Versão brasileira: Rodrigo Lomabrdi

Versão brasileira: Rodrigo Lomabrdi

Rodrigo Fonseca

20 de março de 2016 | 23h33

“Zootopia” já arrecadou US$ 591 milhões, à força do carisma de heróis como Nick Wilde, dublado por Rodrigo Lomabrdi num trabalho vocal irretocável

Coroado como blockbuster à força de uma arrecadação global de US$ 591 milhões, a animação Zootopia: Essa Cidade é o Bicho devolve ao filão aventura uma temperatura que desde a década de 1980, em filmes como Dragnet – Desafiando o Perigo, andava perdida. E parte de seu brilho vem da tridimensionalidade de seus protagonistas, em especial a raposa Nick Wilde, que, no Brasil, em suas cópias dubladas, ajuda, sessão a sessão, a propagar os múltiplos talentos de Rodrigo Lombardi, um ator no apogeu de seu amadurecimento cênico. Se em 2015, ele colocou a TV no bolso com Verdades Secretas, em 2016, o ator teve, até aqui, variadas frentes para transcender a imagem de galã e se firmar mais por suas ferramentas de interpretação em papéis imunes ao maniqueísmo. No pouco visto Amor em Sampa, de Kim e Carlos Alberto Riccelli, ele dá uma de Federic Forrest neste O Fundo do Coração paulistano, entre o musical e o melodrama. No longa animado da Disney, ele delineia toda a malandragem e malícia de seu felpudo personagem, valorizando as fragilidades de um contraventor em vias de conversão para o Bem. Seu Wilde preserva a sobriedade e a elegância da voz original, feita por Jason Bateman, mas tempera a dublagem com uma retidão que elevam o coeficiente heróico de um animal excluído pelos demais bichos.

O ator como Ernesto Rosa em

O ator como Ernesto Rosa em “Velho Chico”

Mas o grande momento de Lombardi hoje é seu desempenho como Ernesto Rosa em Velho Chico, a nova novela das 21h da Rede Globo que serve como um colírio para nossos olhos noite a noite, com o rigor dos enquadramentos e o requinte da direção de arte. São méritos inerentes à qualquer produção de TV assinada por Luiz Fernando Carvalho. Porém, há mais do que esmero plástico no folhetim da grife Benedito Ruy Barbosa. Vemos na tela uma representação de uma espécie de Estado de Exceção ao Coronelismo do Nordeste, encarnado na figura de homens que operam como força de resistência à exploração abusiva da mão de obra rural. Construído com um tom épico pelo astro, com gestuais secos, palavras contadas e mascadas cuspidas de seu rosto suarento, Rosa opera na trama essa instância de negação do abuso dos coronéis, em especial o coronel Jacinto (Tarcísio Meira) e seu filho Afrânio (Rodrigo Santoro).

O Estado de Exceção de um homem só

O Estado de Exceção de um homem só no Nordeste em mutação de Benedito Ruy Barbosa

Na primeira semana da novela, a chegada do retirante Belmiro (Chico Diaz) amplia a dimensão marxista da figura de Rosa, ao garantir a ele o apoio (armado) do povo, na figura de um aliado popular de fidelidade canina. A afinação entre Diaz (numa atuação esplendorosa) e Lombardi tonifica a discussão sobre luta de classes inerente à obra de Benedito, traduzida com o barroco característico de Luiz Fernando. Rosa é exemplo de um heroísmo de protesto típico dos anos 1960, dos tempos de ditadura, repaginado para os novos tempos a fim de nos mostrar incongruências sociais que permanecem imutáveis em nosso país. E só um ator no ápice da vontade de surpreender – caso de Lombardi – pode dar este troco à nossa apoplexia política.        

 * Fotos de divulgação da novela são de Caiúa Franco

p.s.: Enfim vai estrear o primeiro longa-metragem de Alceu Valença como diretor: A Luneta do Tempo estreia nesta Semana Santa, tendo Irandhir Santos como Lampião. A direção de arte do longa-metragem tem passagens exuberantes em sua recriação do Cangaço, que evocam, em sua atmosfera circense, O Abismo de um Sonho, de Fellini.

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