ao homenagear o cinema B de Hong Kong dos anos 1980 e 90, de onde vieram John Woo, Tsui Hark, Ringo Lam, Johnny To e outros artesãos autorais. Subverte ainda a lógica tóxica do sexismo, não apenas no audiovisual, como na vida, no dia a dia. Numa divertida narrativa, ele narra a história de um lutador bom de briga que sofre de impotência sexual. Em busca de uma cura, em meio a poções, ele se encanta por uma mulher, também lutadora, e se propõe a tentar uma vida a dois com ela. Mas o crime organizado da Indonésia e um antigo affair dela vão atrapalhar os planos do casal.
“Venho de uma Indonésia assolada por um jugo ditatorial que aprendeu a ter uma noção do que é injustiça social pelo cinema B de artes marciais”, diz Edwin ao Estadão. “Meu longa é uma homenagem a esses filmes que me instigaram a questionar os desajustes de classe, em um tempo de opressão”.
Ao conquistar o Leopardo dourado, “Vengeance Is Mine, All Others Pay Cash” confirmou o quão sábia foi a decisão do novo diretor artístico de Locarno, Giona A. Nazzaro, em festejar as narrativas de gênero, trazendo diferentes filões para a ribalta de um festival tradicionalmente vinculado a sisudas reflexões políticas – com raríssimas exceções, como “As Boas Maneiras”, lá laureado em 2017. Não por acaso, sob a acertada gestão de Nazzaro, um thriller de suspense e de espionagem rendeu o prêmio de melhor direção a um dos cineastas mais cultuados da atualidade: o ítalo-americano Abel Ferrara. Ele foi premiado por “Zeros and Ones”, em que Ethan Hawke se divide em dois papéis (um soldado e seu irmão gêmeo militante) envolvidos em uma conspiração terrorista.

Abel Ferrara conquista o prêmio de melhor direção por “Zeros and Ones”

Rodado no Rio de Janeiro, o curta que rendeu um Leopardo para o cinema nacional no evento suíço é um musical à moda do Passinho – com partes documentais – sobre entregadores de comida durante a pandemia. Ao dirigir “Fantasma Neon”, Leonardo Martinelli arranca uma comovente atuação do ator mineiro Dennis Pinheiro no papel de João, um ciclista que entre lanches numa metrópole racista. Seu sonho de comprar uma moto e o desejo de ficar perto de um colega (vivido por Silvero Pereira) é atropelado pela violência social.
“O Brasil que perpassa o ‘Fantasma Neon’ é um país em desmonte. Uma nação que gradativamente tem suas instituições enfraquecidas e direitos sociais e trabalhistas extinguidos”, diz Martinelli. “Nosso filme busca retratar apenas uma vida nesse cenário, um microcosmos que espelha a situação que afeta milhões de brasileiros, de forma material e imaterial. A tragédia de Cinemateca, por exemplo, era extremamente previsível e poderia facilmente ter sido previnida caso o vigente governo quisesse. Suas chamas fazem parte desse projeto de desmonte e apagamento da cultura e da memória nacional”.

Leopardo de Ouro para “Vengeance Is Mine, All Others Pay Cash” (“Seperti Dendam, Rindu Harus Dibayar Tuntas”)

Vencedores:
Leopardo de Ouro: “Vengeance Is Mine, All Others Pay Cash” (“Seperti Dendam, Rindu Harus Dibayar Tuntas”), de Edwin (Indonésia)
Grande Prêmio do Júri: “A New Old Play” (“Jiao ma tung hui”), de Qiu Jiongjiong
Direção: Abel Ferrara (“Zeros and Ones”)
Atriz: Anastasiya Krasovskaya (“Gerda”)
Ator: Mohamed Mellali e Valero Escolar (“Sis Dies Correntis”)
Menções honrosas: “Soul of a Beast” (Suíça) e “Espíritu Sagrado” (Espanha)
Melhor filme da seção Cineastas do Presente: “Brotherhood”, de Francesco Montagner (República Tcheca – Itália)
Melhor filme de estreia: “She Will”, de Charlotte Colbert (Reino Unido
Melhor curta internacional: “Fantasma Neon”, de Leonardo Martinelli (Brasil)
Melhor curta de autor: “Criatura”, de Maria Silvia Esteve (Argentina)
Melhor curta suíço: “Chute”, de Nora Longatti

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