Uma comédia de amor da grife de ‘Bendito fruto’

Uma comédia de amor da grife de ‘Bendito fruto’

Rodrigo Fonseca

13 de fevereiro de 2020 | 09h06

Rodrigo Fonseca
Até segunda-feira, a Praia do Leme, no Rio de Janeiro, é palco para uma experimentação com sabor de primeiro beijo sobre encaixes afetivos nestes tempos de reconfigurações do querer: “Um Casal Inseparável” está sendo rodado por lá até semana que vem, testando com seus dois protagonistas – Manuela (Nathalia Dill) e Léo (Marcos Veras) – os poderes analgésicos da mão dada e do abraço apertado. Quem dirige é Sérgio Goldenberg, autor, em parceria com George Moura, de uma das 21 produções com DNA brasileiro que vão desfilar pela Berlinale.70 a partir do dia 20 de fevereiro, após a projeção do filme de abertura: o canadense “My Salinger Year”. Há 19 filmes (de distintos formatos) e dois projetos de streaming no Festival de Berlim: “Onde Está Meu Coração”, um drama do Globoplay protagonizado por Letícia Colin e dirigido por Luísa Lima, traz a marca de Goldenberg. Marca que se fez notar nas telonas há 16 anos, em um longa-metragem que ainda ribomba na saudade cinéfila com os fogos de artifício da surpresa. Poucos filmes levaram tanta doçura ao combativo Festival de Brasília quanto “Bendito Fruto”, construído por SG como uma comédia de amores e engasgos lançada por lá em 2004, consagrando o vulcão Otávio Augusto (num papel à la Walter Matthau) e garantindo troféus Candango a Zezeh Barbosa e Vera Holtz. Foi um marco de inteligência nos dez anos da Retomada que, hoje, nem sempre é lembrado com o destaque que merecia, em sua ousadia de aliar uma discussão sobre conflitos de classe com o debate sobre reconfigurações românticas. Agora, de volta ao filão da querência, Goldenberg discute o equilíbrio delicado de um relacionamento amoroso.
Gestado com recheio da TvZero, produtora do premiado “Nise: O Coração da Loucura” (2015), “Um Casal Inseparável” faz uma bifurcação emotiva se tangenciar na curva do coração. De um lado está a professora de vôlei de praia Manuela (Nathalia), autoconfiante e independente. Do outro lado há Léo (Veras), pediatra bem-sucedido, carismático e extremamente sedutor. Eles se trombam e se gostam e se reinventam em dupla até que um desencontro acaba por separar seus caminhos. Existe o amor e existe a vida, sua inimiga. Mas inimigos perdem. E essa crônica sobre escolhas e carícias parece ser um estudo sobre a arte de saber escolher… ou deixar viver. Stepan Nercessian, Totia Meirelles e Danni Suzuki completam o elenco.
Na conversa a seguir, Goldenberg conta ao P de Pop sobre suas expectativas.
Ah… as fotos de divulgação aqui desse papo foram clicadas por Rachel Tanugi.

Qual é o lugar do amor romântico no cinema que você busca fazer como diretor, de “Bendito Fruto” a “Um Casal Inseparável”, e o quanto essa sua nova representação do querer comunga com a geografia física e humana do Rio de Janeiro, cidade que parece ser personagem de seus filmes?
Sérgio Goldenberg:
O amor romântico faz parte da nossa cultura. Na minha casa, nunca foi muito diferente. Mas não perco tempo com aquele amor romântico idealizado. Na vida, acho que ele acontece e vai se construindo com o tempo. É como se passa no “Bendito Fruto” e em “Um Casal Inseparável”. Em “Bendito Fruto”, a história acontece em Botafogo e, agora, nosso bairro é o Leme, dois lugares emblemáticos do Rio.

Comédia romântica sempre foi um filão raro em nosso cinema, mais dedicado ao humor de crônica de costumes. Emplacamos um marco do gênero, há cinco décadas, “Todas as mulheres do mundo” (1966), mas conta-se nos dedos o número de exemplares dessa linhagem narrativa em nossa produção. Como é a sua relação com essa tradição, em outras filmografias, como a de Hollywood? Qual é o desafio de se fazer uma comédia romântica em tempos de revisão comportamental e de novas regras de gênero?
Sérgio Goldenberg:
Gosto das comédias românticas inglesas. “Um Casal Inseparável” é um filme do riso, da graça e da emoção, nem tanto da gargalhada. É o que estou perseguindo e espero conseguir.

Como é a construção da luz com o diretor de fotografia Henrique Vale no set?
Sérgio Goldenberg:
O Henrique gosta muito de usar luz natural e luz ambiente. Tem muito a ver com o tom realista que eu escrevo e filmo. É um grande profissional.

A que linhagem de personagens Manuela e Léo pertencem, no rol de grandes heroínas e heróis românticos? Ainda vale falar nesse tipo de heroísmo no mundo de amores líquidos de hoje?
Sérgio Goldenberg:
Não vejo esses personagens como grandes heróis, não entendo e nem raciocino dessa forma. O filme é uma crônica. A impressão que eu tenho é que posso cruzar o caminho da Manuela e do Leo a qualquer momento na esquina. Acredito na história e na força dos nossos personagens, especialmente depois de vê-los interpretados pela Nathalia Dill e pelo Marcos Veras. Tive a sorte de contar com a parceria do Daniel Herz nos ensaios e durante as filmagens.

O que “Bendito Fruto” te ensinou sobre histórias de amor?
Sérgio Goldenberg:
Acho que a vida me ensinou muito mais do que qualquer filme. Nunca fugi das histórias de amor, muito pelo contrário.

“Bendito Fruto” tinha Azymuth como trilha sonora. E agora, qual é o hinário amoroso?
Sérgio Goldenberg
: Nem tudo está definido, mas sei que vai ter Dorgival Dantas e Martinho da Vila.

De que maneira a sua trajetória na TV talha seu olhar para personagens como Manuela e Léo? Como é a parceria com George Moura na construção dos roteiros?
Sérgio Goldenberg:
A TV ensina muito. A melhor maneira de aprender é fazer. E na TV a gente faz muito. Quanto ao George, ele é mais do que parceiro: virou irmão. A gente se fala tanto que às vezes me pego conversando com ele em pensamento.

O que esperar de “Onde está meu coração” e de sua passagem pela Berlinale?
Sérgio Goldenberg:
Podem esperar MUITO de “Onde Esta Meu Coração”. A história é um mergulho vertical na vida de uma médica que se torna uma dependente química. A médica Amanda (Letícia Colin) é marcada por uma série de compulsões que a levam ao álcool, remédios controlados e drogas ilegais. Tanto a direção quanto os atores mergulharam fundo nessa jornada abissal. E o amor romântico também está lá, do começo ao fim.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: