Unifrance no ‘Vórtex’ de Gaspar Noé

Unifrance no ‘Vórtex’ de Gaspar Noé

Rodrigo Fonseca

15 de janeiro de 2022 | 08h54

Gaspar Noé em Locarno, onde “Vórtex” foi chamado de obra-prima

RODRIGO FONSECA
Exibido fora de concurso em Cannes, ovacionado em Locarno (de onde saiu com um status de obra-prima) e laureado em San Sebastián com o prêmio Zabaltegi-Tabakalera, “Vórtex” é o movimento mais maduro da aeróbica autoral que Gaspar Noé vem praticando em sua relação com as narrativas audiovisuais. Há uma horda de críticos e jornalistas lutando por uma chance de entrevistá-lo no 24º Rendez-Vous Avec Le Cinéma Français. Esse é o nome de um evento de promoção e comercialização de longas organizado pelo governo da França, ano a ano. Todos querem saber desse novo longa-metragem do realizador que, em 2022, comemora os 20 anos de seu (até agora) maior sucesso: “Irreversível”.
“O tempo passa e a gente vai vendo o cinema com uma outra e nova profundidade, que passa pelos nossos medos, nossas fragilidades, nossas urgências”, disse Noé ao Estadão, em Locarno.
Pra onde quer que se olhe no Rendez-vous, que começou na sexta, fala-se de Gaspar. É difícil não chorar litros depois de entrar em seu “Vórtex”, uma cartografia do envelhecimento – tanto de pessoas, quanto do cinema como manifestação artística. Trata-se de uma experiência quase fúnebre, narrada com uma tela dividida, com ações distintas acontecendo em dois hemisférios paralelos, construído a partir de improvisos com o elenco. E é em sua trupe que Noé tem seu principal chamariz: ao lado da veterana Françoise Lebrun (estrela de “A Mãe e a Puta”, de 1973) e do jovem Alex Lutz, está em cena um mestre do terror, o diretor Dario Argento. E a atuação do diretor de “Suspiria” (1977) e “O Pássaro das Plumas de Cristal” (1970) – clássicos do giallo, o horror à italiana – comoveu Locarno, no retrato de um artista acossado pelo Tempo e pela gradual destruição da lucidez de sua mulher.
“Eu busquei unir uma atriz por quem tenho um respeito imenso, com um diretor que deu ao terror vísceras e vida. Acredito que existe um toque de absurdo no cotidiano parecido com o que você encontra em filmes como ‘Calafrios’, de David Cronenberg, ou em ‘Ensaio de orquestra’, de Fellini, nos quais a estranheza se embrenha em ritos do dia a dia. Mas, no caso da obra de Argento, não se fala em absurdo e, sim, numa elegância singular, num capricho narrativo que conduz ao requinte. Ele é um mestre e eu o tratava como tal, nos sets. Dei sorte de o filme que ele está preparando, como realizador, ‘Occhiali neri’, atrasou. Com esse atraso, ele teve tempo de filmar comigo”, explicou Noé.

Françoise Lebrun e Dario Argento numa França assombrada pela finitude

Classificado pela imprensa europeia como o melhor filme de Noé em duas décadas, “Vórtex” é um tristíssimo conto existencial (e psicanalítico) sobre a velhice e as dicotomias da memória, em analogia à própria arte cinematográfica e seus suportes, os físicos e os digitais. De um lado da tela dividida vemos, quase todo o tempo, Françoise Lebrun a atuar, no papel de uma mulher às voltas com o Alzheimer, e, ora ou outra, com seu filho dependente químico, vivido por Alex Lutz. Do outro lado vem a apoteose desse “filme saudade”: Argento, hoje octogenário, interpreta um crítico de cinema devotado a escrever um livro, chamado “Psiquê”, sobre sonhos e o audiovisual.
“Foi um filme feito sem imposições, com absoluta liberdade, apreciando a presença de Dario entre nós”, diz Noé ao P de Pop.

Outro filme que anda arrebatando elogios na seleção da Unifrance, órgão do Ministério da Cultura da França que realiza o Rendez-vous (anualmente, sempre no mês de janeiro, antes presencialmente em Paris, e, agora, online, via Zoom), é “A Fratura” (“La Fracture”), de Catherine Corsini, que fez carreira no último Festival do Rio. Foi o ganhador da Queer Palm, a láurea de simbolismo LGBTQ+ de Cannes. Em sua narrativa tensa, as namoradas Raf (uma inspirada Valeria Bruni Tedeschi) e Julie (a ótima Marina Foïs) encaram uma jornada infernal em um hospital em meio a um piquete na França. A sala de espera da ala de Emergência, onde as duas estão, será palco para uma guerra entre classes, na qual heróis, mártires e vítimas se equiparam.

Ao largo do Rendez-Vous, que termina na segunda, a Unifrance executa, paralelamente, uma mostra online, aberta ao público, chamada MyFrenchFilmFestival, com direito a premiações por júri oficial e júri popular, com curtas e longas. A seleção deste ano vai apresentar pérolas como “Calamity, une enfance de Martha Jane Cannary”, animação de Rémi Chayée, e “Charuto de Mel”, drama da cineasta Kamir Aïnouz.
Basta clicar https://www.myfrenchfilmfestival.com/pt/ para acessar o conteúdo.

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