‘Undine’, golaço alemão da Imovision, no Rio

‘Undine’, golaço alemão da Imovision, no Rio

Rodrigo Fonseca

16 de dezembro de 2021 | 11h01

RODRIGO FONSECA
É hora de começar o balanço do que o 23º Festival do Rio trouxe de melhor (“A Viagem de Pedro”, “Medida Provisória”, “Cyrano”, “Manguebit”, “Drive My Car”, “O Pai da Rita”, “Tre Piani”) para uma edição feita a duras penas, mas com a competência habitual de Ilda Santiago, com destaque para uma produção alemã que está a um passo de alçar voo no Brasil: o doído “Undine”. O mais recente longa de Christian Petzold figurou em várias listas de imperdíveis do evento e, nesta sexta, a produção vai ganhar uma pré-estreia em São Paulo, às 16h30, no Reserva Cultural, com direito a um bate-papo, ao fim da sessão, entre o realizador germânico e a jornalista Flávia Guerra. Essa ação promocional faz parte da inteligente estratégia de mobilização popular feita por Jean-Thomas Bernardini em sua Imovision, uma das mais prestigiadas distribuidoras do país. É necessário confirmar presença no elias@imovision.com.br até 12h deste 17 de dezembro para participar e acompanhar a análise de Petzold sobre sua parceria com Paula Beer, que foi ovacionada na capital germânica ao conquistar o Urso de Prata de melhor interpretação feminina por sua atuação no longa mais recente do Midas cinemático da Alemanha. Petzold ainda ganhou o prêmio da crítica, dado pela Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (Fipresci) a uma saga que Paula ajuda a erigir. Ela é uma historiadora que é abandonada pelo amante, uma vez que este prefere ficar com outra mulher, alegando falta de sal em sua relação. Eis que, entre andanças para desopilar o peito, ela esbarra com um escafandrista (Franz Rogowski) com quem vai mergulhar fundo no querer, numa trama que evoca o mito da sereia. Numa aula de montagem, o diretor – um renano da cidade de Hilden – dá um olé na concorrência, com seu engenhoso tráfego entre o que é real e o que é onírico ao filosofar sobre a Berlim dos dias de hoje (em relação a uma Berlim mais ancestral) a partir de uma descabelada saga passional.

Franz Rogowski mira Paula Beer com olhos de encantamento

Em junho, o realizador de 61 anos, especializado nas fraturas históricas de sua pátria, ganhou uma retrospectiva na plataforma digital MUBI. Bastava clicar o www.mubi.com para encontrar, por lá, joias rodadas por Petzold entre o curta documental “Süden” (1990) e a primeira metade da década passada. “A identidade vai além do território geográfico. A geografia mais significativa está na língua, pois é nessa que tecemos a identidade e o mistério”, disse Petzold ao P de Pop na capital alemã, onde é visto como um dos maiores cineastas em atividade.
Seu trabalho é pontuado por gemas como “Jericó” (2008); “Yella” (2007); e “O Estado Em Que Estou” (2000). Fez ainda o badalado “The Warm Money”. Mas a joia de sua carreira, fora o belo “Undine”, é “Barbara” (2012). Sua trama se passa na Alemanha Oriental dos anos 1980. Lá, Barbara é uma médica berlinense banida para uma clínica médica de um país por se candidatar a um visto de saída. Profundamente infeliz com sua transferência e temerosa de seus colegas de trabalho como possíveis informantes da Stasi, Bárbara permanece distante, especialmente do chefe da clínica, o bem-humorado, André.
“No cinema autoral, palavra vira melodia. Basta ver as cenas de um clássico como ‘Jules et Jim’, de Truffaut, para sentir a força das palavras e o que elas podem representar de potência à imagem”, disse Petzold, que também fez TV, dirigindo a série “Police 110”, um cult na Alemanha. “Filmo com uma ideia de personagens e com algumas inquietações. Mas as montadoras e os montadores com quem trabalho que encontram o tom do meu cinema”.

Quem curte Petzold, em geral, cultua seu frenético “Transit”, lançado aqui como “Em Trânsito” e exibido em concurso na Berlinale de 2018. Há um clima em seus minutos iniciais de referência à II Guerra Mundial e ao jugo nazista sobre a Europa. Temos como protagonista um dissidente da política germânica, Georg (o ótimo Franz Rogowski), que deseja entrar na França, antes de o país ser ocupado, e, de lá, partir para o México. “Existe um movimento de diáspora, de autopreservação, que dialoga com as imigrações clandestinas de hoje, que geram os bolsões de refugiados que, em muitos países, são tratados com desigualdade”, alerta o cineasta ao Berlinale Palast há três anos.
No enredo filmado por Petzold, a partir do romance de Anna Seghers, um manuscrito de um autor morto cai nas mãos de Georg, o que faz com ele seja confundido com um escritor. Porém, todos os locais por onde Georg passa não guardam referências visuais dos tempos do Holocausto: estamos na Marselha de hoje, com roupas e armas atuais, retratando refugiados do Oriente Médio como os que hoje se amontoam em grandes centros urbanos das metrópoles europeias. “As certezas históricas são um convite a um erro quando dissociadas dos componentes humanos”, defende o cineasta, a quem o Festival do Rio acolheu com pompa.

p.s.: Com sessão neste sábado, às 20h, no Cinépolis Lagoon, onde integra a reta final da agenda do 23º Festival do Rio, “Capitu e o Capítulo”, de Júlio Bressane, sagrou-se “o” vencedor da 16ª edição do Fest Aruanda, encerrado na quarta. Conquistou os troféus de melhor filme, direção, figurino e ator coadjuvante (dado a Enrique Diaz), além do Prêmio da Crítica, votado pela Abraccine, a associação nacional de imprensa cinematográfica. No longa, Bressane faz uma reflexão sobre a maneira como os personagens de “Dom Casmurro” (1899) são representados nas leituras de Machado de Assis (1839-1908), usando Diaz como uma espécie de narrador da saga de Capitu (Mariana Ximenes) e Bentinho (Vladimir Brichta).

p.s.2: Tem mais uma sessão de “O Festival do Amor” (“Rifkin’s Festival”), de Woody Allen, no Festival do Rio, depois de uma consagradora projeção no sábado passado. Vai ser nesta quinta, às 16h, no Estação NET Gávea 6. Dada a fidelidade histórica do público carioca com o realizador de “Manhattan” (1979), possivelmente esta comédia de tons românticos – sobre paixões não correspondidas, o tema dele por excelência – há de driblar o cancelamento que hoje condena o octogenário realizador ao ostracismo. Ambientada no norte da Espanha, durante o Festival de San Sebastián, a trama acompanha as confusões do crítico de cinema Mort Rifkin (Wallace Shawn) ao perceber que sua mulher, a publicista Sue (Gina Gershon), está encantada por um prepotente cineasta, Philippe (Lois Garrel). Com sua cultura cinéfila vasta, Morte passa em revista cenas de clássicos como “Cidadão Kane” (1941) e “Persona” (1966), com direito a uma bergmaniana participação de Christoph Waltz.

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