‘Uma Vida Boa’ disseca a intolerância nos palcos do RJ

‘Uma Vida Boa’ disseca a intolerância nos palcos do RJ

Rodrigo Fonseca

05 Dezembro 2016 | 15h31

“Uma Vida Boa”: “trans-ação” entre um elenco azeitado na urgência da reflexão comportamental

RODRIGO FONSECA
Talvez por reflexo de uma tendência contemporânea do audiovisual, hoje viciado em figuras masculinas de virtudes entorpecidas e de virilidade fraturada, as artes cênicas brasileiras também têm feito do emasculamento um tópico recorrente de suas peças, numa investigação sobre um tipo de “ocaso do macho”, “crepúsculo da hombridade”. Mas esse atual contexto de rediscussão de gêneros acolha um (vigoroso) espetáculo supostamente de foco na identidade “trans” como um “igual”, ou melhor, como parte de uma inquietação sobre a ruptura de certeza em relação ao discurso do corpo. O tal espetáculo é Uma Vida Boa, de Rafael Primot, com direção de Diogo Liberano, em cartaz até 19 de dezembro no Solar de Botafogo, no RJ, com sessões aos sábados, aos domingos e às segundas (hoje tem!), centrada na história real de um jovem trans que foi brutalizado e assassinado por sua orientação sexual. Amanda Mirásci assume esse papel. O enredo fará soar um gongo de familiaridade na memória de quem viu o longa-metragem Meninos Não Choram (1999), pelo qual Hilary Swank ganhou o Oscar na pele de Brandon Teena, rapaz que manteve a simpatia dos brucutus de uma cidade nos cafundós dos EUA até ter sua condição feminina biológica essencial revelada. Foi feito ainda um (excelente) documentário sobre o caso: The Brandon Teena Story, de  Susan Muska e Gréta Olafsdóttir.

Na peça não se fala em Brandon: fala-se em B. Só letras nomeiam os personagens que desenham uma ciranda afetiva (ainda que afetos pontiagudos) sobre a intolerância e a percepção do não pertencimento. B se apaixona pela cantora L (Julianne Trevisol, num desempenho luminoso), mas a aproximação entre os dois é observado de perto pelo ex-presidiário J, interpretado por Daniel Chagas numa composição vulcânica, entre a testosterona bruta e o desamparo latente. É ele, numa atuação contagiante, capaz de fazer de J um poço sem fundo de violência, que realça o tom de urgência do texto. É o perfil “Uga! Uga!” de J que mostra o quanto B – para alguns, um homem de papel – traz em sua medula tudo o que de melhor a hombridade perdeu. Chagas é tipo do ator cuja inteligência cênica – expressa  na rapidez de jogar com os silêncios e com as reações alheias – faz dele escada segura para os solos dos colegas.