Vincent Lindon, o presidente do júri de Cannes, à luz das Palmas e das ousadias

Vincent Lindon, o presidente do júri de Cannes, à luz das Palmas e das ousadias

Rodrigo Fonseca

28 de maio de 2022 | 17h30

Chamado de “O Antonio Fagundes da França”, o ator Vincent Lindon desafiou tabus morais ao conceder a Palma de 2022 à comédia “Triangle of Sadness”

O artesão da angústia
Um ano depois de estrelar ‘Titane’, o ganhador da Palma de Ouro de 2021, o aclamado ator francês Vincent Lindon regressa a Cannes como presidente do júri da 75ª edição do festival, e coroa ‘Triangle of Sadness’
RODRIGO FONSECA

É perda de tempo pedir foto para Vincent Lindon em coletivas ou premières de seus filmes. Avesso a redes sociais, preso a ideia de que o importante no cinema é o filme e não o circo de vaidades que cerca sua feitura, o ator francês de 62 anos, escolhido para ser o presidente do júri da Palma de Ouro no 75º Festival de Cannes – encerrado neste sábado, com a vitória de “Triangle of Sadness”, do sueco Ruben Östlund- não alimenta a cultura das selfies. Não gosta do conceito de clickbait, nem do cancelamento. Há sete anos, ele – chamado entre nós, no Brasil, de “O Antonio Fagundes da França”, por sua semelhança com o protagonista de “O Rei do Gado” – saiu da Croisette com a láurea de Melhor Interpretação por O Valor de um Homem (2015). Passou pela bateria de cliques que os fotógrafos europeus fazem dos vencedores, mas não abriu sua vida pessoal em entrevistas. Essa sua rigidez fora das telas, cultivada desde sua estreia nos cinemas, há 40 anos, em “Guy de Maupassant” (1982), de Michel Drac, reflete-se na disciplina com que constrói seus personagens, vide o chefe do corpo de bombeiros que encarnou no thriller “Titane”, o ganhador da Palma dourada de 2021, hoje na grade da plataforma MUBI.
“Não me interessa ser celebridade, só me interessa trabalha”, disse o ator, ao Estadão, em uma conversa no Festival de San Sebastián, no norte da Espanha, onde exibiu “Titane” e “Enquête Sur Un Scandale d’État”, um suspense de tribunal no qual encarna um chefe de polícia ligado a um esquema corrupto de desvio de drogas apreendidas pela Lei. “Não trabalho com cálculos de resultado, tipo: ‘Vou aceitar esse papel pois ele vai me levar a tal conquista’. Não! Eu digo ‘sim!’ a um convite movido pelo coração, quando, instintivamente, a leitura de um roteiro me desperta interesse. E no processo de filmá-lo, eu observo e reflito”.

Woody Harrelson e Ruben Östlund nas filmagens do ganhador da Palma da 75ª edição de Cannes

De 18 de maio até sexta, 21 filmes foram julgados por ele, por quatro atrizes de peso – Deepika Padukone, da Índia; Noomi Rapace, da Suécia; Rebecca Hall, de Inglaterra; e Jasmine Trinca, da Itália, sendo que essas duas também são diretoras – e quatro cineastas: Asghar Farhadi (Irã); Ladj Ly (Mali – França); Jeff Nichols (EUA); e Joachim Trier (Noruega). Esse time desafiou puderes ao conceder a Palma dourada a ‘TRIANGLE OF SADNESS’, que é irregular, mas “irregulável” em sua forma de despejar as contradições de classe social em países endinheirados. Esse novo longa do diretor do inquieto “The Square” (Palma dourada de 2017) é uma narrativa cômica ferocíssima sobre a soberba dos que detêm as riquezas do planeta. A Rússia de Putin é saco de pancada nos diálogos, representada na figura de um milionário eslavo escroque. Woody Harrelson brilha no papel do capitão cachaceiro de um cruzeiro que vai naufragar, assim como a Europa espelhada no roteiro.
Eclético, o júri de Lindon ainda peitou convenções morais e deu o prêmio de Melhor Direção ao sul-coreano Park Chan-Wook, por “Decision to Leave”. Igualmente corajosa foi a decisão de laurear dois longas, empatados, com o Grande Prêmio do Júri: “Close”, de Lukas Dhont, e “Stars at Noon”, de Claire Denis. Já na categoria de Melhor Atuação, Lindon e sua patota laurearam Zar Amir Ebrahimi (“Holy Spider”) e Song Kang Ho (por “Broker”).
“A arte bate nas pessoas de maneira distinta. Você pode ler um livro e se encantar enquanto outros leitores podem ficar indiferentes àquela mesma história. Titane, por exemplo, dividiu olhares. Incomodou alguns e encantou outros. Mas eu acreditei, ao ler seu roteiro, que tinha de entrar naquele processo e integrar os esforços de sua diretora, Julia Ducournau, para contar uma história sobre corpos e desejos”, disse Lindon ao Estado na 72ª Berlinale, em fevereiro, quando compartilhou com Juliette Binoche o protagonismo de “Avec Amour et Acharnement”, da já citada Claire Denis.
Ele trabalhou em “Bastardos” (2013) com essa aclamada cineasta parisiense, que foi laureada com o Urso de Prata de Melhor Direção em Berlim e volta agora a Cannes, com Stars at Noon, um romance ambientado nos movimentos sandinistas da Nicarágua. “Claire construiu com Juliette e comigo, em “Avec Amour et Acharnement”, um estudo sobre duas pessoas. É a premissa mais simples e mais básica. Mas dela brota muita coisa. Se você olhar Pontes de Madison, é apenas, aparentemente, a história de uma mulher e de um homem que se desejam. Mas o modo como aquilo foi filmado aprofunda um universo de questões. Há cineastas, como Hitchcock, que são capazes de criar mundo. Eu, como ator, tenho a obrigação de entrar nesses mundos e alinhar protótipos de pessoas. É o que eu entrego. E, daí, cada espectador preenche esses protótipos com a humanidade que bem enxergar”.
Disputado pelos maiores produtores do Velho Mundo, Lindon é lembrado ainda por sua atuação em cults das últimas quatro décadas como “Betty Blue” (1986); “O Ódio” (1995); “Selon Charlie” (2006); “Em Guerra” (2018); e “O Último Amor de Casanova” (2019). Este ano, ele filma com Xavier Giannoli (do premiado “Ilusões Perdidas”) a minissérie “Tikkoun”, sobre uma fraude bilionária na indústria do carbono.
“Num dos meus primeiros trabalhos, o filme Alguns Dias Comigo, de 1988, o diretor Claude Sautet me orientou a pensar no que fosse necessário para que eu imprimisse angústia na tela, pois é o que fica. Ali eu comecei a entender meu ofício”, diz Lindon. “Quando eu construo uma interpretação, preciso estar em paz com o meu personagem, entendê-lo e deixar que ele me entenda e me aceite. Preciso que ele esteja contente com o meu ferramental e, eu, com o dele, para daí, observar o mundo e me expressar”.

Lindon em “Titane”

Os vencedores de Cannes em 2022
Palma de Ouro: “Triangle of Sadness”, de Ruben Östlund (Suécia)
Grand Prix: “Stars at Noon”, de Claire Denis (França) empatada com “Close”, de Lukas Dhont (Bélgica)
Prêmio do Júri: “Le Otto Montagne”, de Charlotte Vandermeersch e Felix van Groeningen (Bélgica – Itália), em empate com “EO”, de Jerzy Skolimowski (Polônia)
Prix du 75ème (prêmio especial de 75 anos de Cannes): “Tori et Lokita”, dos irmãos Luc e Jean-Pierre Dardenne (Bélgica)
Direção: Park Chan-Wook (“Decision to Leave”)
Interpretação Feminina: Zar Amir Ebrahimi (“Holy Spider”)
Interpretação Masculina: Song Kang Ho (“Broker”)
Roteiro: Tarik Saleh (“Boy From Heaven”)
Melhor Curta-Metragem: “The Water Murmurs”, de Jianying Chen (China), com menção honrosa para “Lori” (Nepal)
L’Oeil d’Or (a Palma do documentário): “All That Breathes”, de Shaunak Sen (Índia)
Prêmio da Crítica (votado pela Fipresci, Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica): “Leila et ses Frères” (Irã)
Prêmio do Júri Ecumênico: “Broker”
Camera d’Or (melhor filme de estreia): “War Pony”, de Gina Gammel e Riley Keough (EUA)
Queer Palm: “Joyland”, de Saim Sadiq (Paquistão)

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