‘Unicórnio’ leva magia brasileira à Berlinale

‘Unicórnio’ leva magia brasileira à Berlinale

Rodrigo Fonseca

19 Dezembro 2017 | 12h49

Eduardo Nunes (de boné) dá instruções a Patrícia Pillar e Lee Taylor nos sets de “Unicórnio”, emissário brasileiro na Berlinale 2018, na mostra Geração Crédito da foto: Divulgação/ Zeca Miranda

Rodrigo Fonseca
Pintou mais uma vaga para o Brasil no Festival de Berlim, cuja 68º edição vai de 15 a 25 de fevereiro na capital alemã, agora na seção paralela Generation 14Plus: o filme carioca Unicórnio. Produção do Rio de Janeiro, com direção do niteroiense Eduardo Nunes (do premiado Sudoeste), este drama de tintas metafísicas, estrelado pela atriz Patrícia Pillar, integra um pacote de títulos voltados para representações da infância e da adolescência. Disputam com ele a atenção dos alemães os filmes 303, de Hans Weingartner (Alemanha); Cobain, de Nanouk Leopold (Holanda); Danmark, de Kasper Rune Larsen (Dinamarca); The Pigeon, de Banu S?vac? (Turquia); Les Faux Tatouages, de Pascal Plante (Canadá); Para Aduma, Tsivia Barkai (Israel) e Virus Tropical, de
Santiago Caicedo (Colômbia/ Equador).

Inspirado pela prosa de Hilda Hist, Unicórnio é divido entre dois tempos narrativos, um deles num hospital manicomial (onde um pai conversa com sua filha) e outro num bosque onde um estranho vai mexer com a libido de uma mulher. O longa-metragem fez sua estreia mundial no Festival do Rio, onde arrebatou elogios para a fotografia de Mauro Pinheiro Jr, arrebatadora. Patrícia tem um desempenho irretocável como um signo do feminino que se desdobra entre os verbos “cuidar”, “querer” e “proteger-se”. Há engasgos graves no ritmo da narrativa, que dilui a força trágica do enredo em uma contemplação excessivamente autocentrada. Porém, há um vigor plástico inegável, que pode (e deve) surpreender a imprensa europeia.

Fotografia de Mauro Pinheiro

O Brasil já conquistou um cantinho pra si no evento, na seção Panorama, com uma trinca de documentários. O diretor cearense Karim Aïnouz exibe lá Aeroporto Central (Zentralflughafen THF); Bixa Travesti é o nome da investigação sobre desconstruções de identidade de gênero feita por Claudia Priscilla e Kiko Goifman; e Ex-Pajé, é o filme zero km de Luiz Bolognesi (roteirista de Bingo – O Rei das Manhãs), que aborda um etnocídio indígena na Amazônia. Há um longa da Europa, Obscuro Barroco, da diretora grega Evangelia Kranioti, que também fala de questões nossas ao retratar uma lenda da cultura queer carioca: a travesti Luana Muniz (1961-2017). Estima-se que 7 Days in Entebbe, thriller político de José Padilha, e Piedade, de Cláudio Assis, possam entrar na seleção oficial, na briga pelo Urso. Entre os competidores já anunciados, destacam-se experimentos inéditos do americano Gus Van Sant (Don’t Worry, He Won’t Get Far On Foot) e do francês Benôit Jacquot (Eva, com Isabelle Huppert).

Para sua abertura, a Berlinale.68 convidou o novo longa de Wes Anderson (Grande Hotel Budapeste): a animação Ilha dos Cachorros, a ser exibida em disputa aos olhos do júri presidido pelo diretor alemão Tom Tykwer. Com elenco estelar de dubladores (Edward Norton, Bill Murray, Jeff Goldblum, Bryan Cranston, Scarlett Johansson e Greta Gerwig), o filme, que estreia dia 23 de março nos EUA com o título original de Isle of Dogs, será exibido dia 15 de fevereiro em terreno europeu.

Há quem aposte numa homenagem berlinense para os 20 anos de Central do Brasil, que deu o Urso de Ouro a Walter Salles em 1998. Especula-se que o trabalho mais recente de Salles, um dos segmentos do longa em episódios Em Que Tempo Vivemos?, vai passar nas telonas da Alemanha, em projeção especial. Jia Zhangke integra a lista de diretores e Maeve Jinkings é uma das atrizes.