Varilux vai exibir ‘Um homem fiel’, de Louis Garrel, no Brasil

Varilux vai exibir ‘Um homem fiel’, de Louis Garrel, no Brasil

Rodrigo Fonseca

28 de maio de 2019 | 13h41

Rodrigo Fonseca
Mal se ouviu falar sobre Louis Garrel no Festival de Cannes, evento do qual é arroz de festa, em parte por ele está filmado “The story of my life”, com a húngara Ildikó Enyedi, ganhadora do Urso de Ouro de 2017 com “Corpo e alma”. Mas vai ter trabalho inédito dele em circuito nacional daqui a uma semana, na programação do Festival Varilux do Cinema Francês, que vai começar daqui a uma semana, indo de 8 a 19 de junho em cerca de 80 cidades brasileiras. Ele entra no menu com “Um homem fiel” (“L’homme fidèle), que estrelou e dirigiu, e pelo qual foi laureado com o prêmio de melhor roteiro no Festival de San Sebastián, na Espanha. Além do longa-metragem novo do astro, vai ter “Filhas do Sol”, de Eva Husson; o aclamado Graças a Deus, de François Ozon; e a animação“Astérix e o segredo da poção mágica”, de Louis Clichy e Alexandre Astier.

Seja muso, seja autor, Louis é grife de excelência, e integra a trupe do novo filme de Roman Polanski, “J’Accuse”, sobre um polêmico caso real de falsa acusação da França do séxulo XIX, de cunho antissemita, que resultou na prisão do oficial Alfred Dreyfus. Muitas vezes rotulado como galã, pela beleza com que magnetiza espectadoras/es desde sua aparição em “Os sonhadores” (2003), de Bernardo Bertolucci, o astro de 35 anos alcançou o máximo de seu prestígio como realizador com “L’homme fidèle”. O roteiro é assinado por ele e por um mito do cinema: Jean-Claude Carrière, parceiro de Buñuel em cults como “A bela da tarde” (1967).  “A França é uma terra marcada pela diversidade no cinema. E essa diversidade é alimentada por mestres, como Leos Carax, Olivier Assayas, André Téchiné, e Carrière, sempre generoso. Já havia consultado Carrière antes, em meu longa anterior, ‘Dois amigos’, e ouvi dele, com seu bom humor precioso, uma lição de sabedoria. Ele me disse: ‘Vou te ensinar um truque de roteiro pra te ajudar pela vida inteira. Sempre que você pensar que vai exagerar no mel numa cena entre um casal, coloque um terceiro personagem, sem muito relevo para a trama, como testemunha do que se passa. Faça essa pessoa reagir com desdém, ou mesmo com nojo, diante de todo o açúcar que você adicionar aos beijos de seu casal. O público vai rir´. Ouvi esse conselho e pus em prática. Deu certo. Carrière é um professor mesmo. Fazer cinema é a arte de saber ouvir”, disse Louis em recente entrevista ao P de Pop, enfatizando que sua alfabetização audiovisual se deve ao berço artístico onde nasceu: sua mãe é a atriz Brigitte Sy e seu pai, o cineasta Philippe Garrel.

Aclamado mundialmente por filmes como “Amantes constantes” (2005), Philippe escalou seu filho como ator diversas vezes e o estimulou a dirigir curtas-metragens antes de partir para projetos de alta voltagem dramática como “L’homme fidèle”. Neste romance, ele contracena com sua própria mulher, a atriz e modelo Laetitia Marie Laure Casta. Na trama, ele vive Abel, um jornalista que acredita ter uma vida de plenitude com sua namorada, Marianne (Laetitia), até o dia em que esta confessa estar grávida de outro. Mas não é outro qualquer: o pai é Paul, o melhor amigo de Abel. Para acentuar a carga de melodrama, Paul morre e Marienne quer voltar. Mas uma nova paixão se candidata ao coração de Abel, Eve, interpretada pela filha de Johnny Depp, Lily-Rose.

“Não sei muito explicar o que existe por trás das histórias que conto, mas conheço bem os sentimentos que existem por trás dela. O principal deles é a compreensão. Não julgo os erros, não julgo as ansiedades. Tudo isso faz parte da natureza humana. Essa foi uma das melhores lições que aprendi vendo meu pai filmando e construindo uma ótica pautada pela ética”, diz Garrel, que arrebatou os holofotes de San Sebastián.

Já escalado para o elenco de “Little women”, releitura do romance de Louisa May Alcott feita por Greta Gerwig (de “Lady Bird”), Garrel vê seu cacife internacional subir, sobretudo após o convite de Polanski. Há tempos, o ator fala de uma dica sobre como dirigir bem que recebeu do realizador de “O bebê de Rosemary” (1968):  “Um dia, eu vi na televisão uma entrevista do Polanski dando um conselho a jovens diretores. Ele dizia assim: ‘Pega a história que você deseja filmar e conte ela para alguém. Se você prender seus ouvintes do início ao fim, o filme vai dar certo. Mas, se em algum momento, seus interlocutores demonstrarem preguiça, seu projeto tem problemas. Preste atenção no local aonde seus ouvintes bocejaram ou se dispersaram, pois ali está seu ponto fraco’. Já tentei aplicar essa manha nos sets de meus filmes, mas não sei se me saí bem”, admitiu Garrel. “Sei que filmar é uma questão de instinto, de intuição, de respeito aos colegas”.

O Varilux vai celebrar os 30 anos do clássico “Cyrano de Bergerac” de Jean-Paul Rappeneau, com o consagrado Gérard Depardieu, baseado na comédia heroica de Edmond Rostand, de 1897.

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