Urso de Ouro, ‘There Is No Evil’ vai à Mostra de SP

Urso de Ouro, ‘There Is No Evil’ vai à Mostra de SP

Rodrigo Fonseca

10 de outubro de 2020 | 12h17

“Não Há Mal Algum” (“There Is No Evil”) integra o cardápio da Mostra de São Paulo

Rodrigo Fonseca
Ao escolher como seu filme de abertura “Nuevo Orden” – distopia responsável por elevar o mexicano Michel Franco ao panteão dos maiores realizadores do mundo na atualidade, coroado com o Grande Prêmio do Júri de Veneza -, a Mostra de São Paulo, agendada de 22 de outubro a 4 de outubro, deixou evidente seu instinto provocativo e sua vontade de escancarar o estado de coisas de instabilidade deste ano de pandemia, o que se ressalta com a escolha do ganhador do Urso de Ouro de 2020. Em coletiva via YouTube, Renata de Almeida, a diretora da maratona cinéfila paulistana, anunciou a escalação de “Não Há Mal Algum” (“There is no evil”), de Mohammad Rasoulof (Irã), um monumental exercício de empatia ambientado em um local de censura, de veto político de mordaça. É uma longa-metragem em segmentos com quatro histórias sobre gente que executa prisioneiros a mando do governo iraniano e sobre os amores que as ceram. Suas abordagens que vão do melodrama de família ao tom de thriller, seja na situação do pai de família que sai de madrugada para liquidar inimigos do estado, seja na relação de um homem com sua sobrinha recém-chegada de longe. Rasoulof, que ganhou fama mundial ao conquistar o prêmio Un Certain Regard de Cannes, em 2017, por “Lerd”, não pode deixar sua pátria por uma proibição governamental, tendo que ficar mais dois anos sem poder viajar. Seu devastador estudo sobre a implosão dos afetos, sob o cabresto do Estado, é o terceiro título vindo do Irão a deixar a Alemanha com o Urso dourado nesta década, sendo precedido por “A Separação”, de Asghard Farhadi, em 2011; e “Táxi Teerã”, de Jafar Panahi, em 2015. “Existem filmes que têm coração, sendo capazes de atravessar o Tempo com a gente. Com sorte a gente talvez encontre uma miríade dessas aqui”, disse o presidente do júri da Berlinale deste ano, o ator inglês Jeremy Irons.
Renata vai dedicar seu troféu honorário, o Prêmio Humanidade, ao ícone do documentário: o diretor Frederick Wiseman, de quem será exibido “City Hall”. “Vamos dar também um Prêmio Humanidade para os funcionários da Cinemateca Brasileira, um prêmio muito bem dado. O prêmio foi criado para exaltar artistas que colaboram com a nossa coexistência. Mas ele me faz lembrar do (escritor indígena) Ailton Krenak dizendo que o nosso mundo não é nosso, ele nos é emprestado. E isso me fez pensar no patrimônio cultural. É nosso dever mantê-lo”.

“O Ano da Morte de Ricardo Reis”

Coprodução Brasil x Portugal, “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, de João Botelho, com Chico Diaz no universo de José Saramago, vai ser apresentado no pacote de pérolas que Renata garimpou. Com o selo de Cannes, “Mães de Verdade” (“True Mothers”), da diretor japonesa Naomi Kawase, também vai ser projetado na Mostra, que vai realizar uma retrospectiva do diretor baiano Fernando Coni Campos (1933-1988), famoso por produções como “O Mágico e o Delegado”, de 1983. Hoje com 89 anos, Ruy Guerra, que surpreendeu Roterdão com seu novo longa, “Aos Pedaços” (ganhador do troféu de melhor direção em Gramado, há duas semanas), vai ministrar uma masterclass no cardápio de atrações selecionadas por Renata. Ela ainda vai conceder uma láurea especial, o Prêmio Leon Cakoff, para a produtora Sara Silveira pelo conjunto de sua obra. Sara produziu um dos concorrentes aos Ursos de Berlim: “Todos os Mortos”.
Aclamado em Toronto e em San Sebastián, “Casa de Antiguidades”, de João Paulo Miranda Maria, vai fazer sua estreia no país pela Mostra, apoiado em um desempenho visceral de Antonio Pitanga e de Ana Flávia Cavalcanti. São 198 títulos no total.

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