‘Un Triomphe’ traz Kad Merad em seu apogeu

‘Un Triomphe’ traz Kad Merad em seu apogeu

Rodrigo Fonseca

03 de setembro de 2021 | 15h27

O banner de ‘Un Triomphe” nas ruas de Bruxelas @Foto de Jorge Pereira Rosa

RODRIGO FONSECA
Tá rolando o Festival de Bruxelas, mas a cidade, mesmo às voltas com essa maratona, tem tempo de focar seus olhos no circuitão, para conferir um filme memorável, nas linhas do humor, que comprova toda a força estética do cinema popular francófono: “Un Triomphe”. É um show de atuação do comediante Kad Merad pelo meridiano da dramédia. É um roteiro delicado, que os brasileiros ainda não tiveram chance de conferir. Estima-se que possa ser uma das atrações do Festival do Rio, em novembro.
Pelas contas do Allociné, o maior banco de dados do audiovisual europeu, Merad conseguiu num único filme, “A Riviera Não É Aqui” (“Bienvenue chez les Ch’tis”, 2008), vender mais ingressos (foram 20.328.052 tíquetes só na França) do que muitos astros hollywoodianos de prestígio venderam em toda sua carreira. Fez ali um fenômeno que parou sua pátria, bem antes de “Intocáveis” (o campeão de bilheteria mais badalado na terra de Truffaut) aparecer, em 2011. No humor do Velho Mundo, o ator argelino é um rei, sendo lembrado por aqui pelo papel do pai de “O Pequeno Nicolau” (2009). Só que Merad pode ir além do kakakaka e meter gols na seara da tristeza, como presenciou-se na noite desta terça, no Palais des Festivals de Cannes, que estendeu seu tapete vermelho para uma versão pocket da maior maratona cinéfila do planeta. E Merad veio à frente dela. Seu “Un Triomphe” é o chamado “few good movie”, termo aplicado a narrativas analgésicas, conectadas à ideia de superação. A direção é de Emmanuel Courcol (de “Welcome – Bem-vindo”), que parte de um fato real do fim dos anos 1980 para construir um delicado mergulho na cena do teatro carcerário, explorado com êxito (e Urso de Ouro) pelos Irmãos (Paolo e Vittorio) Taviani em “César Deve Morrer”. E Merad deve (e vai) ser recompensado com os louros da crítica e do afeto popular por um esforço de ir além de sua dimensão clownesca, num diálogo com Samuel Barclay Beckett (1906-1989).

Longa francês narra o empenho de um ator e diretor teatral para ressocializar populações carcerárias

Prêmio Nobel e ícone do Absurdo, Beckett soube, antes de morrer, que uma trupe de teatro formada por presidiários, que encenava seu “Esperando Godot”, fugiu da casa de espetáculos pouco antes da apresentação, deixando seu diretor em suspenso. E a Justiça estava lá, na toga de representantes do Judiciário, para avaliar aquela tentativa de inclusão. No filme conduzido com sobriedade por Courcol, essa história é revisitada a partir do périplo do ator e encenador fracassado Étienne Carboni, vivido por Merad, para trancafiar a má sorte nas grades de sua alma e alforriar a alegria de viver há muito perdida. Existe, no longa-metragem, um tom de bons sentimentos e boas ações à la “Intocáveis” (2011) e um clima We Are The World de “Patch Addams” (1998). Mas é uma tonalidade que perde tinta conforma conhecemos o mundo dos detentos e o universo interno, fraturado, de Étienne. É uma composição delicada da derrota e da busca pela redenção, por um homem que, na casa dos 50 e muitos, vê a sua juventude para trás.

p.s.: Realizadora do arrebatador “Beginning”, a diretora georgiana Dea Kulumbegashvili vai presidir o júri do 69º Festival de San Sebastián, agendado de 17 a 25 de setembro, no norte da Espanha. Integram o corpo de jurados a diretora chilena Maite Alberdi; a roteirista e diretora franco-libanesa Audrey Diwan; a atriz espanhola Susi Sánchez; e o produtor americano Ted Hope. O longa de abertura do evento será “One Second”, do chinês Zhang Yimou.

p.s.2: O projeto Niterói em Cena RESISTE!, que tem o objetivo de fomentar a produção artística na pandemia e pós-pandemia, lança o Programa de Capacitação em Teatro Virtual, que terá inscrições abertas a profissionais de teatro de todo o país de 6 a 22 de setembro. O curso, que vai apresentar possibilidades artísticas e ferramentas do teatro online durante quatro meses, contará com aula dos diretores Juracy de Oliveira, Miwa Yanagizawa, Rodolfo García Vázquez e da atriz e publicitária Letícia Leiva. Serão oferecidas 30 vagas, sendo 10 para residentes de Niterói e 20 para moradores das demais cidades do Brasil, com bolsas equivalentes a 340 euros (valor total) por aluno. No fim do período, obras criadas pelos alunos farão parte de um festival de teatro virtual, em janeiro de 2022. Serão realizadas três lives no canal do Youtube do Niterói em Cena (dias 06, 14 e 21/09, às 20h) para mais informações. O regulamento completo e o resultado serão publicados em www.niteroiemcena.com.br. O projeto é patrocinado com recursos do Fundo Internacional de Ajuda para Organizações de Cultura e Educação 2021 do Ministério das Relações Exteriores da República Federal da Alemanha, do Goethe-Institut e de outros parceiros (www.goethe.de/hilfsfonds). “O Niterói em Cena tem em seu DNA a preocupação com o desenvolvimento artístico de atores, novos diretores e técnicos teatrais. Esta nova experiência de formação vai fazer com que ampliemos nossos esforços na capacitação de artistas mais sensíveis e atuantes. Para isso, escolhemos profissionais gabaritados, com experiências bem-sucedidas no teatro virtual”, observa o diretor do projeto, Fabio Fortes, que também assina a direção do Festival Niterói em Cena.

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