Vin Diesel em múltiplas latitudes

Vin Diesel em múltiplas latitudes

Rodrigo Fonseca

04 de maio de 2020 | 15h12

Rodrigo Fonseca
Elogiado por Helen Mirren no último Festival de Berlim, onde foi definido como um astro nato, Mark Sinclair Vincent, aka Vin Diesel, vai ter uma overdose de popularidade na TV e nas várias mídias de exibição do Brasil de hoje até terça, na TV abertra, continuando a brilhar por tempo indeterminado nas plataformas de streaming. Esta noite, às 22h30, na Globo, ele será visto na “Tela Quente”, na pele do criminoso bom de volante (e de tiro) Dominic Toretto, em “Velozes & Furiosos 8”. São de F(elix) Gary Gray as frenéticas tomadas de perseguição e sequências de luta um vigor plástico que não se via desde os últimos bons filmes de Steven Seagal (tipo “A Força em Alerta”). Muita adrenalina banha uma trama pouco verossímil, divertida e descaradamente mentirosa, na qual Toretto é obrigado a trair seus pares mais fiéis – a namorada Letty, vivida por Michelle Rodriguez; o boquirroto Roman, encarnado por Tyrese Gibson com humor a mil; e o braço mais musculoso do FBI, Hobbs, papel dado a Dwayne “The Rock” Johnson. A traição se deve a uma armação da cyberterrorista Cipher, vivida por uma caricata Charlize Theron, com caras, bocas e olhares vítreos, que não chega a prejudicar a ignição do enredo, que vai de Cuba (numa erótica sequência de abertura) à Rússia, passando por Berlim e Nova York, com direito a um submarino de guerra e uma ponta de Mrs. Mirren sobre a qual pouco se deve falar. Já na terça, ele aparece no SBT, às 23h15, no papel do guerreiro Kaulder em “O Último Caçador de Bruxas”. Sob a direção de Breck Eisner, ele é um bárbaro cuja tarefa é impedir que feiticeiras disseminem o Mal sobre a Terra. A participação do ótimo Isaach De Bankolé é uma garantia de talento para o filme. Por fim, tem Diesel online, com “Bloodshot”. Este thriller sci-fi, com base nas HQs, teve sua carreira abortada, em função da realização da quarentena, com o fechamento dos cinemas. Este longa acaba de ser disponibilizado na Apple Store | iTunes, Google Play, Looke, Microsoft Filmes e TV (Xbox), NOW, Oi Play, PlayStation Store, SKY Play e Vivo Play.

Expert em efeitos visuais, com games de “Star Wars” em seu currículo, o estreante em longas-metragens Dave Wilson faz a mistura de tudo e mais pouco (“Amnésia”, “RoboCop”, “Vingador do Futuro”) chamada “Bloodshot” se azeitar de maneira surpreendente na tela. E o faz apoiado numa montagem vertiginosa e aliado a uma composição de arquétipos que recicla clichês, inclusive os de seu protagonista. Vin Diesel é, em geral, uma droga pesada no terreno entorpecente do cinema escapista. Mas, aqui, na pele do super-herói lançado pela editora Valiant, em 1992, sua química veio ainda mais refinada, uma vez que seu ferramental dramático vem se afiando a cada novo episódio da franquia “Velozes e Furiosos”, cujo novo tomo, o nove, acaba de ser adiado por conta do Coronavírus. Mas o que se perde ali, recupera-se aqui: Wilson nos dá um thriller formalmente requintado e dramaturgicamente potente, em seu diálogo com as HQs criadas por Kevin VanHook, Don Perlin e Bob Layton, com um formato à moda “Rambo”. Aos 52 anos, Mark Sinclair Vincent, nome real de Diesel, dá à figura do soldado da fortuna Ray Garrison uma fragilidade existencial que assegura tridimensionalidade ao personagem central de “Bloodshot”.

Diesel e Charlize Theron em “Velozes e Furiosos 8”

Sua potência como astro se faz notar nesta transposição de gibis classe B da indústria quadrinística dos EUA para as telas. Há uma frase, “Não se precisa do passado para viver o futuro”, que serve como uma bússola para o longa de Wilson: em seu roteiro, tudo o que entendemos como “ontem”, como o antecedente de Garrison, cai por terra uma vez que ele descobre ter tido suas memórias alteradas pelo cientista que salvou seu corpo da Morte: Dr. Emil Harting, encarnado com uma maestria contagiante por Guy Pearce.
Com ecos de “Soldado Universal” (1992), sci-fi pancada lançado no ano em que a Valiant lançou “Bloodshot”, a saga de Garrison começa em uma operação militar de sucesso, na qual ele demonstra suas virtudes guerreiras. Pouco depois, nos braços de sua namorada, ele sofre uma emboscada pelas mãos de um criminoso fã de Talking Heads e é assassinado, sendo revivido a partir de uma experiência que injeta nanorrobôs em forma de insetos em seu organismo. Essas máquinas diminutas dão a ele superforça, ampliam sua velocidade e garantem uma cura instantânea de seus ferimentos, o que entra em cena, logo após sua ressureição, numa cruzada de vingança contra o homem que o matou. Mas essa revanche logo se revela uma tola ilusão, manipulada por interesses militares que vão além de seus sentimentos. Quem sinaliza essa manipulação é KT, agente igualmente potencializada pelos nanos, vivida por com inteligência pela atriz mexicana Eiza González – olho nela!!! – que injeta um tônus melodramático no filme.
Ciente de ter sido ludibriado, Garrison parte para dar o troco, numa ciranda de viradas que a direção de Wilson administra com competência, vitaminando-as com uma luta em um elevador com fôlego para entrar para a história do cinema de ação. Na versão brasileira, Jorge Lucas dubla Diesel, que aguarda abril de 2021 para ser visto uma trama inédita de Toretto, em “Velozes & Furiosos 9”.

p.s.: Nesta terça-feira, à 1h50, a Globo exibe “Taxi Driver”, cult que deu a Palma de Ouro a Martin Scorsese em 1976.

p.s. 2: Que leitura obrigatória é “Grande Hotel Abismo”, livro seminal de Stuart Jeffries sobre a Escola de Frankfurt, que a Cia das Letras lança agora no Brasil.

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