‘Vermelho Russo’ tinge as telas de tensão e humor

‘Vermelho Russo’ tinge as telas de tensão e humor

Rodrigo Fonseca

24 Abril 2017 | 13h50

Química plena entre Martha Nowill e Maria Manoella abre a seleta de ficções da competição nacional do Festival do Rio 2016: 'Vermelho Russo

Química plena entre Martha Nowill e Maria Manoella eleva a fervura de ‘Vermelho Russo”, de Charly Braun, à máxima potência

RODRIGO FONSECA

Ciranda de um monte de coisa (boa) junta (metalinguagem, memória, turismo, boas atrizes, elementos documentais, teatro e Michel Melamed), Vermelho Russo levou o troféu Redentor de melhor roteiro no Festival do Rio 2016, lá em outubro, por mesclar todos esses elementos a partir da bússola do inusitado. Com estreia em circuito enfim marcada – será nesta quinta, 27 de abril – após angariar elogios em mostras, esta doce produção é conduzida pelo ator e diretor Charly Braun no diapasão da diversão. Com descontração plena, a narrativa construída por Braun é capaz de extrair risos múltiplas vezes, pela covalência de naturalidades (e talentos) entre suas protagonistas Martha Nowill (uma força da natureza) e Maria Manoella (em tom descontraído contagiante). Imagine este novo filme do diretor de Além da Estrada (2010) como uma mistura de Encontros e Desencontros (2003) com Tio Vanya em Nova York (1994), de Louis Malle (1932-1995)… só que na Rússia.

Conhecido pela natureza vetorial de deslocamento e desterro de seus trabalhos como cineasta, Braun usa seu cabedal como intérprete para exercitar, em Vermelho Russo, uma espécie de progressão aritmética de construção de afetos e de consolidação de personagens, mediado pelas artes cênicas e por uma narrativa que beira franjas documentais sem nunca abrir mão de seu potencial cômico na ficção. Nos acordes dessa balalaika, protagonistas e coadjuvantes preservam seus nomes reais, o que sugere um exercício metalinguístico, baseado em processos de criação e vivências pessoais de suas atrizes. Na trama, Manoella viaja para terras russas, para fazer um curso de atuação sob a metodologia de Stanislavski, e leva Martha consigo, mesmo sem pedir (ou sem querer), como companhia, como colega e como bagagem.

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Lá fora, numa terra estrangeira, de língua estranha aos nossos ouvidos e aos nossos vocábulos, as paciências e as vocações de ambas serão testadas por uma série de provações, inclusive da ordem do desejo, com a passagem de um furacão melamédico – Michel vive (bem) um ator que vai triangular com os beijos das duas. Esses testes se desenham diante de nós num paralelo com o trânsito das duas por paisagens que nos remetem a um passado do Cinema, da Poesia e de uma nação desmanchada no ar da política (a URSS, em vestígios da História, na arquitetura). Mais do que isso, a dinâmica de Martha e Manoella, seja em aula, seja nas ruas, seja em brigas no quarto, constrói conosco um laço de cumplicidade, na investigação de ambientes filtrados pelas lentes do encanto (nunca do exotismo) e no esgarçamento da tolerância. O resultado é um dispositivo vívido, que faz avançar a fricção de Braun em sua busca (autoral) por criar uma poética da andança, apoiado na fotografia em constante mutação de Alexandre Samori. Destacam-se as cenas de D.R. entre Manoella e seu namorado, interpretado por Fernando Alves Pinto.

Cotação: Ótimo