Vanja Orico, 90: nas rendas da saudade

Vanja Orico, 90: nas rendas da saudade

Rodrigo Fonseca

14 de novembro de 2019 | 18h32

RODRIGO FONSECA
Catapultada para as telas do mundo após o fenômeno de “O Cangaceiro”, nordestern cujo público Brasil afora arranhou a marca de 20 milhões de pagantes, Vanja Orico (1929-2015) faria 90 anos neste 15 de novembro, quando uma produção documental sobre seus feitos está em gestação. Conhecida como A Musa do Cangaço, por sua presença em filmes dignos de reverência como “Lampião” (1964), de Carlos Coimbra, a atriz, cantora e diretora terá sua vida passada em revista por seu filho, o cineasta Adolfo Rosenthal, do belo “O milagre dos pássaros” (2012). É ele quem prepara “Vanja Orico, ao arrepio do tempo”, previsto para 2020, com causos de sua mãe em sets de Fellini e em parcerias com grandes nomes da música.

Que imagens raras podemos esperar do docudrama?
Adolfo Rosenthal:
Muitas imagens e causos. Fica difícil até de enumerar. Eu destacaria uma cena inédita que não entrou no filme de Fellini, “Mulheres e Luzes”. A cena, encontrada por acaso no acervo da Vanja, num rolo de filme em 35mm, bem preservado, revelou ela tocando violão nas ruas de Roma. Vanja protagonizou o filme “Yalis, a flor selvagem”, uma coprodução com a Itália de 1955. O filme estava tido como perdido, mas nossa pesquisa encontrou uma cópia em DVD, pertencente a um colecionador Italiano. Além das cenas de Vanja, lindíssimas, o filme tem registros preciosos de uma tribo indígena do Araguaia. Outro filme da mesma época, “Paixão das selvas”, em coprodução com a Alemanha, também estava perdido. Quando já havíamos desistido da busca, encontrou-se uma única cópia no Instituto Murnau, na Alemanha. O filme ainda será digitalizado. No Brasil, Vanja protagonizou o filme “Os mendigos” de 1963, considerada a primeira comédia do Cinema Novo. O filme estava perdido e, finalmente, localizou-se a única cópia em 16 mm na cinemateca do MAM. Maravilhoso papel de Vanja. Localizamos também programas de TV que Vanja gravou na França e Itália no fim dos anos 50 e início dos 60. São imagens inéditas no Brasil, onde Vanja aparece lindíssima, cantando em várias línguas, dançando e sendo entrevistada. No imenso acervo que ela deixou, encontramos filmes caseiros em 8 e 16 mm, rodados pelo meu pai, André Rosenthal. As imagens documentam a vida do casal no final dos anos 50 e início dos anos 60 na Itália, França e Brasil, inclusive com uma cena de Vanja, como veio ao mundo, na costa Italiana. Milhares de fotos e matérias de jornais documentam a carreira e vida pessoal de Vanja no Brasil e em vários países do mundo, incluindo ex-URSS, Norte da África e Américas. Há gravações com entrevistas e canções inéditas de Vanja, registradas em discos (não em rolos magnéticos), de programas de rádio dos anos 50.
Que causos sobre Vanja Orico você pretende esmiuçar no filme?
Adolfo Rosenthal:
Causos? Vanja escreveu suas memórias nos últimos anos de vida. São textos inéditos, numa escrita e narrativa surpreendente. Dentre as dezenas de causos, ela conta sobre a família do seu pai Osvaldo Orico, que mantinha uma jiboia na casa em Belém do Pará, onde moravam. Adolescente, ela foi morar na Espanha Franquista, apaixonou-se por um dançarino Flamenco Cigano que acabou sendo preso pela ditadura e nunca mais apareceu. Durante as filmagens do Cangaceiro, Vanja foi ameaçada por uma outra atriz caso viesse a cantar as músicas do filme. Estando no seu direito, Vanja não hesitou, saiu no tapa com ela e ganhou a parada no “muque”, como dizia. O resto, só no filme mesmo.

Que peso “O Cangaceiro” teve nas memórias afetivas dela?
Adolfo Rosenthal:
Não é possível ter a dimensão do impacto que o filme teve somente lendo as matérias da época. Vanja foi a única representante da produção no festival de Cannes. Enquanto o filme passava na telona, o público da Croisette aplaudia as cenas com aquelas figuras enigmáticas e seus chapéus de couro. E aplaudiam quando Vanja cantou “Sodade meu bem sodade”. O filme recebeu os prêmios de melhor filme de aventura e de música. Vanja foi chamada ao palco, tocaram o Hino Nacional. Para ela, foi um dos momentos mais emocionantes de sua vida, pois sentiu-se representando todo um país e uma cultura, até então praticamente desconhecidos no mundo.
Que legado Vanja deixou para as atrizes do Brasil e que estrelas daqui e de fora mais e melhor a influenciaram?
Adolfo Rosenthal:
Vanja foi única, porque tinha uma personalidade e um temperamento muito particular. Autêntica e indomável. Um força da natureza. Desde os anos 1940, o cinema brasileiro fora invadido pela chanchada: o tom da comédia ou da interpretação teatral, predominavam. Com “O Cangaceiro”, houve uma ruptura neste estilo. Vanja, como atriz, interpretando o papel de Maria Bonita, trazia intuitivamente um vigor e uma naturalidade, que incorporavam a paixão e o sofrimento da personagem. Sua atuação, assim como a do ator Milton Ribeiro, foram o destaque do filme. Foram muito elogiados pela crítica nacional e internacional. O filme foi um divisor de águas. Não tenho dúvidas de que aquelas interpretações e o estilo realista foram uma poderosa fonte de inspiração para um movimento que viria a seguir, o Cinema Novo.

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