‘Vice’, um vício… agora na TV

‘Vice’, um vício… agora na TV

Rodrigo Fonseca

10 de novembro de 2019 | 09h18

Rodrigo Fonseca
Com a proximidade da estreia de “Ford Vs. Ferrari”, de James Mangold, a ficha corrida do ator Christian Bale, lotada de desempenhos geniais, começa pipocar nas redes de TV, com destaque para seu mais recente (e premiado) trabalho: “Vice”, pelo qual conquistou o Globo de Ouro na categoria Comédia/ Musical. O Telecine já incluiu o longa-metragem de US$ 60 milhões em sua grade, incluindo o Telecine Play. E sempre que se fala na produção, que ganhou espaço beeem generoso de páginas na “Cahiers du Cinéma”, em fevereiro, a palavra Satã é evocada, em uma referência crítica a uma frase de Bale – dublado no Brasil por Ettore Zuim.
Em sua passagem pela Berlinale 2019, o filme fez com que o nome de Satanás fosse o mais citado no evento alemão: indicado a oito Oscars, e laureado com o de melhor maquiagem, “Vice” passou pela capital alemã em sessão hors-concours. No Brasil, o longa vendeu 126 mil ingressos em apenas dez dias em cartaz. Foi Bale, astro galês celebrizado sob a máscara do Batman, entre 2005 e 2012, quem criou essa associação da trama filmada sob a direção de Adam McKay com o Diabo, ao atribuir ao Senhor das Trevas seu modelo para viver o ex-vice-presidente dos EUA Dick Cheney, braço direito de George W. Bush. “Obrigado, Satã, pela inspiração”, disse o ator, no dia 6 de janeiro, ao receber o Globo dourado. Na tela, ele é visto 20 quilos mais gordo, para dar conta da figura rotunda de Cheney. É a bruxa da Casa.
“Trump não é como Cheney: ele é um produto do populismo, uma consequência dos fatos que mudaram a política nos últimos 50 anos. Dick Cheney, não. Ele é um sujeito de muitas contradições que nunca se arrepende do que faz. Fico me perguntando se ele dorme bem ou se os demônios vão atrapalhar seu sono”, questionou Bale, em Berlim, esbanjando o sorriso de quem emplacou um dos maiores trabalhos de sua carreira, iniciada quando ele, ainda menino, fez “Império do Sol”, sob a direção de Steven Spielberg.

Consagração tão grande quanto a sua é o mar de elogios que McKay anda colecionando pelo filme, cuja bilheteria mundial chegou a US$ 76 milhões. Indicado aos Oscars de melhor direção e roteiro original, ele fez fama no humor pastelão com comédias cults como “O âncora” (2004), mas mudou seu perfil ao investigar a crise econômica dos EUA de 2008 em “A grande aposta”, também com Bale. Ali, já levou um Oscar pra casa. Mas o impacto que causou com “Vice” – um projeto produzido por Brad Pitt – é ainda maior. Atualmente, o diretor assina a produção de “As golpistas” (“Hustlers”), com Jennifer Lopez, que tornou-se um sucesso sem par de arrecadação nos EUA. Ela ainda prepara o telefilme “Showtime”, para a HBO, com John C. Reilly e Gabby Hoffmann.
“Brad Pitt é um desses artistas que amam o cinema e produzem filmes por amor, trabalhando num esquema em que não impõe pressão sobre os diretores atrás de resultados específicos, o que é uma garantia de liberdade”, disse McKay ao P de Pop numa coletiva em Berlim que atrasou por quase 40 minutos, por intervenção de… Satã. “O filme deve muito à boa prática do jornalismo, não apenas pela importância que os bons artigos sobre o papel histórico de Cheney tiveram na construção do roteiro. Eu coloquei jornalistas muito talentosos para entrevistar, em off, as pessoas mais próximas de Cheney e descobrir quem ele é. É curioso ver que um sujeito que cozinha o jantar de sua família e tem uma conduta super divertida com as pessoas possa ser o responsável pela morte de milhares de pessoas e não se preocupar com isso”.
McKay refere-se a uma das muitas estratégias polêmicas tomadas por Cheney em oito anos de governo: após o 11 de Setembro, ele acreditou que os americanos precisavam de um inimigo a quem dedicar seu revanchismo e decidiu que o Iraque de Saddam Hussein (1937-2006) era o alvo ideal. Resultado: 600 mil mortos e um país arrasado. “Cheney tem sua humanidade, mas ela está na trilha errada. Ele é alguém que faria tudo de novo”, disse Bale, hoje de volta à sua silhueta atlética habitual. “O peso que ganhei fez de mim uma morsa. O pior era ver o Adam obcecado pelo meu umbigo gordo”.

p.s.: Inflamável, “Meu Amigo Fela”, de Joel Zito Araújo, já está em circuito. Laureado com o Prêmio Especial do Júri no É Tudo Verdade, este retrato sobre as lutas de Fela para afirmar seus ideais começou sua carreira pelas telas inflamando debates sobre consciência política e racial em salas exibidoras holandesas, via Festival de Roterdã. O novo longa-metragem do realizador de “A negação do Brasil” (2000) saiu de lá com passagem garantida para o mais respeitado dos festivais da África, o Fespaco, em Burkina Faso – de 23 de fevereiro a 2 de março. Sua projeção em Roterdã fez parte do programa Soul In The Eye, uma radiografia do cinema negro brasileiro de diferentes gerações (com fortíssima concentração de mulheres diretoras, como Sabrina Fidalgo, Yasmin Thayná e Jéssica Queiroz), arquitetado sob a curadoria da doutora em História Janaína Oliveira, e batizado em referência ao curta “Alma no olho” (1973), de Zózimo Bulbul (1937-2013). A revisão crítica da vida e da obra de Fela – construída a partir de uma jornada internacional do cineasta ao lado do escritor Carlos Moore, biógrafo do multinstrumentista por trás de LPs lendários do afrobeat como “Why black man dey suffer”, de 1971 – é uma das vertentes de uma filmografia iniciada por Joel Zito em 1988. Uma trajetória audiovisual com os olhos bem abertos para os exercícios de exclusão do mundo, mas com os pés fincados na realidade de intolerâncias do Brasil.
p.s. 2: Neste domingo, à 0h55, no “Cinemaço”, a TV Globo exibe o subestimado “Justiceiro”, de 2004, com Thomas Jane dublado por Eduardo Borgerth.

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