‘Vitalina Varela’ de Pedro Costa no INDIE

‘Vitalina Varela’ de Pedro Costa no INDIE

Rodrigo Fonseca

03 de novembro de 2020 | 09h30

Rodrigo Fonseca
Há muita coisa boa, muita mesmo, na seleção do festival INDIE 2020, a ocorrer a partir desta quarta-feira, dia 4 de novembro, no www.indiefestival.com.br, com exibição para todo o Brasil, via web, de 35 filmes de 16 países, ao longo de 43 sessões, incluindo a joia “Vapor” (2015), do tailandês Apichatpong Weerasethakul, e um devastador ensaio afetivo pilotado pela atriz alemã Angela Schanelec: “Eu estava em casa, mas…”, laureado com o Urso de Prata de melhor direção na Berlinale de 2019. Porém a atração que mais chama atenção no meu é a sessão de “Vitalina Varela”, o ganhador do último Leopardo de Ouro de Locarno, marcado pela cruzada de uma cabo-verdiana para encontrar harmonia em sua alma e em seu caminho, em Portugal, nas Fontainhas, após a morte de seu marido. É o artesão da imagem Pedro Costa quem assina a direção, oferecendo ao espectador uma missa estética de reflexão sobre a resiliência dos imigrantes d’África no Velho Mundo.
“A urgência é má conselheira. Filmo como uma equipe muito reduzida, com quatro pessoas por trás das câmeras, para que meu elenco de não atores tenhas as melhores condições de criar. Não se deve ser urgente, no cinema, nem no documentário, formato que aspira a ter um contato mais terra a terra com a realidade”, disse o diretor português ao P de Pop em sua passagem pelo Rio, em dezembro passado. “Não nos apressamos para não perder nada do processo de descobertas”.
Em Locarno, “Vitalina Varela” rendeu ainda o prêmio de melhor interpretação feminina para sua protagonista. Dona Vitalina leva para as telas suas experiências com o luto e a ressaca diante do sexismo. “Há algo que encontrei em Cabo Verde que me leva ao ‘Sans Solei’”, de Chris Marker, em seu olhar sobre o universo feminino: a percepção de que existem mulheres sentinelas, à olhar para o mar, à espera, sem resposta”, disse Costa em entrevista ao C7nema, de Lisboa. “Vitalina, com sua presença avassaladora, é alguém que carrega uma ressaca em relação aos homens”.
Este ano, no INDIE, a programação foi dividida em mostra competitiva e sessões informativas. Para concorrer, foram selecionados oito filmes, em que latinos e asiáticos dominam o programa, com realizações de diretores veteranos e estreantes, documentário e ficções. Lá, veremos cinema latino em “Sanctorum”, do mexicano Joshua Gil; em “Agosto”, do cubano Armando Capó; e no filme argentino dirigido por quatro diretores de diferentes gerações “Edição Ilimitada”, de Edgardo Cozarinsky, Santiago Loza, Virginia Cosin e Romina Paula.

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