Uma pérola italiana para fechar o ano com alegria

Uma pérola italiana para fechar o ano com alegria

Rodrigo Fonseca

31 de dezembro de 2015 | 10h26

Latin Lover Argentina

Aos 45 minutos do segundo tempo de um ano cheio de contratempos para o Brasil e o mundo, um filmaço de DNA italiano, dirigido por uma mulher cineasta, bate nos olhos como uma certeza do poder autorregenerativo do cinema: Latin Lover, de Cristina Comencini. É, talvez, o filme mais charmoso entre as atrações em ofertas aqui na Argentina, onde está em exibição em sua versão original, preservando a prosódia de seu rol de estrelas, entre as quais está a deusa Virna Lisi (1936-2014) – imortalizada em nosso cinéfilo coração por Casanova 70 (1965) e outras delícias – em seu derradeiro trabalho. E Virna teve Marisa Paredes (A Pele Que Habito) e Valeria Bruni Tedeschi (a delícia das delícias da Itália hoje) a seu lado, brilhando com harmonia, nesta produção assinada pela realizadora de La Bestia Nel Cuore (2005), a partir de cicatrizes autobiográficas. Cristina é uma das quatro filhas do lendário diretor Luigi Comencini (1916-2007), de Pão, Amor e Fantasia (1953). Na tela, suas personagens têm uma experiência similares à sua: diferentes filhes, de idades e temperamentos distintos, de um ator já finado que foi astro rei na Itália dos anos 1950 a 1980, encontram-se para um tributo póstumo a ele, o que conduz as mulheres a muitas descobertas e confusões temperadas a molho agridoce. Virna e Marisa encarnam viúvas deste Mastroianni classe B, de nome Saverio Crispo, vivido por Francesco Scianna. Este aparece apenas em recordações e num delicioso delírio no terço final.

Conhecido entre nós por Má Educação (2004), de Almodóvar, o espanhol Lluís Homar tem um desempenho que rouba cenas no papel do dublê de Saverio. Ele rouba a cena com uma revelação de surpreender as protagonistas.

Latin Lover poster

Trata-se de uma comédia triste, filão no qual os italianos sempre foram mestres. Mas a despeito dos componentes pessoais, do talento da trupe e das saudades deixadas por Virna, há em Latin Lover uma homenagem a toda a tradição do cinema feito em Roma e seus arredores, indo do neorrealismo ao spaghetti de Sergio Leone e Tonino Valerii que nos furta lágrimas, soluços e suspiros. Cristina rasga aquela (nossa) veia exposta de memórias afetivas da arte de filmar e revê movimentos estéticos, escolas dramáticas, projetos políticos. E tudo isso é feito na forma de um afago, com atrizes em estado de graça. Daí o fato de o Festival de Berlim, em fevereiro último, ter dado ao longa-metragem um espaço nobre. É a Itália em sua grandeza fílmica, para nos fazer rir nestas horas que antecedem a virada para um 2016 no qual desejo o melhor a todos vocês.

Ah… Por que não escolhi um filme argentino estando aqui em Buenos Aires? No hay. Só o majestoso O Despertar da Força, um pingado de títulos europeus já vistos aí no Brasil, um punhado de longas de terror para diluir a estupidez sexista chamada Jogos Vorazes e um doc sobre tango já assegurado pelo Canal Brasil. Daí, o melhor pareceu matar saudades de Virna.

Beijo para todos vocês.

p.s.: Dá uma lida no compilado de Homem-Máquina, selo Marvel, que a Panini mandou para as bancas há alguns dias. A arte é de Barry Windsor-Smith. Não há que se falar mais nada. Só ler…

p.s.2: Semana que vem estreia Hateful Eight, que leva Quentin Tarantino a cavalgar pelas pradarias da excelência. O desempenho de Jennifer Jason Leigh como a chave de cadeia chamada Daisy Domergue é digno de todos os prêmios aos quais ela já concorre, mais o Oscar. Não percam.

 

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