Versão brasileira: ‘Bacurau’

Versão brasileira: ‘Bacurau’

Rodrigo Fonseca

19 de agosto de 2019 | 11h35

Udo Kier, cultuado ator alemão que aqui contracena com Sonia Braga, ganha a voz de Mauro Ramos na versão dublada de “Bacurau”

Rodrigo Fonseca
Laureado no fim de semana, no Festival de Lima, com três troféus (de Melhor Filme, de Melhor Direção e o Prêmio da Crítica Internacional), “BACURAU”, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, teve sessões abarrotadas em sua pré-estreia aberta ao público, no sábado, em pontos variados do país, ao mesmo tempo em que inaugurava a maratona cinematográfica de Gramado, na Serra Gaúcha. Como parte essencial de seu cast é estrangeira, o longa-metragem vai estrear no Brasil, no dia 29, com cópias dubladas.

Eis a lista de dubladores, com seus respectivos personagens: MICHAEL > Mauro Ramos; CHRIS > Thiago Zambrano; JAKE > Leo Camilo; JOSHUA  > Marcio Araújo; JULIA > Carol Valença; TERRY > Rodrigo Araujo.

Vale lembrar que Mauro Ramos, um artesão da arte de dublar, foi a voz de Shrek no Brasil, após a morte de Bussunda, e imortalizou seu gogó nos acordes do Pumba, em “O Rei Leão” de 1994. Estamos diante de uma das vozes de maior potência dramática da dublagem nacional. É ele quem dubla o esfíngico Udo Kier, astro alemão que desfilou estilo em cults de Fassbinder e de Gus Van Sant.

Há uma importância estratégica na chegada de “Bacurau” ao circuito, no atual momento de fragilidade de nossa pátria na seara do audiovisual. Três anos depois de conquistar a Palma de Ouro dos documentários, o troféu L’Oeil d’Or, com “Cinema Novo”, o Brasil saiu de Cannes em 2019 com uma honraria que consagra sua luta política. Ao gritar “Um beijo para todo mundo no Recife” no Palais des Festivals de Cannes, com o Prêmio do Júri nas mãos, Kleber Mendonça Filho, consagrado mundialmente com “Aquarius” (2016), estava fazendo mais do que afago em sua terra natal, em meio à consagração na disputa oficial da mais prestigiada seleção competitiva do mundo. Seu gesto de carinho é um indicativo de sua curiosidade acerca da carreira nacional de “Bacurau”. Ao lado dele, no palco da Croisette, o também pernambucano Juliano Dornelles fez algo parecido em seu discurso: chamou a atenção da imprensa mundial acerca da crise que se instaura no Brasil em meio ao clima de caça às bruxas que cerca quem vive de cultura ou de educação no país. Ao serem contemplados com o terceiro prêmio mais importante do evento francês – a Palma ficou com o sul-coreano Bong Joon Ho, por “Parasite”, e o Grand Prix com a francesa de origem senegalesa Mati Diop, por “Atlantique” -, os dois diretores demonstraram estar com a cabeça na realidade brasileira. A vitória deles veio na decisão do time de jurados presidido pelo cineasta mexicano Alejandro González Iñárritu (de “Birdman”) em criar empate entre dois longas que traduzem o desajuste social de seus países num ambiente de barbárie: “Les Miserábles”, de Ladj Ly, foi o escolhido para dividir a o prêmio com Dornelles e Kleber. No thriller dirigido por esse francês de origem maliana, três policiais enfrentam uma rebelião dos moradores de um subúrbio majoritariamente negro de Paris em retaliação a uma agressão contra um menino daquela periferia. O povo se levanta contra uma instituição de controle. O feérico “Bacurau” mostra uma situação parecida: os habitantes da cidadezinha sertaneja que dá título ao longa se insurgem contra um célula de assassinos estrangeiros, chefiados por um alemão (papel de Udo Kier), que coordena uma caça a pessoas pobres. Sonia Braga integra o elenco no papel de uma médica com surtos de fúria, sempre que exagera no álcool. A fotografia carrega a assinatura de Pedro Sotero.

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