Uma outra ‘Operação França’ brilha no streaming

Uma outra ‘Operação França’ brilha no streaming

Rodrigo Fonseca

30 de julho de 2020 | 13h10

Rodrigo Fonseca
Finalizando o que promete ser um dos maiores sucessos de bilheteria do cinema europeu do ano – o esperado “OSS 117: Alerte Rouge en Afrique Noire” – mesmo sob os transtorno mil da pandemia, Jean Dujardin está mobilizando olhares na streamingofesra brasileira, com a chegada de “Conexão Francesa” (“La French”, 2014) ao Globoplay. Foi um golaço da programação da emissora, em sua encarnação digital online, apostando no carisma do astro e no engenho do diretor Cédric Jimenez conhecido por “Paris Under Watch” (2012).
Terra do polar (derivação do gênero policial feita a partir de uma releitura europeia das cartilhas americanas dos bangue-bangues de tira vs. Ladrão), a França trata o cinema de ação com um respeito que não se deixou envenenar pelo fel do politicamente correto, apostando em narrativas de vertigem. “La French” é uma delas. Das melhores. Foram 1,4 milhão de ingressos vendidos apenas nas bilheterias de Paris, Marselha, Nice e arredores, à força do apelo popular Dujardin (Oscar de melhor ator por “O Artista”) em um contexto de violência sob os acordes da Era Disco, numa revisão da década de 1970. Jimenez fez uma espécie de versão europeia dos fatos narrados no cult “Operação França” (1971), de William Friedkin, oscarizado com cinco estatuetas. Lá, havia Gene Hackman no papel de Popeye Doyle, detetive numa cruzada contra os narcóticos egressos de Marselha. Aqui Dujardin dá vida ao incorruptível Pierre Michel, juiz que deflagrou uma caça aos exportadores de cocaína.

Não há que se comparar – qualitativamente – os dois longas, pois eles não competem, e sim estabelecem uma relação complementar. O de Friedkin era uma charge, feita no ato dos fatos, com uma carga de urgência e uma textura moderna, rompendo com os cânones do policial por um gesto moderno, de recusa ao lugar comum e de reciclagem da tradição. O de Jimenez é um gesto mais pós-moderno: cheio de cortes, clipado e estruturado como uma montanha-russa sensorial, ele busca um certo senso épico na tentativa de revisitar o passado a partir de seus sintomas mais pop. Ou seja: aqui, o referencial da direção não é o Real em si, mas o ethos e as imagens que o cinema e a música celebrizaram daqueles anos de ressaca. Trata-se, portanto, de um metafilme.
Mais reconhecido como produtor do que como cineasta, Jimenez surpreende pela condução das sequências de perseguição e de tiroteios, estabelecendo uma teia de personagens dos dois lados de uma lei corrupta, na qual Pierre Michel é exceção de honestidade. Por sorte, o diretor arranca de Dujardin uma atuação menos risonha e mais amargurada, criando um vigilante de toga refém do sistema – o grande vilão.
Mas há uma espinha dorsal maniqueísta para oferecer ao público um vilão contra quem torcer: o traficante galã Gaëtan Tany Zampa, vivido por Gilles Lellouche com um charme cafajeste contagiante. Ele e Michel são opostos da moeda, num jogo fílmico de rivalidade capaz de evocar o cult “Fogo contra Fogo” (1995), de Michael Mann. O ódio deles encobre uma estima mútua, num gato e rato que cresce na tela à força de uma montagem temperada de adrenalina.

p.s: Uma das personalidades mais importantes da rádio brasileira, o DJ e locutor Big Boy marcou toda uma geração de ouvintes dos anos 1960 e 70. Com seu estilo irreverente e a minuciosa pesquisa de lançamentos da cena pop internacional, tocados com exclusividade em seus programas, conquistou a juventude da época, sempre saudada pelo inesquecível bordão “Hello, crazy people!”. Comunicador multimídia, Big Boy também criou, em parceria com o DJ Ademir Lemos, aquele que é considerado o precursor dos bailes funk: o Baile da Pesada, que reunia multidões no extinto Canecão, com muito rock, pop, soul e R&B, e completa 50 anos de sua primeira edição este ano. Para celebrar a data, o produtor e DJ Leandro Petersen, filho caçula de Big Boy, convidou os maiores nomes da trajetória do funk para fazer uma live, nesta sexta-feira, a partir das 19h. O encontro, que vai lembrar as divertidas histórias desses bailes, será transmitido no Youtube (www.bit.ly/youtubebailedapesada), no Mixcloud (www.mixcloud.com/BaileDaPesada/) e na página recém-criada do Facebook (www.facebook.com/BigBoyBaileDaPesada), que está sendo atualizada com músicas, vídeos, trechos da voz de Big Boy. Além de bate-papo, haverá um baile virtual com Dom Filó, Mr. Paulão, Peixinho, Marlboro, Corello e Leandro Petersen.

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