Uma diretora de futuro (e para o futuro): Mia Hansen-Love

Uma diretora de futuro (e para o futuro): Mia Hansen-Love

Rodrigo Fonseca

23 de fevereiro de 2016 | 19h49

Ganhadora do prêmio de melhor direção na Berlinale, Mia Hansen-Love transcende o ranço burguês do cinema da França com uma estética de timbre existencial

Ganhadora do prêmio de melhor direção na Berlinale, por ‘L’Avenir’, Mia Hansen-Love transcende o ranço burguês do cinema da França com uma estética de timbre existencial

Baixinha, mignon, com cara de doidinha e cabelos alourados com cheirinho sabor chiclete, Mia Hansen-Love, de 35 anos, guarda em sua silhueta padrão intelectual francesa inquietações sobre o Tempo, o Espaço e (sobretudo) o verbo “amadurecer”. Angústias que, no último sábado, renderam a ela consagração na forma de um ursinho prateado: o de melhor direção. L’Avenir, um ensaio sobre a sensação do tédio e o medo da inércia, trouxe-lhe aplauso e elogio no 66º Festival de Berlim, amparado na leveza de Isabelle Huppert, no papel de uma professora de Filosofia em busca da vontade de potência perdida. É o quinto filme dirigido por Mia numa carreira de realizadora iniciada em 2004, com o curta Après Mûre Refexion, e já renomada graças aos idílicos Adeus, Primeiro Amor (2011) e Éden (2014). Mas aqui, como o título (“o que está por vir”) já aponta, ela fala de futuro: no caso, um amanhã possível para sua personagem, para o cinema de seu país e para a condição das mulheres diretoras. E é aí que talvez resida (num indício de machismo) a origem dos narizes torcidos que lhe rondaram após sua vitória na Berlinale: até jornais AA da França, enxergam nela um laço com a tradição “burguesa” do audiovisual da terra de Truffaut.

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Houve quem enxergasse sua vitória como um gesto político do júri presidido pela atriz Meryl Streep para ressaltar a luta em prol de um cinema de gênese feminina. Bom… se foi isso, parabéns para Meryl pois a causa é válida e, no caso, panfleto e excelência se combinam: os jurados premiaram a melhor. L’Avenir é despretensiosamente potente ao falar do nó que às vezes dá no peito. Entre os 18 filmes em concurso, num festival que deu o Urso de Ouro ao documentário Fuocoammare, muitos tinham vigor para ganhar o troféu de diretor, incluindo aí o belíssimo longa-metragem de Portugal, Cartas da Guerra, dirigido por Ivo M. Ferreira, que o júri esnobou. Mas a autoralidade de Mia carrega mais do que seus dilemas internos: ele espelha tensões e contrações de todo o cinema europeu hoje diante do mal-estar da alma.

“Eu filmo com base na confiança: o fato de a equipe e o elenco compartilharem das minhas dúvidas sustenta uma história, faz uma busca estética caminhar”, disse Mia em entrevista ao P de Pop.

Isabelle Huppert em

Isabelle Huppert em “L’Avenir”: a filosofia da liberdade

Desde Tudo Perdoado (2007), seu longa de estreia, ficava claro que o problema que mobiliza sua filmografia é a percepção do tempo que passa, das coisas que se desmancham, dos corpos que desejam mas não sabem como fruir essa vontade. Interessam a Mia as represas que construímos como um dique para nosso querer. E no drama da educadora Nathalie (La Huppert, sempre bela, sempre ótima), uma barragem impede a fruição do prazer e o entendimento de que Utopias têm poder regenerativo.

“Existe vida no cinema francês: uma vida que se expressa pela diversidade, de temas, de expressões, de diretores”, disse Mia, ao receber seu Urso de Prata. “Não há como prever que futuro essa diversidade há de apontar, pois a nossa riqueza é o poder de ainda gerar surpresa”.

p.s.: Não há uma revista europeia de cinema que não esteja de antenas ligadas com o regresso de David Lynch a Twin Peaks, tendo agora Naomi Watts, Amanda Seyfried e Jennifer Jason Leigh em pequenas participações no projeto, feito para o Showtime. A expectativa é de que o cineasta, agora na direção dos 18 episódios previstos, vá lançar mão de todo o surrealismo que depurou ao longo de seus curtas mais recentes.

Fausto Fawcett estrela

Fausto Fawcett estrela “Vampiro 40 Graus”

p.s.2: Dia 26, sexta-feira agora, começa em Portugal, um dos maiores festivais de terror do planeta, o Fantasporto, cuja 36ª edição segue até 5 de março, tendo três produções brasileiros em suas mostras: Vampiro 40 Graus, de Marcelo Santiago, A Floresta Que Se Move, de Vinícius Coimbra, e 13 Histórias Estranhas, de um coletivo de realizadores.

 

 

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