Uma viagem ao passado do cinema político

Uma viagem ao passado do cinema político

Rodrigo Fonseca

09 de junho de 2016 | 16h05

“Eles Não Usam Black Tie”, de Leon Hirszman

Após a recente vitória do doc Cinema Novo, de Eryk Rocha, em Cannes (de saiu com o troféu L’Oeil d’Or), e após o Urso de Prata conquistado pelo também documental Fogo no Mar, de Gianfranco Rosi, em Berlim, uma nova discussão acerca do sentido ético e estético da expressão “cinema político” ganhou corpo no planisfério cinéfilo, seja na academia, seja na crítica ligada à imprensa. Sintonizada com o debate, a Caixa Cultural marca um gol no cenário atual da indústria de mostras de cinema no país com uma oportuna (e caprichada) retrospectiva, organizada sob a curadoria de Alessandra Castañeda, com o título Cinema e Política: O Poder da Imagem. O evento segue de 14 de junho (próxima terça-feira) a 3 de julho, no centro do RJ. Saem da gaveta tesouros nacionais como Arraial do Cabo (1959), de Paulo Cezar Saraceni, Eles Não Usam Black Tie (1981), Ilha das Flores (1989), de Jorge Furtado, e A Revolução dos Idiotas (1992), de Nelson Hoineff. Do mito Glauber Rocha entram no menu produções pouco faladas (e vistas) como 1968 e Maranhão 66 – só a projeção dos dois já vale o evento inteiro. Ao mesmo tempo, voltam à sala escura joias estrangeiras como Tempos Modernos (1936), de Charles Chaplin, Lei e Ordem (1969), de Frederick Wiseman, Faça a Coisa Certa (1989), de Spike Lee, ou Terra e Liberdade (1995), de Ken Loach.
Para o abre-alas, no dia 14, às 16h, foram agendados para exibição: Liberdade de imprensa (1967), de João Batista de Andrade, e Um Filme Como os Outros (1968), de Jean-Luc Godard. Na entrevista a seguir, a curadora explica o desenho teórico da mostra e fala sobre o quanto a internet mudou a forma de se pensar exercícios de comando, controle e governo nas telas.

“Lei e Ordem” (1969)

Neste contexto atual de mídias ninjas, na qual a internet virou sumidouro de documentários e fábrica de memes, o quanto a cybercultura mudou o conceito de produção – e sobretudo de consumo – de filmes políticos?
ALESSANDRA:
A cibercultura e, eu acrescentaria também, a popularização dos celulares com câmera são fenômenos contemporâneos que massificam a produção e o consumo de filmes políticos. Não sei se mudaram o conceito de produção de filmes, mas ampliaram as possibilidades de produção. As velhas formas de organizar a realização de um filme convivem, hoje em dia, com as produções do flagra, do “sem roteiro”, do instantâneo. Com ou sem edição, com imagem full HD ou pixelada, um vídeo produzido por uma ou poucas pessoas, pode alcançar milhões de visualizações em dias ou horas. Se pensarmos na trajetória do cinema político, na história de resistência desde a captação de investimento à conquista do espaço de exibição, podemos dizer que é uma revolução. Se antes os filmes dependiam de espaço nos festivais ou de salas independentes, hoje em dia os filmes são feitos e vistos por celulares em qualquer lugar desde que o aparelho esteja conectado à internet. O indígena na tribo, o negro na favela, o secundarista que está ocupando uma escola são alguns cidadãos que podem fazer um filme político. E estão fazendo. E muitos optando em distribuir livremente via criative commons. Por conta da massificação e do acelerado avanço da produção, estamos vivendo a hipertrofia da informação. Mas, uma pesquisa rápida na internet é o suficiente para uma pessoa conhecer filmes políticos raros e atuais. E eu acho esse amplo acesso às produções uma das coisas mais fascinantes da cibercultura. Dependendo da nossa pesquisa, podemos desativar a fábrica de memes e  escoar documentários que contribuem para o despertar da consciência, para o debate. No ciberespaço, consumimos mais de 10 horas de informação por dia. Isso é uma baita oportunidade de construção política.

“Terra e Liberdade” (1995)

Qual foi o critério para a seleção dos clássicos e cults do passado que resgata nomes seminais como Glauber Rocha?
ALESSANDRA: A ideia era conseguir projetar uma transversalidade de temas políticos como racismo, revoltas populares, guerras, domínio midiático, ditadura, luta de classes, eleições, nazismo, luta indígena, etc. Também queria reunir diversos olhares culturais, então, misturei produções de todos os continentes. Juntamos diretores clássicos como Glauber Rocha, Charlie Chaplin, Jean-Luc Godard, Alain Resnais (e muitos outros) com diretores expoentes que estão invadindo os Festivais e os youtubes: Simplício Neto, Julia Mariano, Ludmila Curi e Guilherme Arruda. Vamos projetar filmes clássicos em 35mm e 16mm, mas também vamos abrir espaço para os filmes que foram feitos com celulares e câmeras digitais. Vamos fazer valer a lei do curta metragem, sempre exibindo um curta antes do longa, geralmente dialogando com os temas centrais dos filmes de cada sessão. A programação irá mostrar ao público como são atuais os filmes clássicos, como a história da humanidade é cíclica. Por exemplo, você citou o Glauber. Vamos exibir o Maranhão 66, um curta de 1966, onde Glauber filma a cerimônia de posse do Sarney, 2 anos depois do golpe militar de 1964, e expõe toda a miséria da população maranhense. Estamos em 2016, a família Sarney continua comemorando em cerimônias de posses e a população maranhense continua na miséria.

“Maranhão 66” (1966)

Sente-se falta só de Costa-Gavras no pacote, por ser ele um papa do thriller político. Alguma razão estética específica pra ausência dele?
ALESSANDRA:
Você sabe que na seleção inicial, tinham 2 filmes do Gavras, o Z e o Missing. Mas a curadoria foi tomando outros rumos. Nisso, a vontade de abrir espaço também para as produções atuais e de jovens diretores que trabalham com a plataforma digital fez com que explorássemos outras combinações. Mas, vou dizer que é um tema inesgotável. Fazendo a curadoria dessa primeira edição, já tenho lista com filmes para preencher a curadoria de mais algumas futuras edições. E com certeza, da segunda edição, o Gavras não escapa.

“Liberdade de Imprensa” (1967)

Serão realizados três bate-papos aos sábados, às 15 horas, com entrada franca, e com a participação de acadêmicos, formadores de opinião e cineastas. No dia 18 de junho, o tema será Realização e resistência, com participação da cineasta Elizabeth Formaggini, de Julia Mariano, diretora do curta Ameaçados, e de Ludmila Curi, cineasta e co-diretora do curta Proibidão. No sábado seguinte, dia 25, os cineastas Douglas Duarte e Silvio Da-Rin e Frederico Cardoso, da Academia Cinema Brasileiro, debatem O Estado e a arte. E no dia 2 de julho, o assunto em questão será O Poder na Mídia, com a cineasta Anna Azevedo, o documentarista Thiago Dezan e Josinaldo Medeiros, do coletivo Maré Vive.

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