‘Viajo por preciso’, volto pelo Na Real_Virtual

‘Viajo por preciso’, volto pelo Na Real_Virtual

Rodrigo Fonseca

13 de agosto de 2020 | 20h06

O diretor Marcelo Gomes no Zoom do Na Real_Virtual

Rodrigo Fonseca
Geral participou da penúltima palestra do seminário Na Real_Virtual – que termina nesta sexta-feira – organizado em torno do poema ultrarromântico “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo” (2009), fossem nomes de peso da plateia, em intervenções típicas de fã, como João Moreira Salles e Cao Guimarães, fossem os integrantes do aclamado .doc on the road. Era para o papo ser com o realizador Marcelo Gomes, mas seu parceiro de direção, Karim Aïnouz, entrou no Zoom também, seguido pela montadora Karen Harley e pelo editor de som Waldir Xavier. Os quatro fizeram uma conversa que vale por um curso de construção narrativa. Lançado no Festival de Veneza e laureado com o troféu Redentor de melhor fotografia (Heloísa Passos) e melhor direção na Première Brasil, “Viajo…” acompanha as andança de um geólogo cujo rosto a gente nunca vê. Só ouvimos a voz (e que voz) do Irandhir Santos.

Macelo Gomes: “O filme estreou em Veneza e, na primeira crítica do filme, um cara falou que era o home video mais emocionante que ele já tinha visto. Ele classificou o filme como home video e a gente ficou tão emocionado, porque dá uma proximidade com o espectador, parece que você chegou em casa e pegou o filme de um amigo seu que viajou. Você tem uma proximidade emocional e íntima tão grande que algo que poderia soar pejorativo ficou muito bonito para gente. Eu me lembro tanto que, no início de tudo, cheguei para a minha mãe e falei: ‘Estou indo para o sertão passar dois meses para fazer um filme’. Ela falou: ‘Traga bode. Todo mundo que vai para o sertão precisa trazer um bode para a família’. Era uma coisa que eu não sabia, não me inteirava, não lembrava daquilo ou não fazia parte da minha bagagem cultural. Era muito lindo essa compreensão do lugar, essa compreensão do lugar e do não lugar, na proximidade e no distanciamento, dos encontros e dos desencontros, mas tudo em nome desse desejo de liberdade. No caso do ‘Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo’, tudo era acaso, a liberdade era tão grande que nada era acaso e tudo era ao mesmo tempo, porque a gente se deixou levar nessa viagem. Nos outros trabalhos que faço, todo dia eu rezo pelo acaso. Ele é super bem-vindo em todos os meus trabalhos, até naqueles onde roteiro está bem determinado e, de repente, alguma coisa acontece. Tenho o exemplo maravilhoso de um filme que fiz com o Cao Guimarães, ‘O Homem das Multidões’. Nele, aconteceu um erro na hora da filmagem que mudou todo o roteiro. Rezo pelo Deus acaso todos os dias. Agora, acho que o acaso é muito bem-vindo quando você sabe exatamente onde quer chegar, qual o seu destino. O nosso destino no caso do ‘Viajo’, era a Estação Liberdade, então era muito fácil trabalhar com o acaso. Uma coisa que acho maravilhosa é a trilha sonora desse filme. A gente usou todas as músicas que a gente escutou durante a nossa viagem. Uma coisa que acho ser o mais bonito desse filme, e agora a gente assume, é que nele existem todos os possíveis clichês do cinema. A gente assume e transborda esse clichê. Acreditamos na emoção e vamos além. Tem muito pôr do sol no filme e muita gente feliz. A nossa coragem foi ir além desse clichê, além de tudo isso e construir algo que transborda”.

Karen Harley: ‘Quando eles me chamaram para editar o ‘Viajo’, lembro que o João Júnior (o produtor) falou: ‘Olha, esse material é incrível e eles querem trabalhar esse material. A gente não sabe se vai ter filme, mas tudo bem… vocês vão ficar na ilha o tempo que precisar. Se não tiver filme, não tem o menor problema’. Um produtor chegar para o montador e falar isso já dá um start no projeto de outra forma. A gente foi explorando e, a partir de um certo momento, nós nos demos conta de que a montagem era o recado também, não só aquelas imagens em si. Isso foi meio que uma chave. Ele faz tudo, é um diário de viagem e ele está gravando e montando. A gente montava com os erros que o Zé Renato (o personagem do Irandhir Santos) poderia fazer, com o gosto dele, com as músicas que ele escuta, com o fato de que ele gosta de pôr do sol. Era engraçado que o Marcelo desenhou um mapa de montagem e este ficava na parede do meu estúdio. O mapa era a curva emocional do Irandhir e a montagem seguiria essa curva. Isso era livre, mas, ao mesmo tempo, tinha um certo rigor. Tínhamos um norte para seguir”.

Waldir Xavier: “Tinha uma questão de liberdade muito grande naquele trabalho. Tinha muitos materiais diferentes. Foi uma verdadeira construção narrativa. A construção narrativa do som foi uma decisão dramatúrgica de seguir essa viagem e de trabalhar como um roteiro mesmo. Com os dias, as rupturas, com momentos que tinham que ser ligados e outros que tinham que ser cortados e de ter essa naturalidade e de ouvir essa voz no estúdio. Acho que a coisa mais importante, foi uma discussão muito cabeça, sobre como a gente iria mixar a voz desse personagem. Qual a textura e como a gente vai ouvir essa voz? E aí teve uma coisa interessante, essa intimidade da voz: ele (o personagem do Irandhir Santos) está falando para ele mesmo, está gravando em um gravador. Teve a primeira questão muito formal, que foi “não vamos colocar o ‘liga e desliga’ do gravador, que vai ficar insuportável”. A voz já tinha uma liberdade de não ter esse naturalismo de dizer que ele estava ligando e desligando”.

Karim Aïnouz: “Acho que foi muito libertador no ‘Viajo…’ fazer o encaminhamento clássico, que, a princípio, parecia engessar as imagens e diminuir a potência delas. Elas podem fazer essas imagens respirarem com muito mais força. A maneira como a gente criou a lógica disso foi uma lógica de motivação de personagem clássica. A gente queria fazer a narração, mas não dava para fazer isso a dois. Era para escolhemos uma pessoa, e queríamos fazer um filme sobre um personagem bem exótico pra nós, alguém que não conhecemos. No caso: um homem, heterossexual, funcionário público de classe média. Vamos tentar entender como seria esse homem através do lugar. A gente filmou sem escrever. Normalmente, você escreve e depois sai para construir o que escreveu. Acho que o que aconteceu aqui, é que a gente escreveu o que já havia sido filmado e filmamos o que estava para ser escrito. Tinha o tempo inteiro, essa coisa que é o oposto do cinema no sentido clássico da produção no sentido clássico da produção cinematográfica, que é seja ele documentário de tese, você vai lá e escreve uma tese que tem que provar. Por isso, essa coisa da surpresa é importante. Tem outra camada… tinham umas imagens às quais a gente deu sentido narrativo, a gente escreveu para elas. Depois tivemos que filmar um pouco mais, porque tinham algumas coisas que a gente deu sentido narrativo e achou que precisava de mais. A gente nunca filmou de noite. Quando eu acordo, já acordo quicando e o Marcelo, às vezes demorava um pouquinho, mas acordava. Quando dava cinco da tarde eu estava morto, todos estávamos. A gente raramente filmou à noite e quando começamos a escrever a história do Zé Renato, claro que ele deveria dormir à noite. É engraçado que já encontrei com o Irandhir várias vezes e já o vi em vários filmes. Eu não lembro do Irandhir pessoa, mas lembro da voz do Zé Renato. Claro que eu me lembro da gente dirigindo ele no estúdio, mas, para mim, o Irandhir não existe”.

Emílio Domingos na Mostra de SP de 2016, onde exibiu “Deixa na Régua”: cineasta fala com o público do Na Real_Virtual nesta sexta, 19h

No desfecho do Na Real_Virtual, o papo deste 14 de agosto – mediado por Carlos Alberto Mattos e Bebeto Abrantes no https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/2020 – vai ser com Emílio Domingos, diretor de “A Batalha do Passinho: O Filme”, laureado com o prêmio de melhor longa na mostra Novos Rumos do Festival do Rio de 2012. Pautado pela antropologia, o diretor criou, ao longo das últimas duas décadas, uma poética de inclusão, investigando diferentes formas de viver nas comunidades do Rio de Janeiro, seja no subúrbio, no Centro ou na Zona Sul. “Favela é Moda”, sua produção mais recente, premiada com menção honrosa e com a láurea do júri popular na Première Brasil 2019, será o farol da conversa. Desde sua arrancada, no dia 20 de julho, conduzida sob a curadoria de Mattos e Abrantes e sob a produção de Marcio Blanco e Kerlon Lazzari, da Imaginário Digital, o Na Real já mobilizou titãs da direção como Maria Augusta Ramos, João Moreira Salles, Cao Guimarães, Carlos Nader, Petra Costa, Walter Carvalho, Belisario Franca, Joel Pizzini, Gabriel Mascaro, Rodrigo Siqueira e dos aqui muito citados Karen Harley, Waldir Xavier, Karim Aïnouz e Marcelo Gomes. Já houve dia com 200 pessoas nessas sabatinas documentais, que podem (e merecem) ser imortalizadas em livro.

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