Versão brasileira: ‘Juventude’, a joia do Telecine

Versão brasileira: ‘Juventude’, a joia do Telecine

Rodrigo Fonseca

15 Março 2017 | 15h57

Produção de €12,3 milhões,

Produção de €12,3 milhões, “Juventude” ganha a TV com dublagem impecável

RODRIGO FONSECA
Um dos filmes mais subestimados dos últimos anos, dono de um vigor estético ímpar no visual e nas encenações, Juventude (Youth), do italiano Paolo Sorrentino, ganhou lugar de honra na TV brasileira, em exibição na Rede Telecine: tem transmissão dele nesta sexta, 12h, no Telecine Cult. E o melhor da exibição televisiva desta pérola é a qualidade de versão dublada, na qual se destaca o desempenho do veterano Pádua Moreira emprestando a voz ao mítico Michael Caine. O trabalho de Pádua é um dos mais surpreendentes exercícios de dublagem feitos no país nos últimos anos, sendo bem coadjuvando pelo exercício vocal da lenda Julio Chaves na boca de Havey Keitel. Esta produção de €12,3 milhões teve um faturamento de cerca de US$ 24 milhões nas bilheterias.

Sorrentino Youth Tucumán 13 treze

De uma doçura felliniana ao contextualizar as vicissitudes da “melhor idade” sob a ótica do companheirismo, Juventude é um espetáculo de leveza, que arranca da tela grande, a partir da fotografia de Luca Bigazzi, toda a potencialidade física (e até metafísica) oferecida por aquele retângulo no qual sonhos se traduzem em imagens. O cansaço orgânico e mesmo afetivo dos personagens se desenha nos planos do cineasta Paolo Sorrentino (do seminal Il Divo) numa medida oposta, ou seja: com vigor jovial. Se seu monumental A Grande Beleza (2013) era o cinema da descrença e da ressaca, aqui Sorrentino nos entrega o cinema do encanto e da conciliação, mostrando que Caine pode ultrapassar as fronteiras do sublime quando está afim de atuar com o melhor de si.

Discussão sobre anemias emocionais e ideológicas expressa numa produção de 12,5 milhões de euros, Juventude põe Caine na pele do maestro Fred Ballinger e Harvey Keitel no papel do cineasta Mick Boyle. Fred não quer mais reger mais concerto algum. Mick, pelo contrário, ensaia a preparação de um filme sobre rugas emotivas. Os dois estão na casa dos 80 anos, curtindo as memórias e os impasses da idade em um hotel nos Alpes Suíços, enquadrado pela câmera de Sorrentino como uma espécie de paraíso. Ali, os dois terão a chance de rever o que sobrou: de tempo, de tesão, de fome de viver, de disposição para sonhar. Indicada ao Globo de Ouro pelo filme, Jane Fonda entra e sai e rapidinho de cena, no papel de Brenda Morel, uma estrela decadente que tem ataques de afetação.

Jane Fonda é dublada por Marlene Costa

Jane Fonda é dublada por Marlene Costa

Brenda quer abandonar o cinema para fazer TV, alegando que um papel na televisão pode lhe “custear uma casa em Miami”. Neste momento no qual o cinema (aquele com “C” maiúsculo) briga pela defesa da excelência da imagem em tela grande, clamando por uma conciliação com outras plataformas de exibição alimentadas por House of Cards e Game of Thrones, a discussão trazida por Juventude sintetiza um brado sobre o esplendor que só a dimensão agigantada do cinema consegue refletir. De quebra, num flerte com a tradição italiana de diretores como Luchino Visconti e Valerio Zurlini, Sorrentino usa a mulher como um signo de todas as revoluções e todas as essencialidades, sem medo da nudez e sem medo da sensualidade. É um filme que aquece o peito.