‘Un Triomphe’ abre Cannes com glória

‘Un Triomphe’ abre Cannes com glória

Rodrigo Fonseca

27 de outubro de 2020 | 18h31

Emmanuel Courcol com o elenco e a equipe de “Un Triomphe” na abertura de Cannes – Foto de @Rodrigo Fonseca/P de Pop

Rodrigo Fonseca
Pelas contas do Allociné, o maior banco de dados do audiovisual europeu, o ator Kad Merad conseguiu num único filme, “A Riviera Não É Aqui” (“Bienvenue chez les Ch’tis”, 2008), vender mais ingressos (foram 20.328.052 tíquetes só na França) do que muitos astros hollywoodianos de prestígio venderam em toda sua carreira. No humor do Velho Mundo, comediante de DNA argelino é rei, sendo lembrado aqui como o pai de “O Pequeno Nicolau” (2009). Só que Merad pode ir além do kakakaka e meter gols na seara do drama, como presenciou-se na noite desta terça-feira, no Palais des Festivals de Cannes, que estendeu seu tapete vermelho para uma versão pocket da maior maratona cinéfila do planeta. E Merad veio à frente dela, com um filmaço cujo título original, “Un Triomphe”, merece ser compartilhado com Thierry Frémaux, o delegado geral responsável pela seleção cannoise. O pocket show da Croisette, neste 2020 no qual o evento teve de ser adiado por culpa do coronavírus, foi triunfal em seu primeiro dia, à força de uma dramédia no hemisfério do folhetim e no meridiano do realismo social. A direção é de Emmanuel Courcol (de “Welcome – Bem-vindo”), que parte de um fato real do fim dos anos 1980 para construir um delicado mergulho na cena do teatro carcerário, explorado com êxito (e Urso de Ouro) pelos Irmãos (Paolo e Vittorio) Taviani em “César Deve Morrer”. E Merad deve (e vai) ser recompensado com os louros da crítica e do afeto popular por um esforço de ir além de sua dimensão clownesca, num diálogo com Samuel Barclay Beckett (1906-1989).

Prêmio Nobel e ícone do Absurdo, Beckett soube, antes de morrer, que uma trupe de teatro formada por presidiários, que encenava seu “Esperando Godot”, fugiu da casa de espetáculos pouco antes da apresentação, deixando seu diretor em suspenso. E a Justiça estava lá, na toga de representantes do Judiciário, para avaliar aquela tentativa de inclusão. No filme conduzido com sobriedade por Courcol, essa história é revisitada a partir do périplo do ator e encenador fracassado Étienne Carboni, vivido por Merad, para trancafiar a má sorte nas grades de sua alma e alforriar a alegria de viver há muito perdida. Existe, no longa-metragem, um tom de bons sentimentos e boas ações à la “Intocáveis” (2011) e um clima We Are The World de “Patch Addams” (1998). Mas é uma tonalidade que perde tinta conforma conhecemos o mundo dos detentos e o universo interno, fraturado, de Étienne. O papel dá a Merad um solo memorável e uma chance de depurar sua própria persona.
Antes da projeção, encerrada numa ovação, o prefeito de Cannes, David Lisnard cravou: “O ser humano não pode morrer culturalmente”. Era uma forma de calar a boca dos que se queixam da realização do evento em um momento de aumento de casos de Covid-19 na França. Mas com normas de segurança em fervura máxima, Lisnard garantiu à sua plateia harmonia e saúde. Falou-se, ao fim da exibição, que “Un Triomphe” vai estrear em 23 de dezembro. O título americano vai ser “The Big Hit”.

E vai ter mais Cannes nos próximos dois dias. A Palma de Ouro nesta versão pocket vai ser entregue apenas a curtas-metragens, por um júri formado pela realizadora Claire Burger, a atriz Céline Sallette, o cineasta Rachid Bouchareb, o ator Damien Bonnard, o produtor Charles Gillibert e pela realizadora Dea Kulumbegashvili, que venceu o último Festival de San Sebastián, na Espanha, com “Beginning”. Este será um dos longas-metragens a serem exibidos esta semana no tapete vermelho que, no passado, já coroou produções brasileiras como “O Pagador de Promessas” (nossa única Palma, em 1962), “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro” (1969); “Eu Sei Que Vou Te Amar” (1986); “Cinema Novo” (2016); e “Bacurau” (2019). Dea, que vem da Geórgia, projeta nesta quarta-feira a sua aclamada investigação sobre uma comunidade de Testemunhas de Jeová vítima de intolerância religiosa. Já na quinta tem a prata da casa mais uma vez, com Bruno Podalydès atrás e à frente das câmeras de “Les Deux Alfred”, sintonizado com a onda de desempregos na Europa. Mas, antes dele, passa pelo Palais des Festivals, um melodramão vindo do Japão, hoje em projeção online no Brasil, na 44ª Mostra Internacional de São Paulo (via Mostra Play): “Asa Ga Kuru” / “True Mothers”, o novo exercício de Naomi Kawase pelas veredas do afeto.

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