Versão brasileira de Democracia: ‘Bacurau’

Versão brasileira de Democracia: ‘Bacurau’

Rodrigo Fonseca

28 de maio de 2019 | 16h54

Rodrigo Fonseca

Pra conferir a versão dublada de “John Wick 3 – Parabellum”, que é um desbunde puro da narrativa “motovisual”, nos moldes de Buster Keaton, escolhi o Kinoplex do Nova América, shopping bem popular em Del Castilho, cá no subúrbio do RJ. A um passo do filme começar para uma sala abarrotada, com muito adolescente, numa sessão de 20h50, pintou na tela o trailer de “Bacurau”. Diante do clima de tensão e do cheiro de adrenalina das imagens do Nordeste, o público daquela sala de uma Zona Norte um tanto mais empobrecida do Rio, do ladinho de Bonsucesso, foi ao delírio. Uma dupla de alunos da Rede Pública de Ensino Médio do meu lado falava: “Que trailer f… esse. E é filme brasileiro! Parece ‘Walking Dead’, e sem zumbi”. Um grupitcho pitboy acima, serelepe que só, falava: “Esse título é bom. ‘Bacurau’. Vende fácil. Gruda no ouvido. Nome de ônibus”. Uma moça na radial direita, que passou o trailer do novo “MIB” todo no celular, desligou e disse para a amiga: “Pô, promete. Tenso”.

Um thriller como “Bacurau” no espaço de um bairro que ficou acomodado só à Hollywood dublada pode se converter em um sucesso popular à altura da aula de democracia que ele nos dá. Que ele seja lançado ali, e em Madureira, e no Norte Shopping, e em Campo Grande e no mundo. Só pra situar: em 2002, foi lá, naquela sala, que eu vi “Madame Satã”. É multiplex de raiz, mas sempre ousou. Foi lá ainda que conferi “Corrente do Mal”, o sombrio “It follows”, em 2015. Foi lá que, em 1996, eu vi o esquecido “Sgt. Bilko”, com Steve Martin no auge da picardia. É um espaço que briga com a pressão de blockbusters. Mas a reação muito passional da plateia às imagens de “Bacurau” ratificam o quanto seu reclame publicitário é atraente e o quanto ele tem poder pra dialogar com públicos não USPianos, com uma periferia que é cevada só a versão brasileira.

Filmaço esse, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, ganhador do Prêmio do Júri do maior festival de cinema autoral da Terra, Cannes. E tem Sonia Braga… Do povo vieste, ao povo voltará.

p.s.: Reynaldo Buzzoni dubla Keanu Reeves com lirismo em “John Wick”, que usa bem o charme de Ian McShane.

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