Vitória da Romênia na caça ao Urso de Ouro

Vitória da Romênia na caça ao Urso de Ouro

Rodrigo Fonseca

05 de março de 2021 | 09h39

“Bad Luck Banging or Loony Porn” conquistou o prêmio máximo da Berlinale 2021

RODRIGO FONSECA
Deu Romênia na cabeça do 71º Festival de Berlim, com a consagração da comédia “Bad Luck Banging or Loony Porn”, de Radu Jude, com o Urso de Ouro, neste ano em que a maratona cinéfila germânica teve que ser online, com um apêndice presencial previsto para junho. Sem medo de desafiar tabus, “Babardeala cu bucluc sau porno balamuc”, título original do longa-metragem de Jude, é mais uma comprovação de que a criatividade e a ousadia da classe artística romena, nas telas, não tem fim, sobretudo ao fazer da pandemia da covid-19 parte de sua abordagem acerca das vicissitudes do mundo. Hilário do começo ao fim, mesmo quando sua câmera está apenas a observar o vaivém das ruas, seguindo sua protagonista, a professora Emi (Katia Pascariu), esse conto moral dirigido por Radu Jude (de “A Nação Morta”) já incorpora as máscaras de proteção ao coronavírus entre seus personagens, datando sua narrativa ao surto pandêmico do presente. A partir da histeria que se vive hoje, em meio aos confinamentos, a comédia de Jude acompanha, em três atos distintos, a história do ataque da mídia contra Emi depois que uma gravação dela fazendo amor com seu marido vaza na internet. A primeira parte é a reação dela às acusações e o impacto dessas em seu dia a dia. A segunda (e genial) parte é uma livre (e põe livre nisso!) montagem de cenas com conexões eróticas e políticas, tiradas de arquivos. E a parte final, mais teatralizada, é o julgamento dela. Em cartaz na MUBI (um dos streamings que mais crescem em popularidade na web hoje) com “Uppercase Print” (2020), Jude define seu trabalho mais recente como uma seleção de esquetes. Seleção essa que ataca a hipocrisia nossa de cada dia e a cultura online do ódio. Muitas boas escolhas foram feitas neste palmarês atribuído por um júri só de ganhadoras e ganhadores de Ursos dourados, com destaque para a láurea de melhor direção para o húngaro Dénes Nagy, pela reconstituição da URSS, em 1943, em “Természetes fény” (“Natural Light”). Laurear Hong Sangsoo (agora por seu comovente “Introdução”) é sempre um dever. Mas não faz sentido algum o par de troféus dados à intepretação, coroando atrizes que não brilharam nada e logo pelos dois PIORES filmes da seleção. O esquecimento de “Memory Box” e de “Next Door” também foi sofrível. Mas foi bonito ver a consagração de Ryusuke Hamaguchi, hoje um dos titãs do Japão, por seu “Wheel of Fortune and Fantasy”, falando de mulheres às voltas com a representação de seus papéis numa sociedade solitária. Por fim, sobrou um prêmio para a América Latina, dado à montagem do misto de .doc e ficção “Uma Película de Policias”, do mexicano Alonso Ruizpalacios. Foi uma boa festa, que ainda dura, online, até o fim do dia.

“Nous”, de Alice Diop, foi o vencedor do prêmio de melhor filme da mostra Encontros

COMPETIÇÃO OFICIAL
URSO DE OURO: “Babardeală cu bucluc sau porno balamuc” (“Bad Luck Banging or Loony Porn”), de Radu Jude (Romênia)
GRANDE PRÊMIO DO JÚRI: “Guzen to sozo” (“Wheel of Fortune and Fantasy”), de Ryusuke Hamaguchi (Japão)
PRÊMIO DO JÚRI: “Herr Bachmann und seine Klasse” (“Mr Bachmann and His Class”), de Maria Speth (Alemanha)
DIREÇÃO: Dénes Nagy, por “Természetes fény” (“Natural Light”), da Hungria
ATUAÇÃO (PROTAGONISTA): Maren Eggert, em “Ich bin dein Mensch” (“I’m Your Man”), da Alemanha
ATUAÇÃO (COADJUVANTE): Lilla Kizlinger, em “Rengeteg – mindenhol látlak” (“Forest – I See You Everywhere”), da Hungria
ROTEIRO: Hong Sangsoo, por “Inteurodeoksyeon” (“Introduction”), da Coreia do Sul
CONTRIBUIÇÃO ARTÍSTICA: Yibrán Asuad, pela montagem de “Una película de policías” (“A Cop Movie”), de Alonso Ruizpalacios
PRÊMIO DA CRÍTICA – FIPRESCI: “What Do We See When We Look at the Sky?”, de Alexandre Koberidze
CURTA-METRAGEM: “Nanu Tudor” (“My Uncle Tudor”), de Olga Lucovnicova (Bélgica)
Mostra ENCONTROS
Filme: “Nous”, de Alice Diop (França)
Direção: empate entre “Das Mädchen und die Spinne” (“The Girl and the Spider”), de Ramon Zürcher e Silvan Zürcher (Suíça) e “Hygiène sociale” (“Social Hygiene”), de Denis Côté (Canadá)

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