Varilux festeja os 90 anos de Godard

Varilux festeja os 90 anos de Godard

Rodrigo Fonseca

14 de novembro de 2020 | 16h44

Rodrigo Fonseca
Sintonizado com a celebração dos 90 anos de Jean-Luc Godard, cujo aniversário será festejado no dia 3 de dezembro, o Festival Varilux vai promover uma exibição de “Acossado” (“À Bout de Souffle”, 1960), sua obra inaugural nos longas-metragens, que completa seis décadas em 2020. Vai ter ainda na maratona “La bonne épouse”, de Martin Provost; “Mais Que Especiais”, de Eric Toledano e Olivier Nakache; “La fille au bracelet”, de Stéphane Demoustier; “Effacer l’historique”, de Gustave Kervern e Benoît Delépin; “Belle Epoque”, de Nicolas Bedos; “DNA”, de Maïwenn; “Une belle équipe”, de Mohamed Hamidi; “Gagarine”, de Fanny Liatard, Jérémy Trouilh; “Mon Cousin”, de Jan Kounen; “Antoinette dans les Cévennes”, de Caroline Vignal; “Notre Dame”, de Valérie Donzelli ; “Persona Non Grata”, de Roschdy Zem; “Slalom”, de Charlène Favier; “Tout simplement noir”, de Jean-Pascal Zadi e John Wax; “Été 85”, de François Ozon; “La fameuse invasion des ours en Sicile”, de Lorenzo Mattotti; e “Capital in the Twenty-First Century”, documentário de Justin Pemberton e Thomas Piketty.

“Acossado” rendeu a Godard o prêmio de melhor direção na Berlinale de 1960

Laureado com o Urso de Prata da Berlinale na catgeoria de melhor direção, “Acossado” assume como seu protagonista Michel Poiccard, um criminoso obcecado por Humphrey Bogart. Imortalizado por Jean-Paul Belmondo, ele rouba um carro, mata um policial e vai para Paris, onde conhece Patricia Franchini (Jean Seberg), uma americana que vende jornais na Champs-Élysées. Poiccard tenta persuadi-la a fugir com ele para a Itália, sem lhe contar que é um foragido da justiça. “Hoje, continuar trabalhando é algo que, no meu caso, depende apenas de minhas pernas deixarem e meus olhos ajudarem”, disse Godard em Cannes, em 2018. “Acredito ainda num cinema que surge como um comentários às imagens, mais ou menos como os irmãos Lumière documentaram a chegada do trem na estação, nos primeiros filmes feitos pela Humanidade: eles deslocaram um objeto de lugar. Isso é coisa parecida como o que Paul Cézanne fazia coma a luz e com a cor em seus quadros. A cor de Cézanne é violência… e é luz”.

JLG: “As pessoas andam me perguntando sobre 1968, mas o que eu posso dizer desse assunto é que faço parte de um tempo no qual não se aprendia cinema em escolas, mas sim vendo filmes… às vezes os filmes mais obscuros… e tentando extrair sentido deles, isolando cada imagem”

Em outubro de 2019, a mítica revista “Cahiers du Cinéma” dedicou sua capa ao diretor suíço (nascido em Paris, em 1930) de carona na chegada de seu “Imagem e palavra” a um pequeno circuito francês e ao menu da Netflix. “Le livre d’image” – com cenas do clássico “Johnny Guitar” (1954), de Nicholas Ray, em seu explosivo miolo semiótico – conquistou uma Palma de Ouro Especial no Festival de Cannes de 2018. No dia 18 de setembro do ano passado, os críticos Stéphane Delorme Joachim Lepastier bateram um longo papo com o octogenário filósofo da cinemática. A dupla arranca dele reflexões sobre realizadores que merecem uma revisão (como Frank Borzage, de “Depois do casamento” e “Homens de Amanhã”) e sobre atrizes capazes de desafiar paradigmas dos códigos de naturalismo (como Adèle Haenel). E fala muito, durante a conversa, sobre dogmas da produção digital. Há um ano e meio, em Cannes, o homem por trás de “O desprezo” (1963) concedeu uma coletiva de imprensa virtual via Facetime. Ele recusou-se a sair do pequeno escritório onde trabalha, na Suiça, e conversou com a imprensa por Skype, abrindo reflexões sobre o onipresente imperialismo do cinema americano. Enfim, é o que ele sempre fez, desde “Acossado”.

“À bout de souffle”

“As filmagens de ‘Imagem e palavra’ não foram ação, foram arquivos: preciso do passado para falar do futuro. Falam por ai que o cinema acabou, mas teve um produtor que quis me bancar e há um festival como Cannes interessado em me exibir. Talvez a presença deste filme aqui seja apenas ação publicitaria, pois eu não sei se tem lugar para ele, e para mim, nas salas de exibição. Mas, na minha idade, o que me interessa é falar do que eu observo nos processos sociais: palavras não são um sinônimo de linguagem, pois linguagem é um conjunto de procedimentos de como empregamos signos. O problema é que as pessoas articulam esses signos sem a coragem de fantasiar o que aconteceria se as convenções fossem usadas de outra maneira. Eu faço filmes porque ainda tenho coragem”, disse o mais emblemático e polêmico representante do revolucionário movimento chamado Nouvelle Vague.

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