Uma temporada no Chade via Telecineplay

Uma temporada no Chade via Telecineplay

Rodrigo Fonseca

29 de março de 2020 | 18h48

Mahamat-Saleh Haroun dá instruções a seu elenco em “Uma Temporada na França” (“Une Saison En France”)

Rodrigo Fonseca
Assim que o coronavírus for erradicado ou diminuir sua onda de contaminação, e a (necessária) quarentena passar, os festivais de cinema vão retomar suas seleções, sendo Cannes o mais estratégico deles, tendo, entre os alvos de sua programação de 2020 (vamos crer nela!) “Lingui”, do chadiano Mahamat-Saleh Haroun. Ele é um dos mais louvados realizadores da África, dono de uma das obras mais sólidas de seu continente, como comprova “Uma temporada na França” (“Une Saison em France”, 2017), seu último trabalho lançado por aqui, acolhido calorosamente pela crítica. Seu lançamento ocorreu por estas bandas em 2018. Atualmente, ele está na grade do TelecinePlay (www.telecineplay.com.br).
Peras madurinhas, daquelas que o feirante apelida de “favo de mel”, servem de mimo (e de consolação) aos filhos do professor Abbas Mahadjir nesse drama romântico de Haroun. Não há nada mais importante para Abbas – um educador nas salas de aula de Bangui, na República Centro-Africana transformado em empregado de um entreposto atacadista tipo Ceasa ao chegar na Europa – do que a pequena Asma e o resmungão Yacine. Os dois amam frutas, pois foram ensinados pela (finada) mãe a valorizar uma refeição nutritiva, sobretudo aquelas que preservam o cheiro da terra de onde vieram, à força, fugidos de uma guerra que lhes ceifou muito. A baixa maior foi a esperança, cujo ferimento fatal no coração dessas crianças Abbas (interpretado de modo tocante por Eriq Ebouaney) tenta curar com carinho e boa comida, a fim de consolar uma dor indelével. Tão indelével que serve de fantasma no romance que ele ensaia viver com a florista Carole, vivida pela atriz e diretora Sandrine Bonnaire (de “Os Renegados”). Ela é a vitamina de que o organismo afetivo de Abbas precisa para funcionar bem de novo e aguentar o rosário de negativas em sua busca por um visto de permanência em solo francês. Ou seja… a busca por um novo lar.

Lá, nas folgas do trabalho com verduras e caixotes de mamão, Abbas lê muito: dava aula de Francês em Bangui e encontra entre Proust e Rimbaud um analgésico natural capaz de diluir sua angústia. Ele gosta de Literatura. Já seu amigo filósofo, Etienne (Bibi Tanga) – tio de Asma e Yacine, a quem mima com pizza e refrigerante – prefere ler Kant e cia., atrás do imperativo categórico do ódio geopolítico. Ele sabe o quão difícil será para Abbas conseguir um carimbo de asilo político em seu passaporte. E fará o possível para fazer o governo perceber o quanto os africanos expatriados sofrem após a diáspora. Na tela, o gesto de combate de Etienne será brusco. Mas Haroun vai registrá-lo sem sensacionalismo. Nada em “Uma Temporada na França” terá hipérboles descabeladas: o calvário dos refugiados não necessita de um colorido a mais. As cores da exclusão falam por si, na lógica lúcida – porém nada lúdica – do diretor de “Um Homem Que Grita” (Prêmio do Júri em Cannes, em 2010) e “Grigris” (2013).
Pilar audiovisual chadiano, onde é o único cineasta de visibilidade internacional, o diretor de 59 anos (radicado em Paris desde 1982) vem, desde “Daratt” (2006), secando sua narrativa, deletando música e esmaecendo a cor de sua fotografia. Aqui, a imagem beira o documental, usando o mínimo de luz. A luz mais forte é o sorriso companheiro de Carole, vitaminado pela atuação reflexiva de Sandrine. Mesmo este é raro, pois o amor deles é quase clandestino, dado o casamento indissolúvel de Abbas com seus mortos. Mas, vez por outra, a risada dela chega, como um afago, nele e em nossa percepção de uma geopolítica de repúdio aos estrangeiros.

Carole (Sandrine Bonnaire) e sua nova família

Falta um pouquinho de tônus ao filme para chegar onde Haroun queria: a indignação. Ele ralentou demais a edição (Jean-François Elie é o montador) e sua verve piqueteira de protesto. Mas o trabalho corporal de Eriq Ebouaney (ator francês cujos pais são de Camarões), num gestual de inquietação improvisado, dá potência à cada cena e inflama discussões. “Uma temporada na França” integra a programação do Telecine também em sua versão a cabo.

p.s.: Tem maratona Pedro Almodóvar no Telecine Cult esta noite. Às 20h vem “Má Educação” (2004). Já às 22h, vem o genial “Dor e Glória”, que faturou US$ 37 milhões em sua carreira mundial. Só em seu primeiro dia em cartaz na Espanha, o longa-metragem arrastou 45 mil pagantes ao circuito. Contabilize em seu currículo uma indicação ao Oscar de melhor filme internacional e uma à estatueta de melhor ator, dada a Antonio Banderas. Ele ganhou o prêmio de melhor interpretação masculina pelo longa-metragem, em Cannes, onde este doído almodrama disputou a Palma de Ouro. No Brasil, Duda Ribeiro dublou Banderas.

p.s.2: Às 23h10 desta segunda, a TV Globo exibe “Doutor Estranho”, com Benedict Cumberbatch no papel do Mago Supremo. A direção é de Scott Derrickson. O que torna a expedição audiovisual da Marvel pelos domínios da magia tão vigorosa – narrativamente – é a presença de um cineasta com pleno domínio da linguagem em busca de esmerilhar seu estilo, apoiado em um elenco de dar inveja a qualquer drama padrão Oscar. Não é qualquer dia que se tem Tilda Swinton, Chiwetel Ejiofor, Mads Mikkelsen e Michael Stuhlbarg num mesmo filme. Assim como não é qualquer dia em que um cineasta filtra a canastrice de Benedict Cumberbatch e apara os faniquitos maneiristas com os quais ele destruiu Sherlock Holmes na série da TV do detetive. Se pensarmos que a escolha inicial para o Mago Supremo era Joaquin Phoenix, brota a curiosidade de saber o quão melhor este longa já contagiante poderia ficar tendo um dos melhores atores do planeta em seu papel central. Mas como Phoenix pareceu arriscado demais para a Disney, e acabou indo viver o Coringa, que se avalia o que temos. E o que temos surpreendeu. Em linhas gerais, Doutor Estranho se afina com os filmes sobre “mitos de formação”, as narrativas de origem, como vistas no antológico Homem-Aranha de Sam Raimi ou em Batman Begins (2005). Somos apresentados à figura do cirurgião Stephen Strange (Benedict, engraçado e viril como nunca se viu), um médico egocêntrico e esnobe que desce aos infernos após sofrer um acidente e ver os ossos de suas mãos estilhaçados. Sem poder clinicar, ele busca uma cura e descobre que um sujeito antes paraplégico, Pangborn (Benjamin Bratt), hoje recuperou os movimentos das pernas. O sujeito dá a dica: um lugar chamado Kamar-Taj, no Oriente, abriga um templo de estudo de artes místicas onde ele encontrou a cura. Strange sai pelo mundo e chega lá, onde tem sua entrada refutada pela Anciã (Tilda, sempre provocativa), espécie de monge que dá ao local seu prumo. Um feiticeiro, Mordo (Ejiofor), apieda-se de Strange e convence a Anciã a acolhe-lo, apesar da arrogância que o recém-chegado esbanja. Naquele local de estudos, o ceticismo do futuro herói chegará ao seu limite máximo, até que ele aprende a fazer viagens astrais, desconectando seu corpo de sua mente, aprendendo ainda sobre os perigos que uma entidade chamada Dormammu, Senhor da Dimensão Negra, representa, assim como é perigoso o maior lacaio desse demônio, o feiticeiro renegado Kaecilius (Mikkelsen, perfeito). A chegada de Strange e sua disposição para os estudos faz dele uma arma ideal no combate a Kaecilius.

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