Urso de Ouro da Hungria no Canal Brasil

Urso de Ouro da Hungria no Canal Brasil

Rodrigo Fonseca

26 de fevereiro de 2020 | 15h45

Rodrigo Fonseca
Neste sábado serão conhecidos os vencedores do 70º Festival de Berlim (os melhores até aqui: “Berlim Alexanderplatz”, de Burhan Qurbani; “Sibéria”, de Abel Ferrara; “Favolecce”, de Fabio e Damiano D’Innocenzo; “The Roads Not Taken”, de Sally Potter; e “Undine”, de Cristian Petzold), e, de carona na celebração, o Canal Brasil vai aproveitar o domingão, dia 1º de março, às 23h, projetar “Corpo e Alma”, de Ildikó Enyedi, que ganhou o Urso de Ouro em 2017.
Contrariando apostas no cinema político e previsões acerca da vitória de realizadores já consagrados, o júrida 67ª Berlinale optou por jogar seus holofotes sob uma diretora da Hungria, com 65 anos de idade e 39 de carreira, que nunca teve a visibilidade merecida. Ildikó ganhou o troféu mais cobiçado da maratona alemã por “On Body And Soul”, uma história de amor entre raspas, restos e rios de sangue de bois que são abatidos diariamente no matadouro onde seus personagens – ela, uma taciturna e suicida fiscal de qualidade; ele, um administrador com um braço paralisado – desenvolvem algo próximo de um romance. A justificativa do presidente do corpo de jurados, o cineasta Paul Verhoeven (de “Elle”), referia-se à potência visual com que a cineasta radiografa aquele mundo de silêncios.
“Existe uma riqueza sentimental enorme em pessoas que são fechadas em si. Foi isso o que eu tentei explorar, interessada na delicadeza”, disse Ildikó ao P de Pop.
Seu filme foi o mais premiado daquela Berlinale: além do Urso de Ouro, “On Body and Soul” conquistou a láurea do Júri Ecumênico, a do júri dos leitores do jornal alemão Berliner Morgenpost e a do júri de críticos da Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (a Fipresci). “Eu venho de um país que pode ser assustador, muitas vezes, mas que desenvolveu um cinema muito potente num intervalo de tempo que, não necessariamente é o da minha geração. Nos últimos 30 anos, em meio aos problemas que eu e meus contemporâneos encaramos, cresceu uma nova turma, com um cinema inovador”, diz a cineasta, que rodou curtas, documentários e a versão húngara da série “Em Terapia”. “É um orgulho ver que grandes autores cinematográficos estão surgindo da minha nação”.
Em 1989, Ildikó foi premiada no Festival de Cannes com o troféu Câmera de Ouro, dado a estreantes, por “My 20th Century”, filme que lhe deu algum prestígio à época. Mas ela não chegou a ser um nome de destaque no cenário internacional do cinema de autor – até agora. “Eu fiquei muito tempo fora do jogo, sem acreditar que havia lugar pra mim, até o meu produtor me convencer a contar a história de On Body and Soul”, contou Ildikó à Berlinale. “Eu sou uma cineasta que não gosta de impor um estilo visual às tramas ou aos atores. Sou da filosofia da simplicidade”.

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