VFXRio: o legado de ‘Star Wars’

VFXRio: o legado de ‘Star Wars’

Rodrigo Fonseca

27 de junho de 2020 | 11h44

Rodrigo Fonseca
Vai ter Jedi usando e abusando da Força esta tarde na web, de carona na celebração dos 45 anos da Industrial Light & Magic (ILM), a usina de sonhos responsável por propulsões de naves X-Wings, tiros de laser e sabres de luz. Às 15h30 deste sábado, a maior feira de efeitos visuais das Américas, o VFXRio vai receber – online – um dos bambas da ILM, Roger Guyett, que esteve à frente do VFX de “O Despertar da Força” (2015) e “Ascensão Skywalker” (2019), via site www.vfxrio.com.br. Entre os temas tratados, destaca-se a relevância da empresa para a busca por um casamento sem quebra-molas entre a tecnologia da imagem e o storytelling, além dos passos de ontem, de hoje (sobretudo em relação às séries de TV, como “O Mandaloriano”) e de amanhã da .cia criada sob a égide de George Lucas, na década de 1970.
“Atualmente, o maior desafio da ILM é lidar com a terrível pandemia de Covid. Não somos a única empresa que faz um bom trabalho nessa área de VFX (Visual Effects), é claro, mas temos a reputação de entregar trabalho de ponta em tempo determinado e dentro do orçamento. E tem sido assim por muitos, muitos anos. E terá de ser assim em home office”, admite Guyett, em entrevista por email ao P de Pop. “O trabalho de VFX que a ILM empreende abrange uma ampla gama de tipos de produção. Nós temos no currículo produções completamente digitais, como o filme “Rango”, e temos ainda uma parte de nossa equipe trabalhando em produções live action. Investimos muito em tecnologia para alcançar os resultados que você vê na tela. São milhares de artistas VFX trabalhando em uma enorme rede de computadores. Com a recente pandemia, na maior parte do tempo, temos sido capazes de continuar a fazer o trabalho VFX porque um monte de artistas foram capazes de trabalhar isoladamente de casa”.

Roger Guyett foi indicado ao Oscar por “A Ascensão Skywalker”

Na fileira de futuros lançamentos há o novo 007 – “Sem Tempo Para Morrer” -; “Viúva Negra”, com Scarlett Johansson; e o novo “Jurassic World”, chamado “Dominion”. Some a esse cardápio de pipocas a nova temporada da série da Disney + “O Mandolariano”, com o atual xodó da cultura nerd, o Baby Yoda. “O trabalho feito pela empresa, começando com ‘Star Wars’ – e olha que não é um mau lugar para se começar! – influenciou essencialmente todo um gênero de produção de filmes e permitiu que muitos diretores – como George Lucas, Steven Spielberg, Robert Zemeckis e JJ Abrams – trouxessem suas visões para a tela”, diz Guyett, indicado ao Oscar por “A Ascensão Skywalker”, em janeiro.

Sob a fotografia de detalhismo obsessivo de Dan Mindel, o filme, orçado em US$ 275 milhões, foi lançado sob uma saraivada de antipatias acerca de sua aposta num clima de aventura folhetinesco, pautado por revisões de seu passado. Mesmo assim, faturou US$ 1 bilhão. Nele, o “novo”, curiosamente, vem na forma de um homem de 83 anos. William December Williams Jr., ou apenas Billy Dee Williams, regressa à franquia, já octogenário, sob a capa e a malandragem de Lando Calrissian, ladino estelar famoso, em “O Império Contra-Ataca” (1980), por ludibriar seu parceiro, Han Solo. A entrada dele, em “Star Wars – Episódio XIX: A Ascensão Skywalker” tem cheiro de pertença (a um legado estético) e aroma de revisionismo histórico. O homem de moral torta da década de 1980 regressa agora como um signo de heroísmo e de valores de inclusão. Lando não é mais o vaselina que podia passar a perna nos heróis da Aliança Rebelde. Ele é parte da resistência que a Comandante Leia Organa (a saudosa Carrie Fisher) armou contra as forças das trevas, ainda lideradas pelo neto de Darth Vader, Kylo Ren (Adam Driver, impecável como de costume), e, agora, acossadas pelo Imperador Palpatine (Ian McDiarmid), que retorna após uma aparente morte, por sua Força (às avessas) como Sith. Lando é a centelha de sabedoria que vai animar os jovens combatentes reunidos em torno da aspirante a Jedi Rey (Daidy Ridley) e seu droide BB8. É ele quem vai escavar camadas existenciais em personagens recém-chegados como a amazona Jannah, papel que dá à atriz Naomi Ackie a chance de roubar várias cenas, com seu carisma singular e sua retidão de candidata a heroína. É pequena a participação de Lando, mas sempre que ele aparece carrega consigo um charme que alimenta a verve clássica de um espetáculo pop que dialoga com as narrativas dos seriados dos anos 1930 e 40 do cinemão americano.

Billy Dee Williams é o mercenário Lando

Dublado por Júlio Chaves no Brasil, Lando entra no longa de J. J. Abrams como reminiscência da herança formal de George Lucas, hoje afastado do processo criativo da franquia que inaugurou em 1977. Os tempos são outros, os pleitos por empoderamentos estão em fervura máxima, e as lutas de afirmação racial furam as bolhas do preconceito. “Star Wars” também mudou: diluiu sua verve épica num timbre menos grandiloquente, mais afeito à fluidez e ao imediatismo das formas digitais de se narrar. Mas eis que entra Lando, derramando a manteiga da nostalgia numa pipoqueira que estoura, a óleo fervente, o coeficiente heroico de Rey e a vilania do Imperador. Não se trata de um requentar de fórmulas e clichês e, sim, uma reciclagem envernizada com a mais brilhante afetividade e pitadas de adrenalina. Como direção, o novo longa desfila as sequências de ação mais bem filmadas de SW nos anos 2010. O ritmo da ação é frenético, com tomadas de perseguição, trocas de tiro e embates de esgrima (a sabres de luz) mais enérgicas do que o costume da saga. E, eis que, em meio a um oceano de combates, Lando surge como uma centelha de familiaridade, uma lembrança de tudo o que a grife “Guerra nas Estrelas” construiu nas últimas quatro décadas. Essa construção deságua agora em “O Mandaloriano”, a série do Disney+ que transformou o Baby Yoda na personalidade ficcional do ano. É uma travessia pelo tempo – e pelo Espaço – que se firma num eterno retorno, em outras mídias, sem abrir mão do lúdico na telona.
“Os telespectadores mudaram, e a pandemia acelerou esse processo, para a conveniência de assistir a programas transmitidos em seus iPads ou televisões”, diz Guyett. “As pessoas estão menos entusiasmadas em ir aos cinemas. Isso significa que mais e mais do trabalho feito por empresas de VFX (como ILM) é feito para streaming outlets como Amazon Prime Video, HBO Max, Netflix e, claro, Disney+. ‘O Mandaloriano’ é um grande caso em questão. Tem havido uma mudança fundamental nos hábitos de observação das pessoas”.

Com o papo de Guyett e da ILM aqui, neste sabadão de sol, vale um balanço do que “O Despertar da Força”, do qual ele também foi o supervisor, representou e do que a épica delineada em Star Wars representa. Pois vamos nós…
Foi com um atraso de pelo menos sete anos em relação às filmografias da Europa e da América Latina (Brasil inclusive) que os EUA se engajaram numa corrente de mudança audiovisual chamada de cinemanovismo, iniciada por lá quando o diretor Jefrey Jacob Abrams, nascido em 1966, era apenas um bebê de colo. Neste momento em que o planeta em peso se põe a matar sua curiosidade frente a Star Wars – Episódio VII: O Despertar da Força (The Force Awakens) e a babar frente às imagens arquitetadas sob a direção por Abrams – ou J. J. como é ele conhecido -, uma mitologia iniciada nos tempos do cinema novo norte-americano se recicla, ganha uma mão de verniz e abre suas veias para inquietações contemporâneas de inclusão sexual, racial e étnica. Mas é importante que se saiba que essa instância mítica do pop é fruto de uma torrente de revisionismo ético, moral, comportamental e governamental iniciada em 1967 e finda em 1980, movida ao gás de uma juventude cabeluda e barbuda cujo sonho era botar nas telas não a América idealizada pelas comédias e pelas love stories da Hollywood clássica e sim uma América on the rocks, mestiça, esfarrapada, chapada de cânhamo e fedida ao agente laranja do Vietnã. Star Wars nasceu da carência de novos heróis com fibra para repaginar o conceito jurássico do bom mocismo à luz da rebeldia junkie, flower power, black power, cinéfila. E na tarefa de dar continuidade à tradição que George Lucas sedimentou nessa era rebelde, Abrams deu conta do risco prestando um tributo ao ethos histórico que originou Luke Skywalker e cia. e indo além disso.

Ontem e hoje – ou passado e presente – são uma matéria-prima só no espetáculo narrativo que eleva o realizador nova-iorquino ao status de mestre, arrancando de seus atores o melhor a título de carisma e boa interpretação e elevando à fervura máxima a montagem de Maryann Brandon e Mary Jo Markey. Por isso, autoralidade é a palavra bússola para se entender O Despertar da Força. Às vésperas de preparar as primeiras exibições públicas de Star Wars – Episódio IV: Uma Nova Esperança, em 1977, George Lucas, cabeça por trás da saga milionária, convocou seu melhor amigo (e incentivador), o cineasta Brian De Palma (Os Intocáveis), para ver os copiões e lhe dar suas impressões sobre o longa-metragem que apresentaria Lorde Darth Vader à Terra. De Palma viu e, ao fim da projeção, recomendou: “Lucas, venda tudo o que você tem, pois você acaba de preparar aquele que vai ser tornar o pior de todos os fracassos da história do cinema”. Prognóstico mais equivocado poucas vezes já se ouviu. Mas ali, mais do que protecionismo de irmão mais velho postiço e mais do que desencontro de expectativas (artesão do suspense, De Palma gosta de sangue e tripas e meias verdades, não de fantasia), havia a miopia frente ao léxico do pop, que, naquele frente, começava a se configurar como uma cartilha e como uma filosofia de mundo. E o pop de Lucas era uma mistura de seriados dos anos 1930 (Flash Gordon), HQs (Buck Rogers) e de épicos samurais de seu deus Akira Kurosawa. De Palma errou, Lucas acertou e o público ganhou um colírio com cores mais reluzentes que a do LSD, permitida para menores e atraente para maiores. Duas trilogias nasceram dali.
Mas o tempo passou, a idade chegou, Lucas ficou grisalho e se cansou de guerra… sua Guerra nas Estrelas, confiando a um rato de calções vermelhos, o camundongo Mickey e sua Disney, seu latifúndio sinestésico de Jedi e Sith. Na Disneylândia, fala-se o beabá da infância, no qual a Morte ficou com a mãe de Bambi e os traumas foram abanados pelas orelhas voadoras de Dumbo, ganhando volume 3D na computação visual de uma Pixar que usa bonecos para representar rejeição e inveja. No jardim da infância de Pato Donald não havia quem pudesse (quiçá soubesse) adentrar pelo Lado Negro da Força. Mas Abrams foi com seu Star Trek de 2009 aonde nenhum homem de Hollywood jamais esteve e transformou uma soporífera série de muito blábláblá e pouco músculo numa montanha-russa de estrangular fôlegos sem desmerecer tutanos e refinamentos. Era, ainda por cima, súdito da Princesa Leia, nas lembranças que guardou de seus 11 anos, quando Uma Nova Esperança estreou em Nova York. Era, portanto, a escolha perfeita. E respondeu à altura, assumindo a assinatura autoral que fora de Lucas.

Se nos anos 1970, um caubói gourmetizado como Han Solo soava transgressor, nos anos 2010, Abrams dá à dionisíaca figura da atriz inglesa Daisy Ridley (e que atriz!) pleno protagonismo no domínio dos sabres de luz, na pele de Rey. E seu lado, o diretor escalou o britânico John Boyega, para encarnar o soldado StormTrooper desertor Finn. Se não bastasse, o terceiro vigilante estelar é o guatemalteco Oscar Isaacs, sob a farda do piloto Dameron Poe. Frente ao regresso de Harrison Ford, Carrie Fisher e Mark Hammil (numa aparição de arrancar lágrimas), o trio de jovens só poderia almejar uma condição coadjuvante. Mas Abrams não quis fazer Em Algum Lugar do Passado. Ele quis consolidar um novo panteão de guardiões para a galáxia. Gol! Fabricou três heróis de boa cepa, aptos a escavar um canteiro no imaginário das gerações de dentes de leite ou das de bocas banguelas.
Com um roteiro impecável, de viradas, surpresas e homenagens, bronzeado pelo Sol dos Sóis do script americano dos anos 1980, Lawrence Kasdan, Star Wars – Episódio VII: O Despertar da Força (The Force Awakens) se concentra num momento em que um novo exército imperialista ameaça a paz do Universo: a Primeira Ordem, cujo líder de voz gutural, o Supremo Líder Snoke (Andy Serkis, o Gollum de O Senhor dos Anéis), é mantido em sigilo. Seu acólito mais sanguinário é o espadachim Kylo Ren, um vilão de primeira grandeza, capaz de ombrear a maldade de Lorde Vader, mas prejudicado por tormentos existenciais relativos às sua origem que lhe dão tridimensionalidade dramática. As ações da Primeira Ordem abrem as sequências iniciais do longa numa caça ao dróide BB-8, um primo pós-moderno de R2-D2, de igual fofura. Ele detém um arquivo com o paradeiro de Luke Skywalker (Hammil), desaparecido há anos. E Snoke quer destruir o Jedi. Essa perseguição pelo dróide mobiliza um Stormtrooper de bom coração (Finn), uma coletora de sucata possuidora de uma concentração agigantada da Força (Rey), um ás da pilotagem de jatos X-Wings (Poe) e a dupla Han Solo e Chewbacca.

Entre correrias, duelos de esgrimas de arrancar nosso pâncreas de tamanho frenesi e atuações cheias de vigor, essa luta entre a Primeira Ordem e os rebeldes liderados pela ex-Princesa, hoje General, Leia (Fisher, num momento luminoso, dois anos antes de sua “passagem”) rende na telona um show pirotécnico e uma discussão sobre conciliações e sinas, tratada com um tônus trágico à la grega. Tudo isso só faz dar a Abrams o tamanho de gigante na sci-fi e na aventura, no rastro do que cinemanovistas como Lucas e Spielberg fizeram lá nos seventies. O momento é outro, ok. Mas a carência de heróis é a mesma. E Rey, Finn e Poe ajudam a vencer nossas demandas, ao mesmo tempo em Han Solo e Chewie matam as nossas saudades do escapismo intergaláctico.

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