Vitória da Capitu de Bressane no Fest Aruanda

Vitória da Capitu de Bressane no Fest Aruanda

Rodrigo Fonseca

16 de dezembro de 2021 | 04h29

Aos 75 anos, Júlio Bressane desbrava a floresta de signos que nasce da representação do universo de Machado de Assis – @Crédito: foto de Mano de Carvalho – Divulgação

RODRIGO FONSECA
Exercício de mais refinada arquitetura narrativa de Júlio Bressane nesta década, revelado em Roterdã, na Holanda, e exibido em Biarritz, na França, “Capitu e o Capítulo” garantiu ao ícone do Cinema de Invenção os prêmios de melhor filme e de melhor direção (merecidíssimos) no encerramento do 16º Fest Aruanda, em João Pessoa, na Paraíba. A premiação ocorreu na noite de quarta e correu madrugada, após a projeção do curta “Aluísio, o Silêncio e o Mar”, dirigido pelo ator Luiz Carlos Vasconcelos, e do longa “Ney, À Flor da Pele”, uma espécie de jukebox de Felipe Nepomuceno, centrada na evolução da persona de Ney Matogrosso. Coube à mais recente expressão autoral bressaniana, esculpida a cinzel pelo realizador de 75 anos – consagrado por “O Anjo Nasceu” (1969), “Tabu” (1982) “O Mandarim” (1995) e “Filme de Amor” (2003) –, mais uma leva de troféus. Ele venceu ainda nas categorias de melhor figurino (idealizado por Maria Aparecida Gavaldão); de melhor ator coadjuvante (dado a Enrique Diaz); e a láurea da Crítica, dado pela Abraccine. A justificativa do júri (a montadora Cristina Amaral, a atriz Sandra Corveloni e o diretor e artista plástico Cesar Meneghetti) foi: “Quem nunca teve seu perfil desenhado e depois não conseguiu mais se encaixar nesta imagem? Júlio Bressane nos apresenta uma provocação sensorial das fragilidades humanas com extrema maestria e rigor, um espelho que nos convida a olhar para a tela refletida nos olhos de Capitu e nos capítulos de Machado de Assis”. Neste sábado, às 20h, o Cinépolis Lagoon exibe o ganhador de Aruanda em telas cariocas, na reta final da agenda do 23º Festival do Rio, apoiado no apelo de Mariana Ximenes (sua Capitu) e Vladimir Brichta, o Bentinho.
“Leitor prodigioso, Machado nos mostrou, criticamente, que a cultura brasileira ergueu-se como uma civilização de empréstimo, que esperava os barcos atracarem da Europa com novas do Velho Mundo”, disse Bressane ao P de Pop, sob a aclamação do público paraibano. “Estou acostumado a ver meus filmes em salas vazias. Três espectadores nos cinemas que me exibem eu já considero uma multidão. E, aqui, a plateia encheu a sala e se manteve paciente. Obrigado a todos, embora eu não acredite que exista um “todos”, e, sim, cada um”.
Amparado por uma suntuosa direção de arte (de Isabela Azevedo e Moa Batsow) e pela cálida fotografia de Lucas Barbi, Bressane faz uma reflexão sobre a maneira como os personagens de “Dom Casmurro” (1899) são representados nas leituras de Machado de Assis (1839-1908). Diaz é uma versão madura de Bentinho (Vladimir Brichta), definindo-se como Casmurro. Por meio dele é que sabemos dos conflitos de Capitu (Mariana Ximenes), acusada de disfarçar um ato adúltera nas profundezas de seus olhos de cigana oblíqua… olhos de ressaca. A sessão do longa em Aruanda, na segunda-feira, foi consagradora, confirmando o quão caprichado é o trabalho de seleção de filmes feito pelo curador Amilton Pinheiro e pelo diretor do evento, o crítico e professor da UFPB Lúcio Vilar. “É uma grata surpresa essa vitória, pois a gente feliz com a coragem do júri em admitir que, nesse contexto dos filmes em disputa, a presença de Bressane tinha uma singularidade. Isso engrandece tudo o que pensamos em curadoria”, diz Vilar ao Estadão, explicando que a edição de 2022 do festival vai de 8 a 14 de dezembro.

Exibido em Roterdã, na Holanda, “Capitu e o Capítulo” concorre no Aruanda, em João Pessoa

Vilar elogia ainda a maneira como outro júri, o da seção Sob o Céu Nordestino, consagrou o longa cearense “A Praia do Fim do Mundo”, de Petrus Cariry, confiando a ele dez troféus, que foram recebidos por sua atriz, Marcélia Cartaxo. “É um filme bonito, sobre a luta da mulher”, disse Marcélia.
Houve uma menção honrosa ainda para o primoroso .doc “Transversais”, de Émerson Maranhão, sobre o engajamento de populações trans em prol de sua dignidade sob a égide do preconceito. É uma narrativa documental comovente. A questão trans também esteve na mostra principal, representado por “Madalena”, de Madiano Marcheti, que ganhou um par de menções e os troféus de melhor fotografia, montagem e trilha sonora.
Os ganhadores da seção oficial de longas
Vamos aos longas:
Melhor Roteiro Thais Fujinaga, por A FELICIDADE DAS COISAS
Melhor Desenho de Som Confraria de sons e charutos por BOB CUSPE – NÓS NÃO GOSTAMOS DE GENTE
Melhor Montagem Lia Kulakauskas por MADALENA
Melhor Trilha Sonora Junior Marcheti, por MADALENA
Melhor Direção de Arte Daniel Bruson por BOB CUSPE – NÓS NÃO GOSTAMOS DE GENTE
Melhor Figurino Maria Aparecida Gavaldão por CAPITU E O CAPíTULO
Melhor Fotografia Guilherme Tostes, Tiago Rios MADALENA
Melhor Ator Maicon Rodrigues, por SALAMANDRA
Melhor Ator coadjuvante Enrique Diaz, por CAPITU E O CAPíTULO
Melhor Atriz Patricia Saravy, por A FELICIDADE DAS COISAS
Melhor Atriz coadjuvante Magali Biff, por A FELICIDADE DAS COISAS
Melhor Direção JULIO BRESSANE, por CAPITU E O CAPíTULO
Melhor Longa-Metragem CAPITU E O CAPÍTULO

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