‘Vice’ no café da manhã… e Now

‘Vice’ no café da manhã… e Now

Rodrigo Fonseca

07 de abril de 2020 | 09h01

Adam McKay confere as cenas de Steve Carell e Christian Bale, seu protagonista, nos sets de VICE, que concorreu a oito Oscars e ganhou o de melhor maquiagem

Rodrigo Fonseca – #FiqueEmCasa
Amanheceu o dia com “Vice”, produção laureada com 34 prêmios, entre eles o Oscar de melhor maquiagem, na TV: tava passando na faixa Premium do Telecine, que já incluiu o longa-metragem de US$ 60 milhões em sua grade, incluindo o Now e o streaming Telecine Play. No cabo, passa de novo no dia 26. E sempre que se fala neste irônico longa-metragem, que ganhou espaço beeem generoso de páginas na “Cahiers du Cinéma”, em fevereiro de 2019, a palavra Satã é evocada, em uma referência crítica a uma frase de Bale – dublado no Brasil por Ettore Zuim. Em sua passagem pela Berlinale 2019, o filme fez com que o nome de Satanás fosse o mais citado no evento alemão: indicado a oito Oscars, “Vice” passou pela capital alemã em sessão hors-concours. No Brasil, o longa vendeu 126 mil ingressos em apenas dez dias em cartaz. Foi Bale, astro galês celebrizado sob a máscara do Batman, entre 2005 e 2012, quem criou essa associação da trama filmada sob a direção de Adam McKay com o Diabo, ao atribuir ao Senhor das Trevas seu modelo para viver o ex-vice-presidente dos EUA Dick Cheney, braço direito de George W. Bush. “Obrigado, Satã, pela inspiração”, disse o ator, no dia 6 de janeiro do ano passado, ao receber o Globo dourado. Na tela, ele é visto 20 quilos mais gordo, para dar conta da figura rotunda de Cheney. É a bruxa da Casa. “Trump não é como Cheney: ele é um produto do populismo, uma consequência dos fatos que mudaram a política nos últimos 50 anos. Dick Cheney, não. Ele é um sujeito de muitas contradições que nunca se arrepende do que faz. Fico me perguntando se ele dorme bem ou se os demônios vão atrapalhar seu sono”, questionou Bale, em Berlim, esbanjando o sorriso de quem emplacou um dos maiores trabalhos de sua carreira, iniciada quando ele, ainda menino, fez “Império do Sol”, sob a direção de Steven Spielberg.
Consagração tão grande quanto a sua é o mar de elogios que McKay anda colecionando pelo filme, cuja bilheteria mundial chegou a US$ 76 milhões. Indicado aos Oscars de melhor direção e roteiro original, ele fez fama no humor pastelão com comédias cults como “O âncora” (2004), mas mudou seu perfil ao investigar a crise econômica dos EUA de 2008 em “A grande aposta”, também com Bale. Ali, já levou um Oscar pra casa. Mas o impacto que causou com “Vice” – um projeto produzido por Brad Pitt – é ainda maior. Atualmente, o diretor trabalha numa série sobre o time dos Los Angeles Lakers, força mítica no basquete. “Brad Pitt é um desses artistas que amam o cinema e produzem filmes por amor, trabalhando num esquema em que não impõe pressão sobre os diretores atrás de resultados específicos, o que é uma garantia de liberdade”, disse McKay ao P de Pop numa coletiva em Berlim que atrasou por quase 40 minutos, por intervenção de… Satã. “O filme deve muito à boa prática do jornalismo, não apenas pela importância que os bons artigos sobre o papel histórico de Cheney tiveram na construção do roteiro. Eu coloquei jornalistas muito talentosos para entrevistar, em off, as pessoas mais próximas de Cheney e descobrir quem ele é. É curioso ver que um sujeito que cozinha o jantar de sua família e tem uma conduta super divertida com as pessoas possa ser o responsável pela morte de milhares de pessoas e não se preocupar com isso”.

McKay se refere a uma das muitas estratégias polêmicas tomadas por Cheney em oito anos de governo: após o 11 de Setembro, ele acreditou que os americanos precisavam de um inimigo a quem dedicar seu revanchismo e decidiu que o Iraque de Saddam Hussein (1937-2006) era o alvo ideal. Resultado: 600 mil mortos e um país arrasado. “Cheney tem sua humanidade, mas ela está na trilha errada. Ele é alguém que faria tudo de novo”, disse Bale, hoje de volta à sua silhueta atlética habitual. “O peso que ganhei fez de mim uma morsa. O pior era ver o Adam obcecado pelo meu umbigo gordo”.

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