‘Vazante’ escorre suas polêmicas pelas telas dos EUA

‘Vazante’ escorre suas polêmicas pelas telas dos EUA

Rodrigo Fonseca

11 Janeiro 2018 | 12h04

Rodrigo Fonseca
Filme-polêmica de 2017 no Brasil, por inflamar o debate da representação racial em nossas telas, Vazante estreia nos EUA nesta sexta-feira, com direito a debate com a cineasta Daniela Thomas no IFC Center (323 Sixth Ave at West 3rd St, Nova Iorque), para falar do léxico da escravidão, do desejo represado e da monocromia de seu preto e branco sufocante. Há um plano, neste primeiro longa-metragem de direção solo da parceira de Walter Salles em Linha de Passe (2008) e Terra Estrangeira (1995), no qual um fazendeiro português nos faz enxergar o controle (o poder senhorial) como um fardo trágico. Ele olha para o plantation à sua volta, fita a casa grande onde vive e percebe a massa negra que o serve, toda de cabeça baixa. Olha sem entender bem como e porque chegou àquele lugar. O tal patrício, António, é sujeito de posses: tem terras, hortas, gado, escravos. É a representação clássica da força feudal. Um suserano que teria tudo à mão para oprimir seus vassalos. No entanto, o esgotamento existencial de António, toda a sua exasperação moral e muito de sua respiração esbaforida demonstram sua incompatibilidade com aquela ordem. Temos diante de nós um homem nu, um homem desnudado de suas grandezas, um homem que sofre: mas, por ser das altas castas, seu sofrimento custa a ser digerido (e comungado). Na tradição cinéfila, passa-se com ele o mesmo que com o executivo vivido por Paulo Villaça em Mangue Bangue (1971): este larga tudo Bolsa de Valores e se enlameia para buscar uma reconexão com seu lado animal. A animalidade do português a quem Daniela radiografa não chega a se concretizar. Os quilos de convenções sociais sobre ele não permitem. E menos ainda permite a arquetificação que uma certa sociologia brasileira faz dos personagens de nossos filmes. Cobraram caro do filme, acusando-o de cometer white washing em nossa História, por abordar o jugo escravocrata apenas de soslaio. De fato, os escravos estão ali como satélites de uma dor estruturante que tem DNA no melodrama. Mas satélites também chamam atenção no espaço. E muita. Vazante não é um filme de catarses: é um filme de indignações. E reside aí (e em vários outros lugares estéticos) sua grandeza. Uma grandeza que lacrou para o longa elogios em sua passagem pela Berlinale, no fevereiro passado, e dois Candangos no Festival de Brasília: saiu de lá com os troféus de atriz coadjuvante (Jai Baptista) e direção de arte (para Valdy Lopes). Sua trama flana pela Casa Grande e dela narra as sequelas da união forçada entre uma adolescente, Beatriz (Luana Nastas), e um fazendeiro quarentão, o tal António (vivido pelo ator português Adriano Carvalho, cujo ferramental cênico vasto virou “o” assunto do Festival de Berlim). Casamentos podem ser convenções. O amor, não. Nem uma chibatada.

 

 

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