Verônica, a heroína do desterro

Verônica, a heroína do desterro

Rodrigo Fonseca

05 de outubro de 2020 | 14h13

Tainá Müller demonstra um tônus trágico devastador como a Verônica do universo de Ilana Casoy e Raphael Montes

Rodrigo Fonseca
Conan Doyle deste mundo conectado onde todo “Oi!” pode gerar um “te odeio!” dado o véu de intolerância ao nosso redor, Raphael Montes alicerçou seu nome no cimento da Literatura Policial nela prospectando o mineral da perversão nas práticas do sexo e nas práticas da morte. E é uma prospecção que esculpe heróis kamikazes de um modo como há muito a arte não via: só o cinemão noir sul-coreano ainda aposta nesse arquétipo, vide o genial “Tempo de Caça” (2020), de Yoon Sung-hyun. Eros e Tânatos se beijam a cada parágrafo do autor de “Suicidas” (2012) e “Dias Perfeitos” (2014), fazendo com que seus protagonistas sempre patinem sobre o gelo fino da derrota anunciada. É o que se encontra na figura da escrivã do departamento de Homicídios da Polícia Civil brilhantemente composta por Tainá Müller na versão pra Netflix, serializada em oito tensos episódios, do romance “Bom dia, Verônica”. Romance escrito por ele em parceria com Ilana Casoy (criminóloga de notável domínio da prosa). Valquíria expulsa do Valhalla do cientificismo, Verônica dá ao seriado dirigido por Izabel Jaguaribe, Rog de Souza e José Henrique Fonseca uma dimensão trágica que incendeia a obra de Raphael por um todo. Nela vemos o emblema do sacrifício que guia o heroísmo desde o apogeu do Império Grego, com sua moira de desapegos, só que aplicado a uma Tebas onde a corrupção é o Hades. Numa esgrima de roteiro primorosa, Ilana e Raphael conseguem conjugar uma trama à la “Seven” (1995), sobre um feminicida militar (Eduardo Moscovis em sua mais sólida atuação desde “O Outro Lado do Paraíso”, de 2014), com uma reflexão sobre o adoecimento da Lei no Brasil. Camila Morgado, a um só tempo cúmplice (forçada) e vítima do Norman Bates Moscovis, faz uma síntese (precisa) de várias formas de abuso. Seu olhar é um amálgama para várias práticas de violência doméstica e sexual, num trabalho de aparente simplicidade, no qual a atriz transcende a uma instância de angústia capaz de crescer de episódio em episódio. É uma angústia que torna a produção uma urgente peça de debate sobre a institucionalização do Mal. Um Mal contra o qual só se luta com perdas gradativas, o que vai dando à Verônica de Tainá uma dimensão nietzschiana: ela é o carvão do dever que se endurece até virar o diamante do resistir no crespúsculo dos ídolos da empatia. Essa escavação de sentidos vem embalada numa direção de arte primorosa e reforça os dotes para cronista da agressão que Fonseca demonstrou ter, lá atrás, em 2003, em seu memorável “O Homem do Ano”, decalcado de Patrícia Melo. Que a chegada de Montes aos cinema com o díptico “A Menina Que Matou os Pais” e “O Menino Que Matou Meus Pais”, talvez ainda este ano, tenha igual vigor. A lembrar: Tainá apareceu no filme “Cão Sem Dono” (2007), pérola intimista de Beto Brant que já revelava seu vigor para extrair inquietude de onde tudo parece harmônico.

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