Uma década de ‘Árvore da Vida’: no Globoplay

Uma década de ‘Árvore da Vida’: no Globoplay

Rodrigo Fonseca

05 de novembro de 2021 | 12h13

Jessica Chastain virou estrela à força da consagração de “A Árvore da Vida”

Rodrigo Fonseca
Cotado para regressar ao Festival de Berlim em sua 72ª edição, de 10 a 20 de fevereiro, com “The Way of the Wind”, sobre a vida de Jesus Cristo, Terrence Frederick Malick, hoje com 77 anos, ainda tem frutos pra colher de “A Árvore da Vida”, produção de US$ 32 milhões que deu a ele a Palma de Ouro, há uma década. Vai lá no Globoplay para prestigiá-lo. Um dos trabalhos mais controversos do diretor americano, produzido e estrelado por Brad Pitt, este drama metafísico centrado na essência ora violenta, ora conciliadora dos seres humanos, estruturado a partir de um diálogo diretor com o Altíssimo, vai voltar às telas da Europa, começando pelo circuito francês. Vai ser apresentada, até a virada do ano, a versão original, que arrecadou US$ 58 milhões pelo mundo afora, em paralelo à indicação do realizador (um ermitão avesso a fotos e aparições públicas) ao Oscar de melhor direção de 2012. Existe uma segunda versão, director’s cut, ainda maior do que a metragem vista em solo cannoise, em 2011, com 2h20, exibida no Festival de Veneza, em 2018, com 188 minutos. Mas a revisão que os exibidores do Velho Mundo propõem é a partir do que se viu e do que se aplaudiu em Cannes, quando Robert De Niro foi o presidente do júri do evento.
Foi com “A Árvore da Vida” que Jessica Chastain despontou para os holofotes de Hollywood, no papel de uma mãe protetora que tenta resguardar um de seus filhos, Jack (Hunter McCracken, quando jovem; Sean Penn, quando adulto) da ferocidade silenciosa de seu pai exigente, o Sr. O’Brien. Este é vivido por Pitt.
Amparado no arrojo da fotografia do mexicano Emmanuel Lubezki, Malick professa na tela uma homilia espiritualista: a tese de que a Natureza está acima da vontade dos homens. Em Malick, a Natureza é a onipotência em estado puro, só que esta é tratada a partir de contornos messiânicos, num reflexo de sua formação pelo transcendentalismo, expresso em ensaístas como Ralph Waldo Emerson e Henry David Thoreau. O ideal transcendental desses autores escorre por Malick, lido à luz e ao ethos do Romantismo, seja pela evasão (no tempo, no espaço) seja pelo tratamento quase divino dado ao Amor.
Analista da dicotomia entre inocência e hipocrisia, Malick sempre arquiteta tomadas belíssimas da natureza – como os campos de trigo de “Cinzas no Paraíso”, de 1978 -, reflexões existenciais – abundantes na Segunda Guerra de “Além da Linha Vermelha”, pelo qual ganhou o Urso de Ouro em 1999 – e licenças poéticas atípicas em Hollywood – como as da América dos anos 1600 de “O Novo Mundo”, de 2005. Outra marca do cineasta: a cada filme que roda, uma multidão de astros do mais alto quilate se oferece a trabalhar para ele a cachês módicos. Na estreia de “A Árvore da Vida”, Sean Penn chegou a dizer que não havia entendido bem o roteiro, mas que valia encará-lo para estar como um mestre daquele porte ao seu lado. Mesmo nos trabalhos em que foi recebido com frieza ou desdém, vide “Amor Pleno” (2012) e “Cavaleiro de Copas” (2015), Malick continuou atraindo estrelas e continuou sendo respeitado como um artesão da imagem. Recebeu o prêmio do júri ecumênico de Cannes, em 2019, por seu “Uma Vida Oculta”, também controverso. Até o mais ácido cronista do cinema americano, o jornalista Peter Biskind, autor de “Easy Riders, Raging Bulls – Como a Geração Sexo-Drogas-Rock’n’Roll Salvou Hollywood”, foi capaz de render elogios ao diretor em uma entrevista de 2011. “Depois de ter desafiado as convenções de roteiro dos EUA, Malick desapareceu, para se dedicar a dar aulas de Filosofia, o que muitos interpretaram como uma recusa de se submeter aos vícios de Hollywood. Certo ou errado, Malick virou um marco de integridade artística”.
Durante anos a fio, o cineasta filmou com hiatos enormes. Mas, a descoberta das câmeras digitais alimentou seu gosto por voltar aos sets ou de remexer em imagens de arquivo. Agora, ele faz um longo atrás do outro. E ainda retoma a colheita de sua “Árvore” cultuada sempre que pode.

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