Vin Diesel eleva temperatura e pressão da ‘Tela Quente’

Vin Diesel eleva temperatura e pressão da ‘Tela Quente’

Rodrigo Fonseca

15 de abril de 2019 | 08h48

Rodrigo Fonseca
A fim de demarcar a excelência de sua programação 2019, a TV Globo resolveu abrir a semana com um par de filmaços: às 13h56, a “Sessão da Tarde” revê o brilhante drama “Que horas ela volta?”, de Anna Muylaert, premiado em Sundance e em Berlim; à noite, às 23h, a boa e velha “Tela Quente”, que alfabetizou milhões de brasileiros na gramática do audiovisual de 1988 pra cá, vai de Vin Diesel. A grande atração do dia é o thriller “xXx: Reativado” (“xXx: Return of Xander Cage”, 2017), de D. J. Caruso, com direito a participação de Neymar. A produção de US$ 85 milhões teve uma campanha promocional que trouxe seu astro ao Brasil, na Comic-Con Experience, o que ajudou a ampliar seu apelo popular, coroado com uma bilheteria estimada em US$ 346 milhões. Na versão brasileira, Jorge Lucas dubla Diesel… muito bem, aliás. Antes do longa-metragem, a emissora exibe o tomo 1 da minissérie “Se eu fechar os olhos agora”.

Combustível vivo de uma nova estética para a o gênero ação, baseada mais na amizade do que na brutalidade, Diesel ataca aqui também de produtor, revivendo um sucesso de 2002, no qual vivia o dublê e atleta Xander Cage, que era escalado pelo agente Gibbons (Samuel L. Jackson) a fim de se tornar um 007 para os americanos. Na produção, Diesel nos dá um espetáculo da mais pura adrenalina, vivo, sem medo de incorrer no brega, nem de saturar cores. Herdeiro da linhagem de O.M.A.C.s (One Man Army Combat – Exércitos de um Homem Só) dos anos 1980, este Schwarzenegger metido a Burt Lancaster (por estrelar, produzir e dar palpite em causas humanitárias) sempre injetou um tom de “filme de patota” em seus projetos. Graças ao empenho dele, “Velozes e Furiosos” virou uma das franquias mais rentáveis de Hollywood, apostando num esquema de “filme de família”, no qual ladrões de carro formam clãs pautados a companheirismo.

Se passa algo similar nesta trama de regresso de Cage, incumbido aqui de encontrar um dispositivo capaz de orquestrar a queda (criminosa) de satélites de última geração. Xander é um Stallone sabor groselha, mais leve, mais risonho, de casado felpudo, mas de uma retidão irretrocedível. Como os velhos caubóis condenados à desaparição do western clássico, ele retoma a ideia de que “um herói tem que fazer o que um herói tem que fazer”. Gerou, com essa revisão histórica, um filme trash mas com alma: acerta pelo erro, sem medo da carne, do sexo, da virulência.

Dono de uma carreira irregular, dada como notória a partir de sua incursão na moléstia das drogas em “A Sombra de um Homem” (2002), Caruso aqui dá o melhor de si nas rédeas narrativas da cartilha da ação e na incorporação de uma linguagem mais próxima da internet que do cinema. O início, com Neymar atacando de herói, dá a impressão de estarmos diante de um carro alegórico da Beija-Flor de Nilópolis disfarçado de filme. Mas, logo, encontra-se um caminho rígido para ele: uma trilha de solavancos pela tradição dos grandes thrillers de .38tão na mão. É um experimento mercadológico, de essência explosiva moralmente transgressora. Só isso já faz de “xXx” uma iguaria.

Aos 51 anos, Diesel prepara agora “Bloodshot”, para fevereiro de 2020, baseado na HQ de Kevin VanHook, Don Perlin e Bob Layton. E tem Fast & Furious 9 previsto pro ano que vem.

p.s.: O poster do Festival de Cannes de 2019 (14 a 25 de maio) é dedicado à diretora belga Agnès Varda (1929-2008), morta no fim de março, em decorrência de um câncer. Nesta segunda, a Cinemaison, na Maison de France, no Centro do RJ exibe dois filmes dela, em 35mm: “Jacquot de Nantes” (1991), às 18h, e “Os renegados” (Leão de Ouro de 1985), às 20h.

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