Versão brasileira: Isaac Bardavid

Versão brasileira: Isaac Bardavid

Rodrigo Fonseca

01 de fevereiro de 2022 | 21h10

Voz oficial de Wolverine no Brasil desde 1994, Isaac Bardavid fez História na dublagem

Rodrigo Fonseca
Às vésperas de “Logan” ser exibido no encerramento da Berlinale 2017, eu liguei para Isaac Bardavid, que acaba de serenar, para entender o desafio de dar voz a um personagem tão icônico quanto o Wolverine. Um desafio que ele encarou a partir de 1994, quando estreou o desenho animado dos “X-Men” na TV Globo, até aqueles dias, que antecederam a estreia do último filme do herói em sua encarnação com Hugh Jackman. A resposta dele não passava por aspectos técnicos. Lorde que era, Bardavid enveredou pela dramaturgia e contou um detalhe: “Impressionou-me um momento em que aquele homem, o Wolverine, olha para uma menina diante dele, paternalmente, e diz ‘então isso é que ter uma filha?’ com uma dor de alma, com uma grandeza”. O que as artes sentem nesta terça-feira, diante da morte de Isaac, é uma dor de alma. Foi-se um gigante. Bardavid era grande como os heróis e vilões a quem deu sua voz roufenha e toda a sabedoria de quem dedicou anos aos palcos. Suas composições não se limitavam ao encaixe do bate-boca exigido pelo sincronismo. Sua atuação era de quem refletia o que existe na medula da palavra a ser dublada. Ele pensava a essência de um texto. Com ele, a Etérnia do Esqueleto falava Português, e numa dicção perfeita.

Bardavid foi um esgrimista da arte dobrar, assim como foram Mario Monjardim, Julio Chaves, Dario de Castro, Iara Riça, Ana Lúcia Menezes, Leonardo José, Orlando Drummond e tantas outras e tantos outros que perdemos pelo caminho entre 2020 e 2021. Com essa turma, cada um em sua geração, cada qual em seu loop, fomos alfabetizados. Desde que a TV brasileira estetizou a proficiência artística da dobragem como parte essencial de nossa fruição estética do audiovisual, a partir dos anos 1950, os dubladores alfabetizam nosso país. Foi com o genial Nilton Valério que ouvi uma mesóclise pela primeira vez, antes de figuras política tornarem chacota esse arranjo entre verbos e pronomes. Devemos a eles palavras, expressões e emoções que mudaram nossas vidas. O que é um absurdo é precisarmos de uma morte para falarmos de uma arte tão nobre. Mais absurdo ainda é essa arte estar sendo vilipendiada, dia a dia, por um crime patrimonial chamado REDUBLAGEM, em que vozes clássicas estão sendo substituídas, como fizeram com Seu Magalhães Graças em “Karate Kid” e com muitos geniais trabalhos de Mario Jorge como John Travolta. Imagine se alguém resolvesse reescrever os capítulos de “Dom Casmurro” ou apagar as gravações originais de Mario Reis e substituí-la por um hitmaker do momento. Temos a melhor dublagem do mundo. Mas precisamos ser dignos dela. Precisamos estar à altura da memória de Isaac Bardavid e sua nobreza.

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