Violino da inclusão na TV: Lazinho em ação

Violino da inclusão na TV: Lazinho em ação

Rodrigo Fonseca

20 de novembro de 2019 | 11h05

Sérgio Machado com suas assistentes de direção e com o ator Lázaro Ramos no set de “Tudo que aprendemos juntos”: prêmio de Júri Popular na Mostra de SP 2015

RODRIGO FONSECA
Ao procurar o diretor Sérgio Machado – atualmente no ar, no Space, com comovente a série “Irmãos Freitas” – para conversar sobre a exibição da aula de cidadania chamada “Tudo que aprendemos juntos” (2015) na Rede Globo, às 22h15 desta quarta-feira, Dia da Consciência Negra, a resposta do cineasta baiano foi um transbordamento: “Fiquei bem contente quando Lazinho ligou falando que vai passar na TV aberta”. Lazinho é o apelido bilu teteia que todos (nós, brasileiros) que amamos Lázaro Ramos usamos para sintetizar “sua pessoa”: um ícone de boa interpretação e de militância social, sobretudo em prol das causas raciais. Sua reação também foi emocionada, diante do gesto simbólico que é a projeção, em larga escala desta produção dos Irmãos Gullane, laureada pelo Júri Popular da Mostra de São Paulo e lançado mundialmente durante o Festival de Locarno, há quatro anos.
“Esse é um dos filmes que eu mais tive alegria de fazer e ao mesmo tempo, fiquei desejoso de que fosse visto pelo Brasil”, diz Lázaro ao ESTADÃO. “Ele teve uma trajetória gigante fora do país… foi um fenômeno, uma experiência rara para o cinema nacional. Passar na televisão aberta vai ser a oportunidade para as pessoas conhecerem essa grande obra brasileira”.
Perfeccionista ao extremo, sobretudo em seu casamento com a música, o violinista Laerte, protagonista de “Tudo Que Aprendemos Juntos”, treme (e falha) em sua audição para uma vaga na Osesp nas sequências iniciais do novo longa-metragem do realizador do cult “Cidade Baixa” (2005). Errar é um verbo ausente de seu vocabulário, tal qual o substantivo perdão, sobretudo quando aplicado a si mesmo. É de sua índole converter derrotas em comida para seu orgulho, escudando-se nele, avesso ao carinho dos colegas de instrumento. É no ápice do orgulho que o personagem vivido por Lázaro chega a um projeto escolar em Heliópolis, na periferia de São Paulo, necessitado de um emprego: no caso, o de professor, para ensinar rudimentos musicais a um grupo de adolescentes em vias de se apresentar para uma Ong.

Audacioso quando o assunto é Paganini, mas temeroso frente à dificuldade dos acordes de Bach, Laerte cresceu pobre na Bahia e teve chance de estudar violino quando pequeno com o apoio do pai (expresso apenas na voz de Milton Gonçalves). Figuras como ele são frutos do redesenho sociológico do Brasil tracejado a partir da eleição de Luiz Inácio Lula da Silva em novembro de 2002: ele é conseqüência de um rearranjo da pirâmide social do país, com o desequilíbrio da classe média e a ascensão das parcelas C e D da pirâmide populacional. Com o acesso destas ao consumo, elas passaram a se subjetivar aos olhos da arte, sobretudo do cinema, que deixou de ver essas classes apenas quantitativamente, como números de censo, e passou a vê-las sob um prisma qualitativo, entendo suas angústias suas necessidades. Dessa operação surgiram personagens como a doméstica Val, vivida por Regina Case em “Que Horas Ela Volta?” (2015), de Anna Muylaert. Val e Laerte têm, portanto, uma parentela sociológica.

E mais: ambos os filmes despertaram o apreço estrangeiro antes de brilhar aqui. “Que Horas…” foi parido em Sundance, laureado com prêmios de atuação feminina, e fez seu teste do pézinho em Berlim. Já Tudo Que Aprendemos Juntos nasceu em Locarno, na Suíça, e veio pegar sua certidão de filme 100% brasileiro na Première Brasil do Festival do Rio, em uma projeção emocionada. A emoção é mérito de sua edição, assinada pelo montador Marcio Hashimoto. Ela é impecável ao equilibrar as viradas de um roteiro atento à tradição do filão favela movie, mas jamais refém dela – e também da identificação com as feridas geopolíticas retratadas a partir de Heliópolis.

“Tem uma coisa curiosa do filme. Ele teve uma carreira internacional incrivel foi vendido pra 20 e tantos países, ficou seis meses em cartaz no Japão, foi lançado em mais de 300 cinemas na França, fez sucesso em Israel e no Leste Europeu, embora tenha sido, relativamente, pouco visto em circuito no Brasil”, diz Machado, que todo domingo anda comovendo telespectadores com seu seriado sobre o boxeador Popó e o clã dos Freitas.

Parceiro de longa data de Lázaro, ele trouxe o amigo para “Tudo que aprendemos…” a fim de promover uma reinvenção de um clichê do cinemão que vem lá de “Ao mestre, com carinho” (1967), com Sidney Poitier. não cai na armadilha de fazer mais um drama sobre a Educação, como foram fenômenos populares como “O Preço do Desafio” (1988), com Edward James Olmos, ou “Meu Mestre, Minha Vida” (1989), com Morgan Freeman. Laerte não é um super-herói da pedagogia, tampouco um anjo redentor de guris pobres. Heliópolis necessita dele tanto quanto ele em Heliópolis. E a atuação de Lázaro (contagiante) ajuda a demarcar essa condição. Tão grande quanto o brilho dele é a luminosidade de seus alunos, retratados por Sérgio numa estrutura quase documental, na qual uma briga entre duas meninas soa de um realismo às raias de um pegapracapar ao vivo das ruas. Dilemas dos estudantes alcançam no roteiro (erigido com o apoio da autora de novelas Maria Adelaide Amaral e do cineasta Marcelo Gomes) uma condição quase equivalente à jornada de superação de Laerte, dificuldade pela intervenção de um traficante todo-poderoso interpretado pelo rapper Criolo. O alçapão mais fundo foi aberto para o aluno Samuel (vivido com esplendor por Kaique de Jesus), ameaçado de ter que abrir mão do violino para ajudar o pai a trabalhar. Ele é um satélite que garante dinamismo à evolução de Laerte como sujeito e como artesão da música.
“Toda a experiência do filme foi muito positiva, sobretudo o trabalho com os adolescentes, que passaram um ano em preparação musical”, lembra Lázaro, que recebeu o P de Pop no set de filmagens, em São Paulo, em 2012. “Eles aprenderam a tocar os instrumentos e realizaram o longa com um empenho gigante, apresentando vários talentos de ator. Alguns permanecem na carreira. A direção do Sérgio é primorosa. Eu, particularmente, criei uma relação e um laço de afeto por todos que conheci no Instituto Baccarelli, criando e mantendo grande respeito pelo trabalho deles. Esse é um filme que foi feito há um tempo já e ainda temos grupo no Whatsapp. De vez em quando, a gente se fala, celebrando bons momentos na vida dos jovens. É algo raro.

Prestes a voltar às telonas com “O silêncio da chuva”, de Daniel Filho, Lázaro dirigiu este ano seu primeiro longa, “Medida provisória”, uma adaptação da peça “Namíbia, não”, do ator Aldri Anunciação. E enquanto finaliza o projeto, revisa toda a trajetória que, desde “Madame Satã” (2002), fez dele um dos maiores astros da América Latina nas telas. E “Tudo que aprendemos juntos” é parte disso. “Este é um filme que fala sobre sonho e oportunidades em um lugar muito especial. Por isso eu sou tão orgulhoso dele e tenho tanto desejo que as pessoas possam assisti-lo”.

p.s.: Curtas raramente são colocados no ranking das votações anuais de “melhor isso…” ou de “melhor aquilo…”, absurdamente. Mas o curta-metragem “Alfazema” é tão TÃO gigante, em sua inquietação, e em sua vontade de poder ser vivo como afirmação do querer, feito “A Lira do Delírio”, que vai, galante e gaudioso, para o meu ranking dos melhores filmes brasileiros de 2019. Que arrase no Festival de Brasília, como arrasou o coração de Bonsucesso. Sua metalinguagem e seu esgarçamento do que é Real, do que é Imaginário e do que é Moral (religiosa) é de um humor singular. Sua diretora, Sabrina Fidalgo, marca um gol de Canal 100 no placar no Cinema Brasileiro x Intolerância. Motumbaxé

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: