Unifrance: Blockbusters franceses pro mundo ver

Unifrance: Blockbusters franceses pro mundo ver

Rodrigo Fonseca

19 de janeiro de 2020 | 10h16

Daniela Elstner, a diretora-geral da Unifrance, e o presidente da instituição, o crítico Serge Toubiana, analisam a saúde financeira de seu país nas telas

Rodrigo Fonseca
Em meio à comemoração dos 6, 9 milhões de ingressos vendidos pela comédia “Qu’est-ce qu’on a encore fait au bon Dieu?”, de Philippe de Chauveron (continuação do igualmente astronômico “Que mal eu fiz a Deus?”, 2014), a Unifrance, o órgão do governo da França que zela pelo audiovisual, ainda quebra a cabeça para saber como fazer circular sua produção mais comercial para além de suas fronteiras. Filmes de autor ou experiências mais radicais no afã de transpor tabus como “Retrato de uma jovem em chamas” (hoje em cartaz no Brasil) viajam por telas do planeta inteiro… e de primeira classe. Porém o mesmo não pode se dizer dos longas-metragens de embocadura mais mercadológica (em especial comédias e filmes de ação) feitos entre os 240 títulos que os franceses produzem por ano. Às vezes, brotam exceções como é o caso de “Pequeno Nicolau” (2009), prestigiado por 5,4 milhões de pagantes em seu país e visto por multidões fora dele, tendo ficado cerda de um ano em cartaz no Brasil. Espera-se que uma história de vigilantes superpoderosos, nos moldes da Marvel, mas lançado pela Warner Bros. (parceria da DC Comics, de “Coringa”), possa romper essas barreiras e os preconceitos de gosto: chama-se “Comment je suis devenu super-héros”, é dirigida por Dougla Attal e tem o genial Benoît Poelvoorde no elenco.

É alta a expectativa pelos Vingadores europeus de Attal. Mas, durante o 22º Rendez-vous Avec Le Cinéma Français, o fórum anual do audiovisual francófono, realizado no L’Hotel du Collectionneur, em Paris, os responsáveis pela análise (estética e aritmética) dos números da Unifrance, Daniela Elstner e Serge Toubiana, disseram que ainda é cedo para previsões acerca do futuro da Liga da Justiça dos Campos Elíseos.
“Estamos comemorando o fato de que muitos filmes lançados em 2019 passaram da marca de um milhão de ingressos vendidos, gravitando numa margem de até 3 milhões de pagantes. Na quantidade, na variedade, tivemos um ano bom. E é uma alegria ver que muitas animações chegaram ao circuito ou a alguma outra vitrine, como “J’ai perdu mon corps” (“Perdi meu corpo”), que foi para a Netflix. Mas ainda é um desafio levar filmes que não são enquadrados na categoria autoral para fora da França e precisamos pensar uma saída”, almeja Daniela, que vem de um histórico de distribuição de documentários.

Um dos maiores críticos da França, coautor de uma prestigiada biografia de François Truffaut, Toubiana, atual presidente da Unifrance, endossa as palavras de sua colega Daniela, diretora-geral da instituição, que promove o Rendez-vous. “Premiado no Festival de Veneza, o último Polanski, “J’Acccuse”, foi muito bem de público aqui, mas tem uma grife autoral, mesmo tendo apelo poupular. O problema é como fazer com que outros filmes comerciais de qualidade conversem com o mundo. Pra isso há o Rendez-vous: para estreitar laço entre nossa cultura e a de outros países”.

Orgulhosa da carreira de prestígio mundial da produção animada francesa, Daniela diz que a Unifrance estuda estratégias para ampliar também a visibilidade do nicho documental da França. Um dos títulos mais esperados do formato este ano é “Le Regard de Charles”, de Marc di Domenico, sobre o cantor Charles Azanavour (1924-2018). “Temos muitas coproduções internacionais com documentaristas que, muitas vezes, só podem expressar o que pensam sobre suas nações em filmes que são lançados na França, num espaço de liberdade. Já a nossa produção local tem ocupado bom espaço em circuito e já migra para janelas como a Netflix, com sucesso”, avalia Daniela, rolando a bola para Toubiana. “A realidade do mundo anda tão complexa que a televisão, com seus noticiários, não dão conta. E é aí que vem a liberdade e vem a poesia do cinema, para abrir novas janelas de percepção, sem um cabresto prévio da factualidade”, diz Toubiana, que destaca a homenagem que vai ser prestada na noite deste domingo, no Rendez-vous, a Olivier Assayas.

Laureado em Cannes em 2016, com o prêmio de melhor direção por “Personal Shopper”, Assayas disputou o Leão de Ouro de Veneza com “Wasp Network”, uma coprodução com o brasileiro Rodrigo Teixeira e sua RT Features. Estrelado por Penélope Cruz, Ana de Armas, Edgard Ramírez, Gael García Bernal e Wagner Moura, o longa é baseado no livro “Os Últimos Soldados da Guerra Fria”, de Fernando Morais, sobre uma célula cubana de espionagem contra o anticastrismo nos EUA. O longa vai para a grade da Netflix.

“Fui editor de Olivier por anos a fio na “Cahiers du Cinéma” e, lá, lendo seu apaixonado trabalho como crítico, eu já percebia o lado cineasta a aflorar nele. Era visível que a crítica de cinema seria apenas uma passagem na vida de Olivier enquanto ele se preparava para virar realizador e contar histórias”, diz Toubiana. “Ele é um cineasta que ganhou muito prestígio fora da França e é bem reconhecido nos EUA. Sempre sugiro que ele filme nos Estados Unidos, pois tem um olhar muito cosmopolita”.

Após uma jornada de cinco dias de entrevistas e projeções, das 9h às 19h, o 22. Rendez-Vous Avec Le Cinéma Français termina nesta segunda, com um encontro da imprensa com o realizadores do maior fenômeno recente da pátria de Truffaut nas telas, “Intocáveis” (2011), visto por 20 milhões de pagantes em sua nação: Éric Toledano e Olivier Nakache. Eles venderam 1,9 milhão de ingressos em um mês em cartaz em solo parisiense e cidades vizinhas com seu trabalho novo, “Hors Normes”. Exibido como atração de encerramento do 72. Festival de Cannes, em maio de 2019, o longa narra a história de dois educadores (Vincent Cassel e Reda Kateb) especializados na integração de crianças e jovens autistas.

“Toledano e Nakache hoje estão trilhando um caminho muito coerente, na construção de um tipo de cinema popular com uma identidade própria”, diz Toubiana, lembrando que, na atualidade, a França tem diretores de narrativas adultas capazes de lotar cinemas, produzindo com muita regularidade, como François Ozon, que volta às telas este ano com “Eté 84”. “É bom termos aqui diretores que estão sempre fazendo filmes, às vezes numa média de um longa por ano, como Ozon e Assayas. Há gente muito boa aqui, como Jacques Audiard, que faz filmes de prestígio, mas que, às vezes, leva quatro ou cinco anos para voltar às telas. Isso não é mal. É o tempo do artista. Cada um tem e o seu e deve ser respeitado em sua forma de criar. Mas é bom ter quem faça com rapidez, filme com urgência”.

p.s.: Um curta chamado “Mémorable”, de Bruno Collet, premiado no Festival de Annecy, virou orgulho nacional na França após ter sido indicado ao Oscar. É o drama de um homem já grisalho que passa a lutar contra o Alzheimer.

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