Versão brasileira, teu nome é Orlando Drummond

Versão brasileira, teu nome é Orlando Drummond

Rodrigo Fonseca

28 de julho de 2021 | 09h42

Em 2012, Orlando Drummond (1919-2021) ganhou um prêmio especial no Oscar da Dublagem Brasileira pelo conjunto da sua carreira

Rodrigo Fonseca
Há três grandes dublagens mundialmente reconhecidas como as melhores do planisfério cinéfilo: a medalha de bronze fica com o Itália; a prata vai pro Japão, em sua cultura de animês; e o ouro é do Brasil. Desde que a diretora Carla Civelli (1921-1977), realizadora de “Um Caso de Polícia” (1969), implementou a arte nobre da dobragem entre nós, trazendo da Itália um know-how técnico e estético ligado à sobreposição de vozes, o audiovisual brasileiro passou a apostar em talentos vocais egressos de impérios radiofônicos (tipo a Rádio Nacional) e de grandes teatros. A exigência que se estabeleceu ao longo das décadas de 1960 e 70, em São Paulo e, sobretudo, no RJ, com a Herbert Richers, fez com que a dublagem nacional desse trabalho a atrizes e atores de um talento dramático singular, como Ilka Pinheiro, Marthus Mathias, Helena Samara, Nelson Batista, Nícia Soares, Garcia Neto, Sandra Campos, Magalhães Graça, Ida Gomes, André Filho, Selma Lopes, Paulo Flores, Maria Helena Pader e… Orlando Drummond. Ontem, no dia 27 de julho, ele serenou, aos 101 anos. Há 51 anos, Drummond, já cinquentão, entrou nos sets da comédia “Bonga, o Vagabundo”, ao lado de Renato Aragão, para encarnar um garçom borracho que garantia uma dose inusitada de gags a um dos filmes mais cultuados do Chaplin brasileiro. Foi um dos principais feitos desse centenário ator, mito supremo do ofício de dublar, que teve sua trajetória de glórias recentemente investigada na deliciosa biografia “Versão Brasileira”. Vitor Gagliardo é o autor do livro, de texto saboroso, que a Gryphus acaba de lançar, revendo todo o histórico de personagens memoráveis do eterno Seu Peru. Sua voz foi emprestada ao Popeye, ao Alf e ao Scooby-Doo ao longo de uma longeva incursão por estúdios do Rio, tendo seu apogeu profissional (de qualidade) ao dublar Gene Hackman em “Operação França” (1971), na Peri Filmes. Em 2012, ele ganhou um prêmio honorário na festa do Oscar da Dublagem por seu desempenho. Se o Brasil tivesse uma voz dublada, esta seria de Orlando. Sua morte deixa nossos tímpanos órfãos, e aumenta a obrigação de valorizarmos os gigantes que ficaram, como Mário Jorge, Carmen Sheila, Élcio Romar, Mônica Rossi, Alexandre Moreno, Miriam Ficher, Armando Tiraboschi, Andrea Murucci, Wendell Bezerra, Fernanda Baronne, Jorge Lucas, Sheila Dorfman, Carlos Campanille, Cecília Lemes, Guilherme Briggs e outros titãs.

p.s.: Inspirada em histórias reais de denúncia a abusos contra mulheres, a peça teatral inglesa “Cascavel” ganha sua primeira montagem brasileira, com direção de Sérgio Ferrara. A temporada virtual começa, nesta quinta-feira, às 19h30, com ingressos pelo Sympla. Na estreia, haverá uma roda de conversa com as atrizes do espetáculo, Carol Cezar e Fernanda Heras, e, como convidada, a Dra. Gabriela Manssur, promotora de Justiça do Estado de São Paulo e presidente do Instituto Justiça de Saia. Será, às 20h30, no Instagram @cascavelapeca.

p.s.2: Em sua reta final, o Festival do Rio 2021, que segue em exibição até sábado, online, na URL www.telecine.com.br, exibe “Falling”, de Viggo Mortensen, nesta quarta. O título aqui é “Ainda Há Tempo”. Nele, o eterno Aragorn de “O Senhor dos Anéis” assina a direção, narrando a saga de um piloto de avião (o próprio Viggo) para domar a fúria do pai octogenário, um rancheiro homofóbico, vivido pelo brilhante Lance Henriksen. Depois de três indicações ao Oscar, por seu modo febril de interpretar – obtidas com “Senhores do Crime”, de 2007; “Capitão Fantástico”, de 2016; e “Green Book: O Guia”, de 2018 –, Viggo emprega suas vivências num drama que passa pelas trincheiras do ódio para se se firmar como um estudo sobre a arte de saber envelhecer.

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