Vai ter Wes Anderson na Mostra de SP

Vai ter Wes Anderson na Mostra de SP

Rodrigo Fonseca

18 de outubro de 2021 | 09h37

Wes Anderson: diretor texano vive seu apogeu em “A Crônica Francesa”

Rodrigo Fonseca
Previsto para estrear comercialmente nos EUA nesta sexta-feira, “A Crônica Francesa” (“The French Dispatch”) é uma das atrações que prometem fazer da 45ª Mostra de Cinema de São Paulo a maior diversão a partir desta quinta-feira. Exibida em telas estadunidenses em mostras em Nova York, Chicago e San Diego, a produção que celebra o histórico da imprensa em Paris e seus arredores deslanchou sua carreira internacional em Cannes (em julho), indo na sequência a San Sebastián (em setembro), de olho no Oscar 2022, faminta pra propiciar a seu realizador, o texano Wes Anderson, a estatueta dourada que ele há tempos merece. Empacada durante um ano, por conta dos atrasos inerentes à covid-19, essa comédia de esplendor gráfico faz parte do pacotão de 265 títulos da maratona paulistana, ao lado de um Almodóvar inédito (“A Voz Humana”, com Tilda Swinton); do ganhador da Palma de Ouro de 2021 (“Titane”, de Julia Ducournau); da pérola lusitana “Listen”, de Ana Rocha de Sousa; e do filme que deu ao mestre sul-coreano Hong Sang-soo o prêmio de melhor direção na Berlinale 2020: “A Mulher Que Fugiu”. Do Brasil, tem produções esperadíssimas dirigidas por Bárbara Paz (“Ato”), Laís Bodanzky (“A Viagem de Pedro”), Ana Maria Magalhães (“Já Que Ninguém Me Tira Pra Dançar”) e Joel Zito Araújo (“O Pai da Rita”), além do único longa nacional que passou este ano pela Quinzena de Cannes: “Medusa”, de Anita Rocha da Silveira. Mas Wes deve disparar na corrida por ingressos, entre os títulos de projeção presencial.

Desde “Três É Demais” (“Rushmore”, 1998), quando engatou um casamento profissional com Bill Murray e emprestou à comédia americana um estilo gráfico, na caracterização da mise-en-scène, o diretor de “A Vida Marinha de Steve Zissou” (2004) tornou-se um dos pilares de maior popularidade do cinema independente dos EUA. “O Grande Hotel Budapeste”, maior sucesso de bilheteria de sua carreira (custou US$ 25 milhões e arrecadou US$ 172 milhões), laureado com o Grande Prêmio do Júri da Berlinale, em 2014, pode ser superado com este seu novo exercício autoral. Murray está em cena, gaiato como sempre, no papel do editor de um prestigiado pasquim feito por jornalistas vindos de terras americanas, mas radicados na França. Em San Sebastián, a opinião generalizada foi: trata-se do trabalho mais requintado (e ousado) de Wes em suas experimentações formais, que evocam a estética frenética de Mack Sennett (1880-1960), realizador de “O Beijo de Despedida” (1928). Plasticamente estruturado nos moldes de uma revista ilustrada, em sua narrativa palavrosa, “A Crônica Francesa” opera com elementos de animação; tem gravuras e ilustrações por toda a sua extensão, de 1h48; tem um preto & branco depuradíssimo (na fotografia dionisíaca de Robert D. Yeoman) e tem Alexandre Desplat, um dos compositores mais disputados na atualidade, em sua trilha sonora. Parece um daqueles bons filmes europeus em episódios dos anos 1960, como “Ro.Go.Pa.G.” (1963) ou “Boccaccio ’70” (1962), só que pautado por uma unidade visual (na direção de arte sempre arrebatadora do cineasta, operacionalizada aqui pelo quarteto de artesões Matthieu Beutter, Loïc Chavanon, Stéphane Cressend e Kevin Timon Hill) e uma unidade temática, que, no caso, refere-se à glória do jornalismo autoral. A narrativa é estruturada como se fosse um exemplar da “The New Yorker Magazine”, editada pelo personagem de Bill Murray: o repórter Arthur Howitzer Jr. Sua marca é a frase: “Não chore na minha frente”. Howitzer é capaz de dizê-la nos momentos cruéis ou nas situações mais humanistas. Seu avesso ao pranto passa por um desdém em relação ao sentimentalismo passa pelo cuidado com a retidão no âmbito da construção da prática jornalística. O que deflagra a trama é a morte dele.

Benicio Del Toro e Lea Seydoux (à direita) vivem uma história de amor atípica e bruta no longa

Quando Howitzer morre, seus colaboradores mais ativos no dia a dia do trabalho se reúnem para decidir os rumos da revista, numa espécie de reunião de pauta. Por lá estão figuras abiloladas como Alumna (Elisabeth Moss), que usa gráficos para calcular cada passo de uma cobertura jornalística, mesmo quando estes não são compatíveis com a reportagem; e como Herbsaint Sazerac (Owen Wilson), que usa sua bicicleta para percorrer Paris sem dar muita atenção a buracos. Cada episódio revisitado pelo conselho editorial é uma reportagem sobre um tema ligado à realidade da França, com destaque para a relação de um artista plástico assassino (Benicio Del Toro) e a guarda de sua cela (Léa Seydoux). O elenco é monumental, vitaminado por exercícios pontuais de ironia como os de Jeffrey Wright, impecável no papel de um jornalista flamboyant. É um dos melhores trabalhos do ator, que será visto como Comissário Gordon no esperado “The Batman”, em março que vem.
Em 2021, Wes comemora os 20 anos do longa que atestou sua fama de ser um excepcional diretor de elencos GG: “Os Excêntricos Tenenbaums”, com Gene Hackman. Desse filmaço de 2001, Wes trouxe para “A Crônica Francesa” uma de suas divas: Anjelica Huston. É ela quem narra a epopeia dos repórteres que burlam as convenções da notícia em nome da exuberância do texto.

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