Uma Berlinale que transpira Godard pelo poros

Uma Berlinale que transpira Godard pelo poros

Rodrigo Fonseca

11 de fevereiro de 2022 | 21h08

O cineasta e escritor iraniano Ebrahim Golestan estabelece uma relação semanal, às sexta-feiras, com Jean-Luc Godard no belo .doc “À Vendredi, Robinson”, que está na seção Encounters da Berlinale 2022

RODRIGO FONSECA
Ao forçar, no sentido mais gentil possível do termo, uma interseção de saberes entre dois artistas multidisciplinares nonagenários – de um lado o cineasta e escritor iraniano Ebrahim Golestan; do outro, o realizador e artista visual suíço nascido em Paris Jean-Luc Godard -, a diretora Mitra Farahani, egressa de Teerã, deu à 72ª Berlinale, na ainda seção bebê Encounters, seu filme mais deslumbrante até agora: “À vendredi, Robinson”. Numa alusão à literatura de Daniel Dafoe (1660-1731) e seu consagrado “Robson Crusoé” (1719), a cineasta pinta seus dois objetos de estudo como figuras insulares. Isolaram-se do mundo num insulamento lírico, a fim de criar sistemas semióticos e não narrativas. Durante uma série de sextas-feiras, eles trocam mensagens, numa correspondência que move este .doc poético que dispara como favorito de uma competição ainda neném (como dito acima), paralela à disputa pelo Urso de Ouro, criada em 2020, quando a gestão curatorial de Carlo Chatrian começou. Aliás, Godard – que ganhou o prêmio de melhor direção aqui, em 1960, com “Acossado”, e conquistou o Urso dourado há 57 anos, com “Alphaville”, em 1965 – tem um título a mais na seleção alemã de 2022. Ele entra ainda no cardápio Berlinale Classics com “Nossa Música” (“Notre Musique”, 2004), que regressa em cópia nova.
“As pessoas vivem a me perguntar sobre o que houve no mundo em 1968, mas eu ando bem ocupado a viver o agora. Fiz, sim, parte daquele tempo, quando não se aprendia cinema em escolas, mas sim vendo filmes… às vezes os filmes mais obscuros… e tentando extrair sentido deles, isolando cada imagem”, afirmou o cineasta em Cannes, em 2018, ao ser premiado com uma Palma Honorária por “Imagem e Palavra” (2018).

Godard, em 1965, em meio à vitória de “Alphaville” na disputa pelo Urso de Ouro

Estima-se que ele vá voltar à Croisette este ano, ainda que virtualmente, com um longa novo, gestado ao longo da pandemia, em paralelo a uma live que fez. Em outubro de 2019, a “Cahiers du Cinéma” dedicou sua capa ao diretor suíço (nascido em Paris, em 1930) de carona na chegada de “Imagem e palavra” a um pequeno circuito francês e ao menu da Netflix. “Le livre d’image” – com cenas do clássico “Johnny Guitar” (1954), de Nicholas Ray, em seu explosivo miolo semiótico. A reportagem é fruto de um delicado trabalho dos críticos Stéphane Delorme Joachim Lepastier, que bateram um longo papo com o filósofo da cinemática. A dupla arranca dele reflexões sobre realizadores que merecem uma revisão (como Frank Borzage, de “Depois do casamento” e “Homens de Amanhã”) e sobre atrizes capazes de desafiar paradigmas dos códigos de naturalismo (como Adèle Haenel). E fala muito, durante a conversa, sobre dogmas da produção digital. Há três anos, em Cannes, o homem por trás de “O desprezo” (1963) concedeu uma coletiva de imprensa virtual via Facetime. Ele recusou-se a sair do pequeno escritório onde trabalha, na Suíça, e conversou com a imprensa por Skype, abrindo reflexões sobre o onipresente imperialismo do cinema americano. Enfim, é o que ele sempre fez, desde “Acossado”.
“Falam por aí que o cinema acabou, mas teve um produtor que quis me bancar e há um festival como Cannes, e como Berlim, interessado em me exibir. Talvez a presença de um filme como ‘Imagem e Palavra’ em Cannes seja apenas ação publicitaria, pois eu não sei se tem lugar para ele, e para mim, nas salas de exibição. Mas, na minha idade, o que me interessa é falar do que eu observo nos processos sociais: palavras não são um sinônimo de linguagem, pois linguagem é um conjunto de procedimentos de como empregamos signos. O problema é que as pessoas articulam esses signos sem a coragem de fantasiar o que aconteceria se as convenções fossem usadas de outra maneira. Eu faço filmes porque ainda tenho coragem”, disse o mais emblemático e polêmico representante da Nouvelle Vague.

Juliette Binoche e Vincent Lindon estrelam “Avec Amour et Acharnement”, outrora chamado “Feu”, de Claire Denis

Neste sábado, Berlim vai enfim conferir, em sessão de gala, seu longa mais esperado: “Avec Amour et Acharnement”, de Claire Denis, que conta com trilha sonora de sua habitual colaboradora: a banda inglesa Tindersticks, cantando “Both Sides of the Blade”. Grude dos bons, a canção é xará do título em inglês desse filmaço (o mais visceral de Berlim até aqui, de longo o mais convulsivo) que tem como ponto de partida o relacionamento amoroso de mais de dez anos entre a radialista Sara (Juliette Binoche) e o olheiro de craques Jean (Vincent Lindon). Quando François (Grégoire Colin), antiga paixão de Sara e melhor amigo de Jean, reaparece, sentimentos do passado ressurgem e ela começa a questionar a sua vida. “Não posso resumir essa narrativa a um triângulo amoroso, até pelo fato de eu não resumir filmes a tramas: ele é mais uma experiência sobre coisas que não acabaram e que retornam”, disse a diretora ao Estadão. “Eu estava vivendo a pandemia, logo após o isolamento do primeiro lockdown, quando escrevi esse enredo e Isabelle e Lindon me ajudaram a convencer o nosso produtor de que era importante criarmos”.
A Berlinale prossegue até o dia 16, quando a competição será encerrada, aos olhos do júri presidido por M. Night Shymalan. Vai ter uma dose extra de eventos – de quatro dias – pro público local.

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