Uma carta de amor a Nelson Pereira dos Santos

Uma carta de amor a Nelson Pereira dos Santos

Rodrigo Fonseca

10 de dezembro de 2021 | 15h17

Nelson Pereira dos Santos (1928-2018) ensinou a Luiz Carlos Lacerda, o Bigode, que “tudo dá filme”, em especial a resiliência do povo brasileiro

Rodrigo Fonseca
No cardápio de 110 filmes do 23º Festival do Rio, ocupa um lugar nobre a homenagem preparada por Luiz Carlos Lacerda, o Bigode – que estreou como diretor de longas há 50 anos, com “Mãos Vazias” – para seu mestre, o realizador Nelson Pereira dos Santos (1928-2018). Nesta segunda, às 17h, o Lagoon confere “Nelson Filma o Rio”, documentário que contextualiza a relação do cineasta responsável por “Como Era Gostoso o Meu Francês” (1971) com a realidade carioca. Num prólogo, Bigode revê a vinda de Nelson de São Paulo para o Rio, resgata seus primeiros trabalhos nas telas e relembra como surgiu a ideia de filmar “Rio 40 Graus” (1955), que pavimentou a estrada do audiovisual para o Cinema Novo. A pedido do P de Pop, que dá depoimento nesse .doc comovente, Lacerda soltou sua verve de poeta nesta carta em que faz um elogio amoroso ao homem que injetou brasilidade nas veias cinéfilas da América Latina.

Nelson e Grande Otelo nas filmagens de “Rio Zona Norte” (1957)

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Querido Mestre,
Sempre tenho muitas saudades de você.
Frequentemente, o Facebook me traz de volta fotos de algum encontro nosso. Podia ser em sua casa, naqueles almoços de domingo em que você fazia gnocchi para mim, desde a massa até o molho al sugo – coisa com que, às vezes, você costumava privilegiar alguns amigos das suas equipes, nos dias de folga em Paraty ou em Angra, nos muitos filmes que fizemos. Podia ser numa tarde em que ia encontrá-lo na Academia, onde você me apresentava aos seus companheiros imortais e à equipe do Cineclube que você criou – todos fascinados por você. Podia ser uma comemoração em sua homenagem. Podia ser algum festival de cinema. Podia ser nas reuniões de Natal e Ano Novo, em sua casa, incorporado à sua família – que passou a ser um pouco a minha (lembra daquele restaurante português onde eu levei você em Santo Antônio de Lisboa, em Floripa? Vc também me ensinou a comer bem!). Ou podia ser nos meus sets – quando passei a chamar, carinhosamente, de participação afetiva a sua presença nos meus filmes. Lembrei-me agora dos sets de “For All”, quando pedi que o trouxessem para filmar em Natal, como um oficial americano, na cena do jipe que levava Getúlio e Roosevelt, pretexto também para passarmos uns dias juntos nas conversas em que você hipnotizava, involuntariamente, os integrantes do filme à sua volta – e que me deixava muito orgulhoso da sua amizade e do seu afeto. Você lá está, sua imagem eternizada em muitos deles.
Um afeto, como você sabe, iniciado na minha Infância, quando você e sua mulher Laurita frequentavam a casa de meus pais. Nelson, lá em casa, era quase uma religião. Só ouvia meu pai falar da sua inteligência, do seu talento, da sua sabedoria – e da sua simplicidade. Cresci já admirando-o, por tabela. E nunca imaginava que viria a ser seu assistente, e você o meu grande amigo e mestre.
Mestre que me ensinou, sem querer ensinar, coisas que marcaram – e continuam marcando – a minha relação com o cinema, os meus filmes e a minha compreensão de que só é possível fazê-los perdendo os limites entre o ofício e a vida – isso que os religiosos chamam vocação. Essa é a lição que tiro do seu exemplo e da sua postura: o compromisso com a Cultura, a certeza de que o cinema é a expressão cultural do nosso povo – assim como a Literatura, a Música, as Artes Plásticas, a Dramaturgia Teatral. Há, na sua obra, o outro lado dessa moeda suja que desde sempre chamaram mercado, mudando a sua nomenclatura que, desmascarada, precisa mudar o disfarce. Aprendi com você a importância de lutar incessantemente contra o poderoso colonialismo cultural da indústria americana. A mesma que faz filmes para satisfazer, através da violência e das guerras, a demanda de outra indústria: a armamentista. Sinto sua falta também quando, à minha volta – assistindo multidões aplaudindo premiações na festa dos nossos inimigos -, encontro alguns jovens que continuam insistindo em continuar um cinema brasileiro, que fala a nossa língua, come a nossa comida, ama da nossa maneira de amar.
Numa entre as inúmeras oficinas e cursos meus, exibi seu belíssimo e sempre atual “Rio, Zona Norte”. Um aluno negro, emocionado, chorou espantado, comunicando que assistia, pela primeira vez, um negro protagonizar um filme brasileiro. “Isso é Nelson Pereira dos Santos!”, falei pra ele.
Sempre dizia pra você que ia fazer um outro filme que continuasse o meu curta “NELSON FILMA”, a minha singela homenagem do distante ano de 1970. E eis que, na próxima semana, estreia no nosso querido Festival do Rio, esse projeto. Ele se chama “NELSON FILMA O RIO” e conta, através de seus filmes, o seu amor por essa terra que você escolheu para viver, amar, apontar suas mazelas e se solidarizar com seu povo. E também revelar a Beleza “que não é só minha”.
E, por essa razão, novamente, dou entrevistas falando de você. Meus alunos e meus assistentes correm atrás de convites para saber o que mais tenho a dizer sobre seus filmes. São admiradores de todas as idades, são os sobreviventes das nossas gerações, é a meninada. Todos querem prestar essa homenagem numa sala – imunizada da covid-19 sob regras sanitárias – numa celebração na tela grande que você tanto ama.
Noutro dia, entrei no mercado e vi, na padaria, aqueles croissants que importam da França e chegam em containers congelados. São aqueles que eu levava aos domingos, pro nosso brunch cinematográfico – onde eu ia me alimentar de sua visão e análise do momento político do nosso cinema, e que se estendiam por muitas horas – às vezes emendados com almoços – quando lembrávamos das nossas aventuras em Paraty, terra do Poeta José Kleber – que abriu os caminhos para o nosso doce exílio na vila colonial acolhedora. Terra que passou a fazer parte, até hoje, do meu roteiro de viagem, e ainda virou set de meus filmes. É bom lembrar a delícia do convívio dos nossos amigos, mesmo sabendo que quase todos já se foram deste mundo. Como era gostoso o meu croissant!
Pois é. A coisa aqui tá complicada – você, mais uma vez, “cantou a pedra”.
Novamente viramos os bandidos do filme. Mas essa gente bronzeada… e preta e amarela e branca… continuará mostrando o seu valor, como você ensinou. Bento que bento é o frade. Frade. Tudo o que seu Mestre mandar faremos todos!
Ninguém segura mais o Cinema Brasileiro.
Um beijo carinhoso do seu amigo,
Bigo.

Bigode foi assistente de Nelson em filmes seminais do cinema brasileiro, como “Azillo Muito Louco”

Vai ter Festival do Rio até o dia 19. Uma das pedidas mais quentes deste fim de semana é “A Chiara”, de Jonas Carpignani, que será exibido nesta sexta, às 21, no Estação NET Gávea. No último fim de semana, a jovem Swamy Rotolo ganhou o prêmio de melhor atriz no Festival do Cairo, no Egito, por seu desempenho neste thriller à italiana (de tônus dramático) sobre a reeducação afetiva de uma adolescente em meio à descoberta de que seu pai é um criminoso. Há um delicioso diálogo onde se escuta: “Aquilo que você chama de mafioso eu chamo de ser um sobrevivente”. Seu realizador rodou antes “Ciganos da Ciambra” (2017), produzido por Rodrigo Teixeira e Martin Scorsese. Tem mais uma sessão dele no dia 13, no Reserva Cultural Niterói 3, às 18h45.

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