Varilux online, nas cores da Gauguin

Varilux online, nas cores da Gauguin

Rodrigo Fonseca

28 de abril de 2020 | 08h11

Rodrigo Fonseca – #FiqueEmCasa
Iniciativa digna de Palma de Ouro na internet: o Festival Varilux, maior maratona francófona das Américas, vai disponibilizar 50 filmes de sua seleção dos últimos anos, gratuitamente, na plataforma Looke. Basta acessar o http://festivalvariluxemcasa.com.br/. Tem animação “”A Raposa Má” e “Astérix e o Domínio dos Deuses”), tem biopic (“Cyrano Mon Amour”), tem sci-fi de assombro (“O Último Suspiro”) e tem uma cereja de fino sabor: “Gaugin – Viagem ao Taiti”, de Edouard Deluc. Foi exibido no Varilux de 2018 e virou um hit do evento. E com razão.
Dos 50 títulos, corre para este monumental trabalho de Vincent Cassel. Diante do lastro imagético deixado por narrativas arejadas pela experimentação formal como “O Mistério de Picasso” (1956), de Henri-Georges Clouzot, “Van Gogh” (1991), de Maurice Pialat, e “Basquiat” (1996), de Julian Schnabel, a crítica costuma exigir das cinebiografias de artistas plásticos uma ousadia que espelhe o temperamento de seus personagens centrais. O instinto de ousar, inegavelmente, tira os filmes biográficos da modorra do simples registro, como se vê em “Camile Claudel 1915” (2013), de Bruno Dumont. Mas “experimentar” não é um verbo obrigatório no cinema, cuja linguagem mais clássica, domesticada, merece aplausos se bem utilizada, como se vê em “Gaugin – Viagem ao Taiti”, de Deluc. Sua câmera peca pela mansidão excessiva. Mas, no centro de cada plano, há um Cassel inflamado, devastador, o que compensa a falta de ambição visual de seu realizador. Coube a ele viver o pintor Paul Gauguin (1848-1903) no terço final de sua vida, na época de obras como o quadro “De onde viemos? O que somos? Para onde vamos?” e o busto “Tête tahitienne” Há, na maneira visceral como Cassel encarna Gauguin, uma degradação física nítida. Entediado com o impressionismo europeu, o pintor desencadeia um estilo figurativo marcado por telas carregadas de simbolismo, com traços que, em vez de descrever, apenas sugerem. As viagens ao Taiti e a mudança para as Ilhas Marquesas, na Polinésia Francesa, marcam sua carreira não apenas pela imersão no colorido das matas e do artesanato dos povos locais, mas pela liberdade. O ônus de ser livre é o debate central do roteiro filmado por Deluc.

Outra pedida obrigatória é “O Imperador de Paris” (“L’Empereur de Paris”), de Jean-François Richet. Concebido para ser a ofensiva francesa contra os blockbusters de Hollywood, esta superprodução do diretor de “Inimigo público nº1” (2008), baseada nos feitos do criminoso Eugène François Vidocq (1775-1857), fez jus a seu objetivo: graças ao carisma do já citado Cassel, o longa vendeu 730 mil ingressos em três semanas. Na trama, Vidocq tenta refazer sua vida como comerciante, mas é empurrado de volta ao submundo, mas, desta vez, para debelar os malfeitores. As cenas de ação rodadas por Richet são impressionantes.

p.s.: Já que o assunto é cinema francês, tem um ótimo exemplar da terra de Truffaut na TV Globo nesta terça: às 15h rola “As Férias do Pequeno Nicolau” (“Les vacances du petit Nicolas”, 2014), de Laurent Tirard, com Kad Merad no elenco.

p.s.2: Nesta quarta-feira, a Califórnia Filmes lança “Zombi Child”, de Bertrand Bonello, em plataformas digitais: estreia no iTunes, Google Play, YouTube, Vivo Play e NOW. Espécie de “Carrie, a estranha” misturado com .docs do Arte sobre macumba, o novo filme do realizador de “Nocturama” (2017) trança dois tempos (os anos 1960 e a atualidade) e dois espaços (o Haiti e a classe média francesa) a partir de um grupo de alunas adolescentes que montam uma sororidade de estudos literárias e têm contato com os mistérios ocultos de um ritual de zumbificação usado em trabalhos servis na América Central. Uma das estudantes pede a uma imigrante haitiana que exorcize seus males de amor por um namoradinho, o que deflagra um processo de assombro. A filmagem dos rituais de sincretismo afro ultrapassam os males da alteridade.

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