‘Un Été Comme Ça’: Espectros de Denis Côté

‘Un Été Comme Ça’: Espectros de Denis Côté

Rodrigo Fonseca

16 de fevereiro de 2022 | 10h24

Cineasta canadense dá uma aula de escrita de roteiro ao acompanhar os dilemas de um trio de mulheres numa casa à beira de um lago onde tensões sexuais, afetivas e existenciais são detonadas

Rodrigo Fonseca
Ao longo dos 20 filmes que dirigiu de 2005 até hoje, configurando-se como um dos cineastas mais ativos não só de seu país (o Canadá) mas de todo o mundo, consagrado pelo cult “Vic+Flo Viram um Urso” (2013), Denis Côté tornou-se um especialista em fantasmas, daqueles que nos assombram não com o jump scare do sobrenatural, mas nos quizilam pelos hiatos existenciais em nosso peito. Não por acaso batizou um de seus (melhores) longas de “Antologia da Cidade Fantasma” (2019). É um diretor de delicadezas, sempre muito atento à incomunicabilidade (ele e Sofia Coppola são os principais herdeiros do legado de Antonioni, nesse assunto, na América do Norte) e sempre de radar ligado ao peso que o ambiente ao seu redor exerce sobre sua esquadra de personagens, numa lógica sempre de depuração do vazia. Lógica que não teme a palavra. E de processo de investigação em processo de investigação, com riscos aqui e acolá (caso do belíssimo “Higiene Social”, que lhe valeu o prêmio de melhor direção da mostra Enconouters, no Festival de Berlim de 2021), Côté construiu uma filmografia sólida e autoral, que chega a seu momento de maturidade com “Un Été Comme Ça”. É a Berlinale que acolhe mais esse exercício criativo dele – seu melhor, de longe – e na competição oficial, com boas chances de um prêmio coletivo para suas atrizes: Larissa Corriveau, Laure Giappiconi e Aude Mathieu. E sua realização pode ser agraciada com um Urso prateado também. É um longa que lembra um bocado “3 Women” (1977), de Robert Altman.
Em sua trama, três mulheres com os desejos à flor da pele estão passando 26 dias em uma casa à beira do lago, que lhe serve como abrigo, mas também como espaço de meditação. Elas estão: Léonie (Larissa), Eugénie (Laure) e Gaëlle aka Geisha (Aude), que é uma jovem afeita flertes. Todas as três estão lá voluntariamente. Elas estão sendo supervisionadas, com assistência social e terapia. O lema daquela casa é: “A hipersexualidade não é uma doença”. O objetivo desta experiência não é curar, mas permitir uma franca exploração de diferentes experiências, formas e extremos de desejo. O que importa, entretanto, não é o tesão, não é a febre. O que importa é o que as três represam e o quanto essa represa revela sobre a força do feminino e sobre a sororidade.

Denis Côté na foto oficial que o Berlinale Palast expõe dos concorrentes ao Urso de Ouro

Apoiado em um dispositivo quase observacional construído em parceria com o fotógrafo François Messier-Rheault, Côté olha para aquelas mulheres sem nenhum julgamento prévio, deixando que suas atrizes façam das proposições que ele abriu um campo livre pra invenção. E saem coisas lindas desse processo. Nesta quarta, a Berlinale divulga seus ganhadores. Que “Un Été Comme Ça” não seja esquecido.
Entre os achados desta Berlinale, em outras latitudes, ponha em relevo “Rewind & Play”, de Alain Gomis. O realizador franco-senegalês laureado na Berlinale de 2017 com “Félicité” retorna ao evento com uma recriação de uma entrevista dada à TV francesa, em 1969, pelo jazzista Thelonious Monk (1917-1982), dessacralizando uma conversa seminal pra história da música. Mas a grande descoberta das seções paralelas deste festival foi mesmo “À Vendredi, Robinson”, de Mitra Farahani, exibido na seleção Encounters. É um registro da correspondência semanal entre multiartistas nonagenários: de um lado o cineasta e escritor iraniano Ebrahim Golestan; do outro, o realizador e artista visual suíço nascido em Paris Jean-Luc Godard. Ao longo de um ritual realizado às sexta-feiras, tendo o livro “Robson Crusoé” (1719) como referência, eles fazem uma celebração semiótica da arte.
Numa seara mais pop, o golaço da Berlinale foi “The Outfit”, de Graham Moore. Em sua estreia na direção de longas, o oscarizado roteirista de “O Jogo da Imitação” (2014) visita a cartilha do cinemão noir num thriller arrebatador em que um veterano costureiro, chamado de Inglês (Mark Rylance), é obrigado a apaziguar os ânimos de um gângster em meio a uma disputa de mafiosos. Lembra Hitchcock em sua forma sutil de exponenciar a tensão. E Rylance devora nossa ansiedade com uma atuação genial.

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