Uma peça de muita ‘utileza’ de amor à poesia do mago Manoel de Barros

Uma peça de muita ‘utileza’ de amor à poesia do mago Manoel de Barros

Rodrigo Fonseca

05 de dezembro de 2015 | 10h44

Bianca Ramoneda, Gabriel Braga Nunes e o músico Pepê Barcellos em cena de

Bianca Ramoneda, Gabriel Braga Nunes e o músico Pepê Barcellos em cena de “Inutilezas” no palco do Sesc, em Copacabana – foto de Marco Terranova

Tem peça das boas – com cheiro de flor – sobre a lírica (e todo o seu assombro) de Manoel Wenceslau Leite de Barros (1915-2014) em cartaz no Rio de Janeiro, cunhada pela barda Bianca Ramoneda sob o título Inutilezas. Mas antes que se fale dela, é preciso entrar na colmeia poética do poeta mato-grossense, garimpeiro de gemas literárias como O Guardador de Águas e O Fazedor de Amanhecer. Prova isso aqui, antes de falarmos do que anda encantando os palcos cariocas:

Não aguento ser apenas um sujeito que abre portas, 
que puxa válvulas, que olha o relógio,
que compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.

Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.”

 

Um passarinho pediu a meu irmão para ser sua árvore.
Meu irmão aceitou de ser a árvore daquele passarinho.
No estágio de ser essa árvore, meu irmão aprendeu de
sol, de céu e de lua mais do que na escola.
No estágio de ser árvore meu irmão aprendeu para santo
mais do que os padres lhes ensinavam no internato.
Aprendeu com a natureza o perfume de Deus.
Seu olho no estágio de ser árvore aprendeu melhor o azul.
E descobriu que uma casca vazia de cigarra esquecida
no tronco das árvores só serve pra poesia”

 

Foi? Agora… às Inutilezas. A peça está em cartaz no Mezanino do Espaço Sesc, lá em Copacabana, de terça a domingo, às 21h, até 13 de dezembro. Ramoneda divide as cenas com o músico Pepe Barcellos e o ator Gabriel Braga Nunes, ator de dotes cênicos fartos, que assombrou o Festival de Curitiba (lá atrás) em 2003 fazendo Fausto de Goethe, dirigido por Moacir Chaves. É o mesmo Chaves quem dirige Braga e a ruiva agora.  Foi ela quem lapidou um roteiro de ações (e emoções) com base em textos múltiplos e esparsos de Seu Manoel, a fim de construir s memórias de um casal de irmãos que passou a infância num lugar chamado de “Lacuna de Gente”. Há, num plano paralelo, uma metalinguagem sobre o empenho de dois atores que se reúne para transformar poesia em teatro. Trata-se de uma montagem inédito de um trabalho realizado pela mesma equipe em 2002, sob as bênçãos do poeta.

Sobre a empreitada, esta mulher-hífen chamada Ramoneda – que é apresentadora do Ofício em Cena (melhor programa de TV quando o assunto é pesquisa sobre a obra dos grandes criadores da telinha no Brasil), repórter da Globo News, roteirista, dramaturga e atriz – responde o seguinte:

Qual é o fascínio que a poética de Manoel de Barros exerce no continente da Literatura Brasileira?

BIANCA RAMONEDA: Acredito que, no vasto continente da Literatura Brasileira, onde cada autor é capaz de povoar um território imaginário com um universo de palavras, Manoel conseguiu com sua poética criar uma aura de fascínio em torno da ideia de um isolamento. Um isolamento que figura como matéria de sua poesia e que muitas vezes se confunde com a figura do próprio poeta que morava em Campo Grande e passou alguns anos no Pantanal (onde, segundo ele me contou, nunca escreveu uma linha sequer de seus versos). Esse isolamento, em seus textos, reforçado por palavras como “abandono” ou “distância”, alcança seu poder simbólico em frases como “o abandono me protege” e “a distância seria uma coisa vazia que a gente portava no olho”. Manoel construiu, a partir de referências de um interior do Brasil, um território distante do interesse dos que disputam um lugar ao sol nas metrópoles. Dos que buscam explicações na ciência, na economia e na política. Dos que usam as palavras de forma desgastada, como clichês. Lá, nesse lugar que ele chama de “lacuna de gente”, reside o arcaico em nós. É esse arcaico que nos fisga, como uma estranha memória de nós mesmos. Arcaico que se reforça quanto mais velozes e furiosos nos tornamos. E que afirma sua importância nesse contraponto. Ele diria “as antíteses congraçam”. Lá, nesse arcaico onde fincou seus postes de cerca ele promove a inversão que é a chave que conduz toda sua obra : “É preciso dar ao pente funções de não pentear até que ele fique à disposição de se tornar uma begônia ou uma gravanha. Não quero saber como as coisas se comportam. Quero inventar comportamento para as coisas.” Nesse vazio simbólico, povoado pela maior de todas as riquezas, que é a nossa capacidade de invenção, ele ergueu sua poética e a força de sua obra na qual o vigor anda de mãos dadas com a delicadeza. E uma leve tristeza acompanha o humor ácido de suas ironias finas com as quais ele arremata cada um de seus poemas. Nesse interior abandonado de um Brasil profundo – onde habitam outros grandes autores da nossa literatura -, Manoel tem um território próprio. A linguagem que desenvolveu para contar suas histórias também é uma importante ferramenta para pensar sua própria renovação e dos valores do mundo.

Como foi o desafio de transformar poética em dramaturgia? 

RAMONEDA: Aconteceu de forma muito curiosa. Eu conheci a obra do Manoel em 1997, quando fui indicada ao Prêmio Nestlé de Literatura como autora estreante e o Manoel como autor consagrado. Eu queria conhecer as obras que estavam concorrendo e peguei o Livro sobre Nada pra ler. E pirei. Eu tinha 25 anos e me achei uma careta diante de uma escrita como aquela. Achei que aquilo era totalmente transgressor. Aí comecei a procurar e ler tudo o que ele já tinha escrito – e descobri como eu estava atrasada… Ao ler e reler comecei a perceber que os textos conversavam entre eles, mesmo estando em livros separados. Como se o diálogo já estivesse escrito, só que com as falas espalhadas em vários volumes diferentes. Faltava montar o quebra-cabeça que eu garimpava meio intuitivamente. Aí começou um trabalho louco de ir aproximando as conexões que eu percebia e montando uma rede, ligando os pontos mesmo, numa ideia de unidade. Essa não é uma dramaturgia de enredo no sentido de que existe uma história ou uma trama que amarre a narrativa como um todo. Existe um bordado que leva o publico a ouvir uma conversa, mas sem a definição psicológica de personagens ou a composição de tipos. As mudanças de cenas são como movimentos num concerto e o todo forma a peça. Desde o início eu sentia também que a forma dele escrever provocava em mim vontade de falar aqueles textos. Quando expliquei a ele do meu desejo de construir essas conexões, ele me escreveu autorizando. Disse: “entendo os seus sonhos”. E me deu aval para fazer o que eu estava pensando sem controlar o meu processo criativo e sem nenhuma restrição. Ele confiou nos critérios que eu disse que seguiria, ou seja, faria uma edição nos textos apenas deslocando frases ou blocos inteiros de sentidos, mas nunca mexendo na estrutura de nenhuma frase ou amputando poemas. Na véspera da estreia da primeira montagem, há 13 anos, ele pediu para ver o roteiro. Quase tive um troço, mas mandei. Ele já estava no Rio, tinha vindo especialmente para a estreia da peça. E me escreveu : “Gostei muito do roteiro, que me deixou em paz”. Aí eu respirei aliviada. Mas acho que ele se surpreendeu mesmo ao ver que não era um recital e sim uma peça de teatro de verdade.

p.s.: Falando de teatro, Al Pacino está de volta à Broadway com China Doll, texto de David Mamet, no qual o eterno Michael Corleone vive um magnata poderoso às voltas com um aprendiz (Christopher Danham) fascinado pelo Mal. Tá no Gerald Schoenfeld Theater.

O mítico ator encena a peça de David Mamet em NY

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