Uma tarde com Tarantino

Uma tarde com Tarantino

Rodrigo Fonseca

24 de novembro de 2015 | 11h00

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Ciente de que seu projeto estético caminha, filme a filme, de Kill Bill para cá, por uma trilha cada vez mais teatral e poética, Quentin Tarantino transformou a coletiva de divulgação de seu esperadíssimo longa-metragem, Os 8 Odiados (The Hateful Eight), na segunda-feira, em São Paulo, em uma aula sobre dramaturgia e direção. Ao lado do ator inglês Tim Roth, um de seus musos, o cineasta americano de 52 anos converteu quase todas as perguntas de uma plateia de diferentes sotaques da América Latina em motes para explicar sua linguagem e sua narrativa. A plateia à sua frente tinha acabado de ver o novo faroeste de Tarantino, com Kurt Russell, Jennifer Jason Leigh, Samuel L. Jackson e o já citado Roth numa imensidão gelada. Mas, por embargo, nada se pode dizer sobre a trama e sobre sua realização até o fim do ano. Sua estreia brasileira será em 7 de janeiro, com cerca de 400 cópias em circuito digital.

“Eu escrevo minhas cenas sem ter uma noção se saberei filmá-las ou não, e é daí que vem parte da diversão desta experiência que é fazer cinema. Escrevi À Prova de Morte sem ter a certeza de que sabia filmar perseguições de carros, embora gostasse de ver cenas de perseguição. O mesmo ocorreu quando escrevi as cenas de luta de Kill Bill. Mas quando eu fiz Django Livre, notei que eu sabia filmar um western, por isso resolvi voltar ao gênero. Dizem que você só se torna conhecido como um diretor de faroestes se filmar três westerns. No passado, nos tempos de John Ford, tinha que fazer pelo menos uns dez”, disse Tarantino, que chegou ao Brasil no domingo, iniciando por aqui a maratona de promoção de Os Oito Odiados, cuja trilha sonora é de Ennio Morricone.

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Cena de “Os 8 Odiados”, com Kurt Russell e Jennifer Jason Leigh: o faroeste estreia no Brasil em 7 de janeiro de 2016

Na conferência, o diretor de Bastardos Inglórios (2009) relembrou sua primeira visita ao Brasil, em 1992, com Cães de Aluguel na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. “Eu era um jovem de 20 e poucos anos, financeiramente quebrado, que começava a carreira do filme por Sundance. Naquela época, quando você fazia um filme independente, era necessário embarcar num circuito de festivais, o que durava um ano. Era uma maratona de um ano excursionando por diferentes festivais. E, viajando de mostra em mostra, aceitando participar de debates, eu acabei me tornando popular. Quando a Miramax, minha distribuidora na ocasião, foi vender Pulp Fiction, meu segundo longa, ela se deu conta de que todo mundo queria ‘o novo filme de Tarantino’ e isso porque os festivais me fizeram popular”, disse Tarantino. “Ali, eu percebi que não faço filmes para o mercado americano. Embora eles sejam falados em inglês e se passem nos EUA, eles falam para o mundo. Eu faço filmes para o planeta”.